“A forma como ainda hoje prescrevemos e tratamos os doentes [de Parkinson] reflete uma forma de tratamento que já não é compatível com o que a ciência nos ensina”, disse à agência Lusa o especialista do Instituto de Medicina Molecular.

O tema vai ser debatido numa mesa redonda, com o tema “Está o SNS preparado para tratar a Doença de Parkinson”, no congresso anual da Sociedade Portuguesa de Neurologia, que decorre entre quarta-feira e sábado em Lisboa.

“A questão que se coloca em Portugal não é diferente do problema que se coloca no mundo ocidental, em que a frequência de doentes com doença de Parkinson irá aumentar nos próximos anos”, disse Joaquim Ferreira.

Por outro lado, sublinhou, “como os cuidados, felizmente, melhoram, vamos ter mais doentes a viver mais tempo e a chegarem a fases mais avançadas da doença”.

Esta situação levanta um desafio aos serviços e aos vários intervenientes nesta área, que têm de adaptar-se a esta nova realidade e à mudança dos cuidados prestados na doença.

Para o especialista, “já não faz sentido” o tratamento destes doentes “numa consulta clássica” com um médico, bem como prescrever um número limitado de sessões de fisioterapia, quando as recomendações internacionais sugerem que os tratamentos de reabilitação devem ser feitos de “forma continuada”.

“Os doentes com doença de Parkinson e outras doenças neurodegenerativas não têm apenas problemas neurológicos, têm problemas urinários, têm problemas de pele, de deglutição”, o que exige a intervenção de várias especialidades no tratamento destes doentes, seguindo as recomendações internacionais.

Para isso, defendeu, “precisamos de enfermeiros treinados, de neurologistas treinados, de médicos de medicina geral treinados para que os cuidados sejam prestados" a estes doentes, "que vão requerer mais cuidados".

No congresso, Joaquim Ferreira vai questionar os “vários protagonistas” desta área (médicos, fisiatras, administradores hospitalares, doentes, cuidadores, associações de doentes) sobre como é que as estruturas se estão a adaptar a este novo desafio.

“Se hoje me perguntar se já estamos preparados a resposta é não”, apesar de já ter havido "enormes avanços”, muitos deles com “benefícios e consequências”, que resultam num melhor tratamento dos doentes.

Contudo, se quisermos que as estruturas hospitalares, os centros de saúde, cada um dos médicos façam melhor trabalho dentro de cinco a 10 anos, “temos de começar desde já a planear”.

O Congresso de Neurologia 2016, subordinado ao tema “Neurologia e a Sociedade”, vai reunir cerca de 400 especialistas, que vão debater temas como os cuidados continuados e paliativos em neurologia, o vírus Zika, a epilepsia, as doenças cardiovasculares e as demências.

“Este ano optámos por virar para fora o congresso”, para a relação da neurologia com a sociedade em que está envolvida, nomeadamente hospitais, estruturas de apoio, associações de doentes, os mecanismos oficiais que se articulam com os doentes neurológicos e também com os profissionais da neurologia, disse à Lusa o presidente do congresso, Vítor Oliveira.

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