27 de março. É Dia Mundial do Teatro, mas os teatros estão fechados. Os edifícios erguem-se nas cidades agora quase desertas. Os cartazes continuam nas paredes. Anunciam datas e peças que não estão a acontecer. A culpa é da Covid-19.

Dentro das casas, as peças de teatro são a vida real. Mas uma vida alterada, quase representada. Quanto tempo passávamos sentados no sofá? Quantas horas com os filhos em casa, para quem os tem? Quantos dias sem ver família e amigos?

O novo coronavírus traz-nos um mundo que parece ficcionado. Quantas vezes já acordou a pensar que tudo isto é mentira?

Mas não é. Está mesmo a acontecer. E com termos e situações estranhas, isso é garantido. Ora veja:

- Em Portugal, falamos do vírus e lembramo-nos de geografia, dada a utilização de alguns termos. Soubemos hoje novos números: 4.268 casos confirmados, 76 mortos. E diz-se que a velocidade com que a curva da Covid-19 subia em Portugal pode estar a abrandar, mas há que reforçar a prevenção. O período mais intenso da pandemia pode não chegar antes de maio e nem ser um pico — mas um planalto.

- Com o seu quê de ficção científica, vamos olhar para as fronteiras com drones. O controlo, com o recurso a estes aparelhos, da linha de fronteira e de cercas sanitárias estabelecidas, como em Ovar, ou a estabelecer, foi autorizado pela Comissão Nacional de Proteção de Dados. Contudo, a captação de imagens tem de salvaguardar a privacidade "daqueles que se encontram nas respetivas habitações".

- Com a Páscoa a aproximar-se, a Igreja Católica estaria neste momento a preparar-se para celebrar a data. Continua a fazê-lo, é certo, mas vai ser tudo diferente. Prova disso é o que acontece no Vaticano. Praça cheia, vozes em uníssono, uma Via Sacra com o Coliseu como pano de fundo? Não. O Papa Francisco vai celebrar os ritos da Semana Santa dentro da Basílica de São Pedro e sem a presença de fiéis devido à pandemia. Mas podemos ver tudo, em transmissões online.

- Neste mundo estranho, nem o gin permanece gin. Passo a explicar: dadas as necessidades, a Sharish Gin, marca de Gin alentejano, juntamente com uma empresa de fabrico de recipientes e de especiarias, um parque de Ciência e Tecnologia e uma universidade, vai produzir 500 litros de gel desinfetante que será doado a quem está na linha da frente do combate à Covid-19.

E poderíamos continuar a enumerar notícias que, com imaginação e vontade, darão certamente bons argumentos para futuras peças de teatro. Todavia, não quero que acabe este dia sem sentir que foi mesmo assistir a uma peça.

Nessa tarefa, o Teatro S. Luiz vai ajudar e levar algumas peças até casa. Até à meia-noite pode assistir online. Deixo três sugestões (ao todo tem sete espetáculos para ver):

  • “Júlia”, de Daniel Gorjão, a partir de August Strindberg (se gostar de histórias trágicas);
  • “As Ondas”, de Sara Carinhas, a partir de Virginia Woolf (se preferir solilóquios profundos);
  • “O Convidador de Pirilampos”, de António Jorge Gonçalves, com texto de Ondjaki (se tiver aí por casa pequenos inventores).

No fim de contas, já dizia Saramago, "este mundo, não nos fatigaremos de o repetir, é uma comédia de enganos". Por isso, não deixando a realidade de lado, vamos tentar torná-la mais agradável, dentro das nossas casas.

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