Pelas 10:00, sob uma temperatura de 30 graus, o português Manoel, de 76 anos, imigrante, caminha apressado pelas ruas da cidade de Pacaraima, no lado brasileiro da fronteira com a Venezuela, à procura de informações.

Manoel contou que tinha um encontro de negócios em Santa Elena de Uairén, cidade venezuelana localizada a pouco mais de vinte quilómetros do Brasil, e a partir de Pacaraima decidiu seguir viagem, caminhando pelo mato num trilho cercado por pequenos morros e cuja vegetação se assemelha ao das savanas africanas.

A sua travessia e do assistente foi acompanhada pela Lusa, com o caminho a começar numa zona afastada do centro de Pacaraima. Ali, existe um trilho usado por moradores e contrabandistas que leva à comunidade indígena venezuelana de Santo António, já em território de Santa Elena Uairén.

Durante a viagem, o português começa a contar que ainda tem relações na Venezuela, onde viveu os últimos 40 anos. Contudo, agora não tem certeza se a maior parte dos bens que adquiriu no país ainda são seus.

"Hoje não tenho certeza de [ter] nada na Venezuela. Tudo que tinha foi tomado", afirmou, à conversa com a Lusa.

Ao fim de uma hora, e após subir o morro para ter a certeza que não existiam patrulhas do Exército Bolivariano no local, Manoel e o assistente passam finalmente a fronteira. São quase 11:00 e, enquanto andava numa marcha rápida e segura, Manoel continuava a contar histórias sobre a sua vida, intercalando as falas entre o português e o espanhol.

Nascido no início da década de 1940, em Lisboa, cresceu numa família em que corre sangue árabe, judeu e português.

Ainda jovem, Manoel deixou Portugal e foi viver para a Guiné-Bissau, seguindo-se Angola, Rússia e África do Sul. O Brasil foi a última paragem antes de emigrar para a Venezuela, em 1978.

Fixou residência na região de Gran Sabana, onde trabalhou em empreendimentos de diversos segmentos, acabando por constituir família.

Contudo, com o agravamento da crise económica e política na Venezuela decide, em dezembro último, começar a passar mais tempo no lado brasileiro da fronteira. Dali assiste ao que diz ser um "Narco-Estado", fundado no regime do ex-Presidente Hugo Chavéz e seguido, diz, por Nicolás Maduro.

"Na Venezuela não há socialismo, comunismo e nem uma ditadura. Há um Estado a ser governado por ladrões e narcotraficantes. Maduro não sairá do poder se for combatido com tiros de pistola, mas com bombas e tiros de canhões", atira.

"O Brasil, a Colômbia e os Estados Unidos, agora têm uma oportunidade política tremenda [de intervir] na Venezuela", acrescenta.

Enquanto caminha, Manoel consulta repetidamente o assistente sobre a distância do Centro Militar de Escamoto, localizado "alguns morros" à esquerda do trilho que percorria.

Depois de mais uma hora de caminhada é finalmente avistada a comunidade indígena venezuelana de Santo António.

Segue-se uma viagem numa carrinha, conduzida por indígenas, até à parte urbana de Santa Elena de Uairén. Contudo, à saída da aldeia, dois carros blindados e mais de uma dezena de soldados bloqueiam a estrada.

Aparentemente famintos, os soldados pedem pão e comida em troca da passagem. Não foram atendidos, mas deixaram o carro seguir com a promessa de receberem alguma comida no regresso.

A chegada a Santa Elena de Uairén acontece por volta das 12:30, cerca de duas horas e meia depois. Ali, em pleno centro da cidade, é possível sentir a tensão após confrontos que terão provocado, segundo fontes oficiais, nos últimos dias, pelo menos cinco mortos.

Na rua é possível ver um autocarro queimado. As lojas normalmente cheias de clientes devido ao intenso comércio de alimentos comprados no Brasil para serem vendidos no interior da Venezuela estão parcialmente fechadas.

À frente do hospital da cidade, soldados garantem a segurança possível, enquanto membros das Forças Armadas venezuelanas também fazem guarda no hotel La Gran Sabana, onde estão hospedados apoiantes de Maduro e militares de alta patente.

Depois de permanecer algumas horas na cidade, para os seus contactos locais, Manoel segue em direção a uma zona perto da fronteira do Brasil, onde há um pequeno grupo de militares venezuelanos de alta patente a fazer uma pausa para o almoço. No cardápio, um churrasco de grandes coxas de frango parece compor o prato principal da refeição.

A 20 metros de distância, um outro grupo de militares de baixa patente está sentado à sombra de uma árvore. Cozinham um ensopado numa panela, no chão, enquanto se protegem do sol.

Ao lado de casacos e calças do uniforme militar pendurados numa cerca, os soldados permanecem calados na sombra, aparentemente sonolentos num dormitório improvisado a céu aberto.

Para Manoel, é tempo de regressar ao Brasil.

Já em Pacaraima, a recuperar da viagem, o português diz que a desigualdade que encontrou, pelo caminho, no tratamento dado a membros do Exército, que comiam coxas de frango num churrasco enquanto outros soldados improvisavam a refeição no chão, simboliza o regime venezuelano.

"Este país convive com uma corrupção tremenda. Soldados comendo no chão é [uma coisa] humilhante. Esta imagem significa exatamente o que é, hoje, o Governo da Venezuela", concluiu o português.

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