O número 37 da Rua das Virtudes, no Porto, tem uma história que precede a sua construção, encostado que está à muralha Fernandina que data do século XIV e da qual ainda guarda vestígios. A casa foi construída para recolhimento dos monges da Congregação da Ordem de São Bernardo, que por lá terão estado entre 70 e 80 anos.

O percurso histórico da casa foi relatado à agência Lusa por Luísa Neves, coordenadora do "Dar Sentido à Vida" da Serviços de Assistência Organizações de Maria (SAOM) e autora da pesquisa em torno do passado do edifício.

"Com a extinção das ordens religiosas, em 1834, a casa passou para a Fazenda Pública, acabando vendida a José Alexandre Ferreira Brandão, um negociante que vendia vinho do Porto para o Brasil e que a tornou na sua residência familiar", disse.

Alguns dos melhoramentos então feitos ainda hoje são visíveis, com muitos trabalhos em gesso e tetos pintados com diferentes ilustrações. O negociante "mandou também fazer uma porta na muralha, tentando replicar a que teria sido a Porta das Virtudes, uma das 17 entradas da muralha Fernandina e que entretanto tinha sido destruída no séc. XVIII", prosseguiu.

Ladies Room num clube de homens

Duas gerações volvidas e com os negócios em queda, a casa foi arrendada a partir de 1904 ao Oporto British Club, um dos dois clubes ingleses que existiam no Porto e que ali enquadrava as atividades da comunidade residente.

À época, esses clubes destinavam-se apenas aos homens mas, na casa, foi criada uma "Ladies Room", sala destinada exclusivamente ao convívio das senhoras inglesas. O clube ali permaneceu até 1967, altura em que mudou para as atuais instalações na Rua do Campo Alegre.

A casa ficou então abandonada uns anos e, na altura do 25 de Abril, "deu-se uma ocupação, típica do que foram os movimentos da época", contou a responsável, segundo a qual pouco depois ali se instalaram vários serviços, entre eles a Companhia de Teatro Pé de Vento.

"Uma oficina - escondida no jardim - que desmontava carros roubados em peças e depois as vendia em segunda mão e, no segundo andar da casa, ao que consta, uma casa de meninas", trouxe ao edifício, segundo Luísa Neves, uma característica "próxima de um centro de negócios, tal a sua versatilidade à época".

Em 1975, a Segurança Social adquiriu-a ao herdeiro de José Alexandre Ferreira Brandão e um ano depois deu-se o passo necessário para a instalação da SAOM.

"O Dr. João Rebello de Carvalho, um mecenas e homem muito voltado para o serviço público e social, fez um acordo de gestão com o Estado e instalou aqui aquilo que hoje somos, uma Instituição Particular de Solidariedade Social há 40 anos a prestar auxílio aos menos favorecidos da população", explicou.

E se no início os serviços prestados abrangiam dois grupos, "a infância e juventude e ainda a terceira idade" com o andar dos tempos as "necessidades foram mudando" e, tendo acabado "o apoio à juventude, abriu-se o grande projeto desta casa ‘Dar Sentido à Vida' de apoio a pessoas em situação de vulnerabilidade social", explicou Luísa Neves.

De perdidos para a vida a exemplos de abnegação profissional e vontade de mudar

Soraia Cerejo, Paula Laxale e António Paulo são exemplos de sucesso do projeto "Dar Sentido à Vida" que há dez anos decorre nos Serviços de Assistência Organizações de Maria (SAOM) e que já empregou quase 200 pessoas.

Instituição Privada de Solidariedade Social, a SAOM iniciou há uma década um projeto que visava dignificar e reinserir socialmente sem-abrigo ou pessoas em risco de exclusão social, integrando-os em cursos de formação na área da hotelaria e restauração.

Dos 16 cursos até agora concluídos resultaram 200 novos formados e, sobretudo, uma enorme autoestima entre os que conseguiram sair de situações de enorme precariedade para passarem a ter o controlo das suas vidas.

Soraia Cerejo, de 28 anos, sonhou um dia ser cozinheira mas, condicionada pela epilepsia e ausência de apoio familiar, a vida conduziu-a até uma tutora e a um "quarto sem janelas, televisão ou condições para comer".

Sem formação escolar, Soraia vivia uma situação desesperante até o dia em que conheceu a coordenadora do projeto "Dar Sentido à Vida", Luísa Neves. Em declarações à Lusa, a agora copeira do restaurante Torreão contou que se inscreveu primeiro no curso de pastelaria e depois no de empregada de mesa.

"Logo depois - disse por entre sorrisos - surgiu a oportunidade de trabalhar no restaurante e hoje a SAOM é a minha família".

Aos 46 anos, Paula Laxale deixou para trás uma vida ligada ao consumo de drogas e gere a loja "Português de Gema" que a SAOM, pretende transformar em referência para o turismo no Porto. "Era uma mercearia fina e agora passou a restaurante", disse, orgulhosa.

Quando, há cinco anos, soube dos cursos na SAOM, através de uma assistente social, Paula vivia "um percurso de dependências", que a fazia sentir-se "muito perdida, desorientada. Estava muito em baixo, desestruturada", confessou.

O vício fê-la sair de casa de uma família que a apoiava para passar a viver na rua. Mas no dia em que enveredou pelo curso de pastelaria e depois fez outro de extras, a sua vida mudou.

"Pouco tempo depois recebi a proposta para ficar a trabalhar no projeto", relatou. Paula quer agora "fazer crescer o Português de Gema, conseguir gerir aquele espaço o melhor que puder".

António Paulo, de 45 anos, entrou na SAOM há três anos. Fez um curso de ano e meio e depois um estágio na padaria onde trabalha atualmente. Para trás ficaram quase 30 anos de consumos de drogas.

"Não me lembro de ter sonhos. Aos 13 anos meti-me nas drogas e aos 15 anos já andava nas drogas duras", recorda António que, ao assimilar os ensinamentos adquiridos no "Dar Sentido à Vida". mudou por completo a sua vida.

"Hoje trabalho, tenho o meu apartamento, vivo com uma mulher e, apesar dos meus problemas de saúde, isso não é um entrave para o que quero fazer e estou decidido. Tenho um filho que precisa de mim e vou agarrar-me com unhas e dentes", argumentou.

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