Quando no dia 16 de março o primeiro-ministro britânico Boris Johson falou pela primeira vez à população na necessidade de evitar “o contacto não essencial com outras pessoas”, de evitar “todas as viagens desnecessárias”, de passar a trabalhar, sempre que possível, a partir de casa e de se “evitar bares, discotecas, teatros e outros locais sociais”, o Reino Unido já contabilizava 1543 casos de infeção pelo novo coronavírus, que provoca a doença Covid-19, e 55 mortes.

“Quando se sai à rua está tudo normal. As lojas e os restaurantes estão cheios com famílias e crianças, não se vê uma pessoa com máscara. Não se sente que existe uma pandemia, só mesmo quando se vê a situação nos hospitais. As notícias que passam são para não fechar as escolas e serviços. Fala-se que o objetivo do governo é criar imunidade de grupo a partir da contaminação de 60 a 70 por cento da população, daí as medidas de manter os serviços abertos para tentar reduzir o pânico. Não percebemos que custo é que estas medidas poderão ter quando se observa o que está a acontecer pelo resto da Europa”.

O relato, àquela data, era de Joana [nome fictício] uma enfermeira portuguesa a trabalhar em solo britânico. Quatro dias depois, a 20 de março, Johnson anunciou novas medidas, desta vez mais restritivas e em consonância com o que estava a ser feito no restante continente europeu. Fecharam-se as escolas, os restaurantes, os bares, as discotecas, os cinemas, os locais que, no fundo, o chefe de governo considerou, na comunicação anterior, serem “locais sociais”. Por esta altura, o Reino Unido registava 3983 casos de pessoas infetadas com Covid-19 e 177 mortes.

O plano da imunidade de grupo já não pairava no ar e foi remetido por Matt Hancock, ministro da Saúde, a conceito científico e não a estratégia de saúde pública. Desde que tinha sido publicado um estudo pela equipa da Imperial College de resposta ao coronavírus que afirmava que um plano de controlo que envolva apenas o isolamento dos casos suspeitos, mas que não imponha restrições para o resto da sociedade podia resultar na morte de 250 mil pessoas, que a imunidade de grupo não soava a um bom plano.

Até o Reino Unido assumir uma estratégia baseada no distanciamento social, como é recomendada pela Organização Mundial de Saúde, o país viveu o seu dia-a-dia. E se nas ruas a pandemia soava a retratos distantes vindos da China ou de Itália, nos hospitais a realidade era outra.

No Kettering General Hospital, na cidade Kettering, distrito de Northamptonshire, a norte de Londres, já no interior do Reino Unido, Joana relata ao SAPO24 um ambiente de total desvalorização da pandemia, inseguro para quem ali trabalha e de vulnerabilidade para quem ali é internado.

Nos serviços de medicina respiratória daquela unidade hospitalar, há casos de doentes infetados com Covid-19 lado a lado com outros doentes não infetados e com problemas respiratórios, pressão da gestão do hospital para não serem utilizados demasiados materiais de proteção, aqueles que são aconselhados pela OMS, e fracas medidas de higienização.

Joana conta-nos que assistiu na primeira pessoa a uma situação que a deixou perplexa. Numa enfermaria, um doente infetado com o novo coronavírus lado a lado com outros dois doentes, que na altura ainda não estavam infetados, um deles com uma traqueostomia, um orifício artificial criado cirurgicamente na frente ou nas costas do pescoço, visando a traqueia, e o outro que recentemente tinha feito um transplante pulmonar.

“O doente com Covid-19 acabou por ser transferido para outro serviço e os restantes doentes continuaram na mesma enfermaria. A gestão do hospital foi questionada acerca da necessidade de se fazer uma limpeza apropriada para evitar que este fosse um local de possível contaminação e as instruções que recebemos foi para limpar com toalhitas desinfetantes (que são utilizadas na limpeza normal diária) e abrir as janelas”, conta-nos.

Após esta desinfeção, novos doente foram admitidos nessa mesma enfermaria.
“No outro serviço para onde o doente foi transferido existem também casos positivos e suspeitos. De acordo com enfermeiros que trabalharam neste turno e neste serviço, o mesmo está dividido ao meio: doentes infetados ou suspeitos e doentes com outras enfermidades. Na primeira zona, os enfermeiros e auxiliares de enfermagem têm instruções para entrar nas enfermarias e quartos de doentes infetados ou suspeitos apenas com luvas e máscara cirúrgica… Todos os profissionais que se encontram a trabalhar nestes serviços estão assustados e sentem que as medidas de proteção pessoal e para os outros doentes não são adequadas”, refere.

Mesmo com a utilização destes materiais básicos de proteção, Joana, conta-no que a equipa foi abordada “por um membro da gestão do hospital que ameaçou reportar que estavam a utilizar material de proteção em excesso”. “Este membro da gestão acabou mesmo por entrar nas enfermarias sem qualquer tipo de proteção. Nestes serviços também não houve restrição de visitas a doentes infetados”, sublinha.

Os problemas não se limitam, no entanto, ao serviço de medicina respiratória. “Há relatos de acontecimentos semelhantes noutros serviços deste hospital, onde doentes infetados estão a ser transferidos a partir do serviço de urgência sem máscaras ou qualquer equipamento de proteção. Os profissionais estão a ser colocados em risco e sentem-se frustrados por não existirem medidas e planeamento para lidar com a situação”, conta Joana que nos revela que entre as equipas já há profissionais que “apresentam sintomas respiratórios” associados à infeção por Covid-19.

O caso, no entanto, não é relato único. Numa exposição anónima ao jornal britânico The Guardian, um médico que trabalha na “zona vermelha” e lida diariamente com doentes infetados com Covid-19, conta que receberam instruções para deixarem de utilizar equipamentos totais de proteção, como é recomendado pela OMS, e para passar a usar unicamente luvas e máscara cirúrgica.

“Estou assustado. Estou seriamente a considerar se consigo manter-me ou não a trabalhar. Eu posso ficar bem - sou jovem e saudável -, mas não consigo suportar a ideia de infetar outros pacientes com uma doença que os pode matar. E esse é o risco quando não usamos o devido equipamento de proteção. É assustador, é indiscritível. Isto não é uma gripe sazonal. Este é um vírus mais mortal e sobre o qual sabemos muito pouco”, pode ler-se no relato.

O artigo é do dia 16 de março, o mesmo dia em que nos chegou o relato da enfermeira portuguesa e o mesmo em que Boris Johnson falou pela primeira vez, concretamente, na necessidade de adotar medidas de distanciamento social. Hoje é dia 26 de março, há 11.658 casos de infeção no Reino Unido e 578 mortes, mais 115 do que no dia anterior.

Hoje, 10 dias depois, à conversa com Joana a expressão "assustados" mantém-se tal e qual. Diz-nos que continua a haver falta de equipamento, embora admita que o governo olhe agora para o problema com outros olhos e que está a tentar colmatar essa falha. No entanto, o grande tema é outro: começaram a aparecer os primeiros casos de contaminação entre profissionais do hospital.

Até hoje, nem a Ordem dos Enfermeiros portugueses, nem a Embaixada de Portugal no Reino Unido receberam qualquer queixa ou relato provenientes de profissionais da saúde portugueses a trabalhar em território britânico. Só largos dias depois de assumidas as medidas de prevenção é que se notam os efeitos, até lá os números contam a história de um país que demorou a acordar para a pandemia.

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