"Espero que Medina seja capaz de dizer não ao primeiro-ministro, para bem dele e para nosso bem. Se não bater o pé, há uma série de solicitações que vão cair, e se não tiver capacidade de julgamento independente, será problemático, porque estamos numa situação particularmente difícil", considera o professor catedrático António Nogueira Leite.

Fernando Medina herda a pasta das Finanças e também uma administração pública "muito depauperada", "muito envelhecida numas áreas e bastante desmotivada noutras. Não vai poder atirar dinheiro para cima do problema, como fez Guterres". E dá o exemplo do que aconteceu com Joaquim Pina Moura (de quem foi secretário de Estado das Finanças e do Tesouro), "incapaz de fazer oposição ao primeiro-ministro, porque era uma criação dele".

Para o economista, a administração pública é hoje uma instituição onde muita gente tem os seus lugares de recuo - o de Fernando Medina é na AICEP - Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal -, "uma tradição portuguesa". "Se formos por este país fora, raramente o marido ou a mulher de autarca não trabalha numa entidade pública". "O Estado foi tomado sobretudo pelo partido socialista, mas também, em menor escala e mais ao nível local, por outros partidos".

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Vem aí o PRR - Plano de Recuperação e Resiliência e muitos milhões, sobretudo para a administração pública. Estará o novo governo preparado para isso? António Nogueira Leite lembra que a questão não é apenas onde se vai gastar o dinheiro, mas também o impacto que isso terá em orçamentos futuros.

"Estamos a fazer a reestruturação da maior organização do país. Feita por pessoas que nunca tiveram de se preocupar como é que eu tenho dinheiro para pagar o IVA, para pagar o IRC, o IRS e a Segurança Social, pessoas que não tem experiência nenhuma a não ser experiência na corte do Dr. António Costa". A experiência política "pode facilitar o diálogo com a Soeiro Pereira Gomes [PCP], que é quem comanda a contestação", mas não chega.

António Nogueira Leite confessa que "estava à espera que o governo fosse bastante mais pequeno. Afinal, é o sexto maior governo português, o que não é propriamente enxuto". Mas, sobretudo, considera que o executivo de Costa é "muito assimétrico", com "secretarias de Estado muito mais poderosas do que alguns ministérios".

Para o ex-governante também é estranho o "esvaziamento do Ministério dos Negócios Estrangeiros ou PRR e Energia terem ficado fora da alçada da Economia, agora tutelada por António Costa e Silva - que desenhou a estratégia do PRR e que tem 45 anos de experiência no setor energético.

Acima de tudo, Nogueira Leite espera que este governo "tenha algo que o PS não tem desde 1985, que é espírito reformista". E recorda que Portugal está "em vias de ser ultrapassado pela Roménia". Por isso, conclui, "estes 25 anos são a coisa mais frustrante que alguém que os tenha vivido pode ter".

Ao longo da conversa houve ainda tempo para falar do papel de Marcelo Rebelo de Sousa - "uma pessoa inteligente não é necessariamente um grande líder" e "o Presidente da República não tem a autodisciplina para se concentrar em ajudar a ter objetivos de longo prazo e ajudar o governo a fazer aquilo que devia fazer, mas não quer fazer" - e do principal partido da oposição - "o PSD deixou de atrair jovens, e a vitalidade dos partidos decorre muito das pessoas que não fazem carreira na política mas estão disponíveis para colaborar".

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