Nos últimos três anos, a Quebrar o Silêncio, organização de apoio a homens vítimas de violência sexual, tem trazido para cima da mesa a discussão em torno do papel dos homens na promoção da igualdade.

O princípio de ter "homens e mulheres lado a lado pela igualdade de género” tem sido o fio condutor em todas as edições, mas o mote vai variando. Este ano é “a comunicação”.

Os organizadores esperam juntar mais de 200 pessoas a discutir a responsabilidade de todos - e de quem tem mais visibilidade, em particular - na forma como se comunica sobre a “violência doméstica, a violência de género, a igualdade de género” e “todas estas questões que andam de mãos dadas”, explica ao SAPO24 Ângelo Fernandes, fundador e presidente da Quebrar o Silêncio.

Para “refletir acerca da forma como as notícias sobre violência são dadas na comunicação social” e “perceber quais são as responsabilidades [dos comunicadores], se há limites ou não, se existe uma reprodução de estereótipos”, a organização convidou figuras de referência em várias áreas. Do humor ao jornalismo, da arte à educação, do trabalho à sexualidade, o ISCTE vai receber sete painéis temáticos e três workshops, nos dias 14, 15 e 16 de novembro.

Esta é a terceira edição do Encontro “O homem promotor da igualdade”, que conta com o apoio da Secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade.

Como surgiu o tema da comunicação para este ano?

Já no ano passado tínhamos pensado neste tema para a terceira edição. E, quando 2019 começou, houve várias notícias sobre casos de violência doméstica. Então, decidimos que fazia ainda mais sentido tornar este o tema oficial do encontro.

Porquê?

Porque é preciso criar um espaço de reflexão. É necessário perceber se existe responsabilidade dos influencers, de quem escreve artigos de opinião, da própria comunicação social quando retrata e aborda estes casos, e até outras de formas de expressão, como a educação, a arte… As pessoas que têm uma visibilidade grande acabam por moldar e influenciar opiniões. Que mensagens é que estamos a comunicar? Que cuidados é que devemos ter? Será que estamos a comunicar os mesmos conceitos?

Como assim?

Quando se fala de violência contra as mulheres, de discriminação, de assédio, será que temos todos e todas o mesmo património? Estamos na mesma base de entendimento? No primeiro dia [14 de novembro], vamos ter três grandes painéis que focam isto.

Mas os pontos de vista vão ser diversificados.

Sim, fazemos uma viagem pela questão da opinião e liberdade de expressão — que desafios existem? Depois, vamos falar especialmente na comunicação social: como se retratam as questões da violência em especial? E a seguir temos um painel que abrange as questões da educação e outras formas de arte.

Quais são os destaques no segundo dia, 15 de novembro?

Há um primeiro painel que começa com o tema geral do encontro: homens que podem promover a igualdade. Depois vamos ter histórias de vida de pessoas que de alguma forma quebraram estereótipos e que venceram o preconceito e discriminação.

Por exemplo?

O Célio Dias [atleta olímpico de judo homossexual e com doença mental], a Elisabete Jacinto [piloto de todo-o-terreno] e o Diogo Veríssimo [educador de infância].

A seguir, passamos para a questão da prevenção da discriminação. Por exemplo, a Cristina Milagre [adjunta da Secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade no último Governo] vem falar das campanhas de sensibilização e de consciencialização, que podem ter um impacto muito positivo no empoderamento de vítimas. Mas é preciso refletir sobre o que funciona melhor e o que não funciona tão bem.

E, no último painel, voltam a falar do impacto dos órgãos de comunicação social nas vítimas. Em que é que isto é diferente do que já foi discutido antes?

Vamos falar sobre a forma como algumas notícias podem ser desencadeadoras de crimes e ter impacto nos sobreviventes de violência sexual. A Margarida Medina Martins, da Associação de Mulheres Contra a Violência, por exemplo, vem falar das vítimas enquanto artigos de consumo pelo público. Às vezes, alguns meios exploram as questões quase grotescas dos casos, sem o cuidado de reforçar o papel informativo. É uma perspetiva muito interessante.

Os painéis terminam aí, e no sábado têm workshops, como no ano passado. Porquê um workshop de tricô?

É uma iniciativa que tenta derrubar estereótipos de género. O “Homens, vamos tricotar!” é dinamizado pelo Ricardo Higuera, um jornalista chileno que está a estudar e a trabalhar em Portugal. As práticas do croché e do tricô estão tipicamente associadas à mulher. E o Ricardo tenta quebrar essas barreiras: os homens também podem fazer isto, não afeta a sua masculinidade ou virilidade. Enquanto ensina as técnicas básicas do tricô, o Ricardo vai conversando e refletindo sobre as questões dos estereótipos de género.

Há mais dois workshops: educação para a sexualidade e Men’s Talk. A quem são destinados?

O de educar para a sexualidade, da Vânia Beliz, é destinado particularmente a pais, mães, famílias [jovens a partir dos 15/16 anos], profissionais da educação. A Men's Talk é uma conversa sobre masculinidade e sobre como é que se pode criar um mundo mais saudável e mais seguro para homens e mulheres. Tipicamente as conversas do Men's Talk são dinamizadas para homens, mas neste caso qualquer pessoa é bem-vinda.

Os workshops voltam a ser pagos?

Sim, o nosso site explica como as pessoas se podem inscrever.


Os dois primeiros dias do encontro “O homem promotor da igualdade - Homens e mulheres lado a lado pela igualdade de género” (14 e 15 de novembro) são de entrada livre, mas exigem inscrição, que pode ser feita através do site, onde se encontra toda a informação sobre o evento.

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