Desde o dia das eleições, no passado dia 6, que o presidente do PSD não tinha qualquer intervenção pública e, nas reuniões partidárias, não tinha avançado se pretendia ou não recandidatar-se ao cargo nas diretas previstas para janeiro. Esta segunda-feira, Rio anunciou que vai à luta, no meio de muitas críticas aos adversários internos do partido.

"O que está em jogo é demasiado importante para que a minha decisão possa ser outra. Estou pois disponível para disputar as próximas eleições internas, liderar a oposição ao Governo do Partido Socialista e conduzir o PSD nas próximas eleições autárquicas", disse.

O anúncio foi feito ao final da tarde, no Porto, numa declaração em que líder social-democrata disse estar disponível "para lutar contra todas as adversidades inerentes ao exercício do cargo de líder da oposição", mas não para voltar a enfrentar "deslealdades e permanentes boicotes internos" nos moldes em que teve de "fazer ininterruptamente desde a sua tomada de posse em fevereiro de 2018.

O líder do PSD referiu-se ao "golpe de janeiro passado, quando alguns procuraram fazer no PSD o que se fez no PS em 2014".

Rio referia-se ao desafio à convocação de diretas antecipadas feito por Luís Montenegro. Esse repto foi recusado por Rui Rio que levou a votos uma moção de confiança à sua direção, aprovada com 60% dos votos em Conselho Nacional.

"Miguel Relvas diz que eu não gosto muito do PPD a que aderi há mais de 40 anos, e do PSD que, nestes mesmos 40 anos, tanto fez por Portugal. Mas Miguel Relvas em parte tem razão, efetivamente, eu, muitas vezes, não gosto nada do vejo nos partidos políticos, incluindo o meu", afirmou, defendendo que "num partido democrático e civilizado", o que a todos se exige é que, depois das eleições internas, “se seja leal".

Numa sala cheia de militantes, no Porto, o líder do maior partido da oposição explicou também que, no seu entendimento, a liderança do novo Grupo Parlamentar do PSD deve estar "em consonância com o presidente do partido entretanto eleito", afirmando que nunca fará aos outros o que lhe fizeram.

"Por isso, assumirei eu próprio a liderança da bancada, de molde a que o novo líder parlamentar seja apenas escolhido em definitivo após a realização do próximo Congresso Nacional", revelou.

Segundo Rui Rio, esta é uma situação de exceção ditada pela proximidade desse mesmo congresso, após o qual marcará a sua participação na Assembleia da República, "fundamentalmente nos grandes debates nacionais".

Duas semanas depois das eleições legislativas, Rui Rio anunciou publicamente o resultado de uma reflexão iniciada na noite eleitoral de 06 de outubro, em que o PSD obteve 27,7% dos votos (correspondentes a 79 deputados), contra 36,3% do PS (108 deputados).

Em maio, o PSD tinha perdido as europeias com menos de 22% - pior resultado de sempre em eleições nacionais – e, em 22 de setembro, venceu na Madeira, embora perdendo a maioria absoluta, tendo formalizado, entretanto, um acordo de Governo Regional com o CDS-PP.

Nos últimos meses e durante a campanha, o líder social-democrata fez depender a sua continuidade no cargo não apenas dos resultados, mas, sobretudo, da capacidade de ser ou não “útil ou ao país”.

Por várias vezes, Rio salientou que só voltou a assumir um cargo de protagonismo na vida política para poder contribuir para as reformas que entende serem essenciais ao país e que só são possíveis com acordos partidários alargados, apontando quatro exemplos: sistema político, segurança social, descentralização e justiça.

Aliás, no final de uma audiência com o Presidente da República, dois dias depois das eleições, o líder do PSD disse temer que pudesse ser firmado um acordo entre BE e PS que inviabilizasse a possibilidade de haver entendimentos no futuro sobre essas matérias estruturais, o que acabou por não se concretizar.

