Diário de um pai em casa. Dia 30


Querido Diário,

Nos dias que correm, é normal publicarmos uma fotografia ou uma história nas redes sociais. Onde estamos, com quem estamos, o que vimos ou estamos a ver, o que estamos a fazer, o que nos vai na cabeça e na alma e um sem fim de assuntos, mais ou menos profundos ou mundanos. Todo o nosso dia e o nosso estado anímico e psíquico cabe nesse espaço reservado a amigos e aberto ao público.

O que publicamos hoje, em 2020, passará a um feed de memórias exatamente daqui a um ano. Na cronologia de uma das redes sociais – Facebook – que veio substituir os nossos diários, pervertendo o seu sentido. Deixou de ser nosso, para ser de todos.

Com esse exercício na cabeça, decidi descrever um par de horas do meu dia: doze de abril de dois mil vinte. Domingo de Páscoa.

Escrevi-o não para recuperar, posteriormente, uma selfie de felicidade. Faço-o, sim, para recordar o que estamos a viver. E ter base de comparação em relação ao ano anterior a este e ao que acontecerá exatamente daqui a 12 meses. No fim do triénio, poderei observar a tendência das nossas vidas. Como se fosse um AC e um DC.

Na corrida matinal, desta vez à beira-rio, fui recebido com um bom-dia e boa Páscoa de um polícia municipal. Ao longo do trajeto, vi baias de segurança e grades a delimitar entradas e passeios, e talvez uns dois ou três carros da polícia e o dobro de efetivos.

Não vi qualquer movimento das marinas, as escolas náuticas estavam fechadas e no enorme estuário do Tejo coube somente um barco. Era da Transtejo, tinha o nome de “Almadense”. Atracou em Pedrouços, não depositou ninguém, nem se preparava para levar alguém.

Vi gente a desfrutar do exercício físico de curta duração que nos é permitido. Diria que o trajeto estava a 95% da sua capacidade. Nunca tinha visto esta pista tão vazia.

Todos os restaurantes estavam fechados. Somente a porta de um café estava aberta. Tinha duas cadeiras a barrar a porta. Na rua, um casal tomava, em pé, munido de copos de plástico, a bebida à base de cafeína.

O Maat estava sem vida. No topo do museu, não havia os tradicionais casais mais centrados neles do que no rio. Simplesmente, não havia ninguém.

A bomba de combustível estava fechada.

Junto ao Mosteiro dos Jerónimos eram quase tantos os polícias, quantos os “turistas”. Zero filas. Ninguém nos jardins da Praça do Império e Afonso Albuquerque. O mesmo na Torre de Belém. Estava sozinha. E o hotel na Doca do Bom Sucesso parecia uma casa fantasma.

Dois carros da PSP circulavam, sentido Lisboa-Algés e Algés-Lisboa. Não fizeram uma ultrapassagem que fosse.

O sentimento de ausência de existência acompanhou-me no sentido inverso até à Doca de Santo Amaro. Ali, nem um vestígio de “copos” da noite anterior. Nem de empregados de limpeza.

No regresso a casa, pela Avenida Infante Santo, contei pelos dedos os carros com que me deparei. Dois no sentido descendente, três a subir.

A padaria, onde ao domingo me sento com a minha mulher a comer bolas de Berlim, sem creme, só permite a permanência de três pessoas. Quem lá vai, fica à porta, a mais de um metro de distância, à espera de vez. Ninguém está autorizado a sentar-se, nem a consumir dentro do espaço. Quando entram ou saem, borrifam as mãos em álcool gel.

Entrei em casa, não sem antes deixar os sapatos à porta e mudar de roupa. Desinfetei as mãos.

É dia almoço de Páscoa. Creio, se a memória não me atraiçoa, que é a primeira vez que acontece cá em casa. O meu destino alterna, ano após ano, entre idas a casa da mãe, sogra e pai, onde convivo com cunhados e sobrinhos. Hoje não houve repasto alargado. Os desejos de boa Páscoa foram dados por telefone. Ninguém se viu ou cumprimentou.

A minha mulher, eu, e os nossos quatro filhos não saímos de casa. Nem para tomar um café, depois do lombo no forno com arroz e batata palha e a tarte de limão merengada, como sobremesa.

Espalhámos ovos de chocolate pela casa. Esconderijos fáceis. Tirámos a fotografia habitual. Só que, desta vez, fomos só nós os seis. Pai, com rapazes, mãe, com raparigas.

Querido Diário,

Esta é a descrição do tal par de horas do ano da graça de doze de abril de dois mil vinte. Um domingo. E uma Páscoa vivida em isolamento social e ao abrigo de um Estado de Emergência devido à pandemia da covid-19.

Para o ano, volto a ti.

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