“Para aquilo que estamos a fazer neste momento, a RTP está subfinanciada e isso é dito por vários partidos políticos e eu subscrevo essa afirmação”, afirma Nicolau Santos, que assumiu a presidência do Conselho de Administração do grupo de rádio e de televisão público há um ano.

“Ou seja, nós estamos a fazer muito mais coisas daquilo que o Contrato de Concessão nos obrigava, portanto, temos de pensar se devemos continuar a fazer isso ou não. Mas o exemplo mais concreto é por exemplo: a RTP deve ou não tornar-se uma empresa cada vez mais a aproximar-se do ‘streaming’, das plataformas digitais, das multiplataformas”, questiona o gestor.

“À partida sim, esse é o caminho”, mas “isso não está no Contrato de Concessão, o esforço é todo nosso”, aponta Nicolau Santos, recordando, por exemplo, que foi lançada a RTP Play, que do seu ponto de vista, é “uma Netflix portuguesa, com a grande vantagem de ser totalmente grátis”, onde estão as séries, filmes portugueses, além de se poder ver informação em direto.

Tal como foi lançada a RTP Arena, que é para jogos dos chamados eSports, a RTP Palco para espetáculos desportivos, mas “nada disso está no contrato”, sublinha o presidente da RTP.

“Nós pensamos que esse caminho é fundamental, porque cada vez mais as pessoas veem a televisão por esses ‘streamings'”, refere, partilhando um “número curioso”: no início do século 80% da audiência estava nos canais generalistas, hoje em dia já não há 50% de audiência tradicional nos canais tradicionais.

Ou seja, “houve uma mudança claramente para estas plataformas”, e, portanto, “temos de tentar perceber se esta tendência é efetivamente futura – parece-me que é – e como a RTP se adapta aos novos tempos”, prossegue.

Questionado se a aposta no digital e no ‘streaming’ vai constar na proposta do Contrato de Concessão da RTP que a administração irá entregar, Nicolau Santos salienta que “seguramente vai estar”.

O responsável recordou que na anterior proposta do Contrato de Concessão o então secretário de Estado Nuno Artur Silva, que tinha a tutela dos media, fez depender, “por exemplo, a entrada de dois novos canais na televisão digital terrestre [TDT] e o lançamento de novos canais (…) de um aumento da Contribuição do Audiovisual [CAV]”.

Ou seja, nessa hipótese constava o “aumento de 15 cêntimos em 2023, 10 cêntimos em 2024 e outros 10 cêntimos em 2025”, mas esta orientação “não passou na Assembleia da República”.

“Portanto, ao não passar, ele tinha preventivamente também dito que se não houvesse aumento de financiamento, todas estas hipóteses caíam por terra. Ora, portanto, o que estamos a fazer agora, Conselho de Administração, é olhar precisamente para o que estava dependente desse financiamento, estamos a partir do princípio que não há esse aumento do financiamento e algumas coisas que estavam ali não vão ser feitas, nomeadamente novos canais, dois novos canais na televisão digital terrestre, isso obviamente que não vai acontecer”, refere.

Mas, “o que nós queremos mais? Queremos que fique em aberto a possibilidade de, precisamente nas plataformas ‘streaming’, podermos captar publicidade ou mesmo fazer subscrição para produtos que não passem em sinal aberto, parece-nos que esse é obviamente o caminho”, defende Nicolau Santos.

Caso contrário, “temos de olhar de novo para a RTP e pensar o que vai ser a RTP no futuro se não tiver nenhuma possibilidade de aumentar o seu financiamento e os custos continuarem a crescer”, sublinhou.

Tal “não é, do meu ponto de vista, um caminho muito feliz para a RTP, porque para compensar estas situações teremos seguramente de ir cada vez mais à grelha e ter eventualmente produtos menos interessantes, mais baratos, fazer mais repetições, o que leva a quebras de audiência”, aponta o gestor.

Depois, “entra-se numa espiral em que se vai perdendo audiência e vai-se tendo cada vez menor qualidade no serviço que se presta”, pelo que, insiste, “há uma reflexão que é importante fazer relativamente ao futuro da RTP”.

Aliás, “quando pedimos aos diretores para cortarem cerca de 5% do seu orçamento este ano, precisamente devido à situação de prejuízos que vamos registar, a grelha foi também uma das atingidas”, mas “pediu-se a todos os diretores precisamente para não ser só a grelha a pagar a fatura”, conta.

No entanto, “o que é certo é que a grelha também vai reduzir o seu investimento e vai provavelmente fazer mais repetições”, lamenta.

Analisando as “grandes tendências” que se verificam quer na BBC como nas televisões nórdicas, o ‘streaming’ “é o caminho que está a ser feito”, diz.

“Os canais lineares estão a perder claramente audiência”, sendo que há alguns que “se calhar não faz sentido que eles continuem, enquanto o ‘streaming’ tem vindo a ganhar preponderância”, sublinha o presidente da RTP, referindo, no entanto, que há necessidade de questionar se “enquanto televisão pública”, há “capacidade para ter um ‘streaming’ que seja do ponto de vista comercial rentável”.

Isto porque há televisões privadas que também estão nesta área.

“Não seria mais interessante juntarmo-nos todos para apresentarmos produtos conjuntos que seriam efetivamente mais capazes de atrair público porque teriam obviamente maior diversidade?”, questiona.

Nicolau Santos refere que este é “um diálogo muito inicial, que está mesmo a começar”, mas, de qualquer maneira, a RTP está a fazer o seu caminho.

“Como digo, a RTP Play é uma verdadeira Netflix e é extraordinário aquilo que nós disponibilizamos aos portugueses gratuitamente”, reitera, salientando que está a ser um esforço de divulgar esta plataforma, que tem vários conteúdos disponíveis, incluindo séries e filmes internacionais.

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