Na noite eleitoral, Rio assumiu que o PSD não alcançou o principal objetivo – vencer as legislativas – mas defendeu que não se tratou de “uma grande derrota”, explicando o resultado pela conjuntura económica internacional favorável ao Governo, pelo surgimento de novos partidos à direita, mas também pelas sondagens que terão “desmotivado” os eleitores sociais-democratas e pela ação dos críticos internos.

Rio considerou ainda ter enfrentado, ao longo do seu mandato, “uma instabilidade de uma dimensão nunca antes vista na história do PSD e exclusivamente motivada por ambições pessoais”.

Desde 06 de outubro, foram várias as vozes a contestar a liderança de Rui Rio, entre elas a do antigo líder parlamentar Luís Montenegro, que, três dias depois das legislativas, assumiu que será candidato às próximas diretas – previstas para janeiro – e disse que gostaria muito que o atual líder também concorresse.

Montenegro foi o principal rosto da oposição interna que, nos últimos dois anos, não poupou a atual direção, culminando em janeiro num desafio à convocação de diretas antecipadas. O repto foi recusado por Rui Rio que levou a votos uma moção de confiança à sua direção, aprovada com 60% dos votos em Conselho Nacional.

Na sexta-feira, também o antigo presidente da distrital de Lisboa do PSD Miguel Pinto Luz anunciou que participará na disputa da liderança do partido.

No final de 2017, Rio apresentou-se como candidato à liderança do PSD prometendo “fazer diferente” e “um banho de ética” na política, e quando derrotou Pedro Santana Lopes nas diretas avisou que o PSD “não foi fundado para ser um clube de amigos”.

Depois de ter prometido “uma oposição firme, mas não demagógica” ao Governo, Rui Rio assinou em abril do ano passado dois acordos com o executivo: um sobre os princípios gerais do processo de descentralização e outro em que PSD e o executivo concordam que Portugal não pode perder fundos no próximo quadro comunitário.

Perante críticas internas de que o partido estaria a ser “uma muleta do Governo”, Rio contrapôs que quando os entendimentos “são bons para o país, são bons para o PSD”.

Nascido no Porto a 06 de agosto de 1957, 62 anos, Rui Rio ganhou visibilidade como presidente da Câmara Municipal do Porto durante três mandatos, entre 2001 e 2013, mas o percurso político do militante do PSD já tinha começado bastante antes, na Juventude Social Democrata.

Rio foi vice-presidente da Comissão Política Nacional da JSD entre 1982 e 1984 e entre 1996 e 1997 foi secretário-geral do PSD, quando era presidente do partido o atual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Nesse período, o social-democrata travou algumas guerras internas devido ao processo de refiliação de militantes que levou a cabo, gerando muitos anticorpos no aparelho do partido – chegou a propor colocar um relógio de ponto na sede do partido para controlar as entradas dos funcionários.

Marcelo Rebelo de Sousa foi mantendo Rio no cargo, mas este acabaria por sair pelo seu próprio pé, depois das autárquicas de 1997, em divergência com o presidente do partido.

O ex-autarca do Porto foi vice-presidente do partido com três líderes: de 2002 a 2005, com Durão Barroso e Pedro Santana Lopes, e mais tarde, entre 2008 e 2010, com Manuela Ferreira Leite.

Estudou no Colégio Alemão e licenciou-se em Economia pela Universidade do Porto – tendo sido eleito pela primeira vez presidente da Associação de Estudantes da faculdade em 1981 –, e manteve sempre um percurso profissional como economista, tendo chegado à Assembleia da República em 1991, onde foi deputado durante 10 anos.

Depois de ter saído da autarquia do Porto, voltou à banca, assumindo um cargo não executivo no Comité de Investimentos do Millenium BCP e foi consultor da empresa de recursos humanos Boyden até vencer a liderança do PSD.

(Notícia atualizada às 20h13)

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