“Thank you, we will miss you” (Obrigado, vamos sentir a tua falta), “American vigil for democracy” (Vigília americana pela democracia) eram os cartazes a cores empunhados por algumas das cerca de 50 pessoas que se juntaram no final da tarde no Largo do Carmo, convocados pela organização “Democrats Abroad” (Democratas no estrangeiro), com óbvias ligações ao Partido Democrático de Obama e Hillary Clinton, derrotada por Trump nas presidenciais de novembro.

“Estou aqui para dizer: obrigado Obama. Foi um presidente maravilhoso, mas os media republicanos dizem que não, é um erro. Obama não se vende muito bem, mas fez muito. Quando veio [para a presidência] havia uma crise económica maior que em 1930, ele fez os Estados Unidos sair da crise, introduziu o ‘Obamacare’, 22 milhões de americanos que não tinham seguros de saúde”, diz à Lusa Patrick Siegler-Lathorp, empresário a viver em Portugal há oito anos.

O norte-americano exprime-se em português e foi um dos organizadores da vigília, com um amigo. Na iniciativa participaram também alguns portugueses.

“Trump é uma pessoa muito complicada, com ego muito frágil, reage frequentemente como uma criança, mas a sua administração vai ser julgada pelas suas ações, e até hoje não as tem. Quando ele fala, pensamos que vai ser muito difícil, vamos viver um período de grande incerteza, de conflitos entre americanos e um período difícil para o mundo. Trump diz que a Europa não é importante, que a NATO não é importante, como é possível um Presidente dos Estados Unidos dizer isso”, questiona.

Patrick Siegler-Lathorp foi o único orador da concentração quando subiu a um banco de pedra e se dirigiu aos presentes brevemente, em inglês.

“Estamos aqui para dizer que nos vais fazer falta. Foste maravilhoso”, diz. “Somos a maior democracia do mundo e queremos proteger esses valores. A nossa mensagem hoje é um aviso, uma vigília pela democracia nos EUA”.

Misha Pinkhasov, também norte-americano, 42 anos, escritor e consultor, vive em Portugal desde meados de 2014 e distribui cravos brancos.

“Donald Trump tem palavas muito assustadoras, estamos aqui para dizer que vamos ficar vigilantes sobre a democracia, vamos responder a toda a injustiça que possa vir da administração de Trump. Estou bastante apreensivo. É um Presidente com palavras muito violentas, é a primeira vez que vemos isto. É muito assustador”, considera, também num português entendível.

Muito perto estão três amigas, também segurando os cartazes distribuídos pelos “Democrats Abroad”.

Flávia Soares, 68 anos, natural dos Açores, emigrou com a família para Boston aos dez anos, regressou aos 48, vive agora no continente, mas diz que visita todos os anos os amigos que deixou do outro lado do Atlântico.

“O Presidente eleito Trump é um perigo, não só para os EUA, mas para o resto do mundo. É uma pessoa muito imprevisível e não sabemos o que vai fazer, porque os planos que tem mudam de dia para dia”, alega.

Encostados a uma árvore, Tomás e António são o único sinal de contestação a Obama no Largo do Carmo.

Seguram uma cartolina branca com frases em inglês: “Obrigado Obama”, “Milhares de milhões de dispositivos sob vigilância”, “Crescimento do ISIS [referência aos ‘jihadistas’ do Estado Islâmico]”, “Crise Migratória”, “Prémio Nobel da Paz”, escreveram com uma caneta.

“Quando soubemos desta vigília, esta canonização do Obama, achámos que fazia sentido haver aqui alguém que fizesse o contraponto destas políticas. Desde os ataques de ‘drones’ até às políticas de vigilância da NSA [National Security Agency], e achamos que faz sentido fazer o contraponto para que não haja uma canonização, uma espécie de reescrever da história daquilo que foram os oito anos de Obama”, explica Tomás.

Os dois críticos de Obama quase passaram despercebidos no decurso de vigília, que se prolongou até ao anoitecer, entre cartazes de apoio a Obama e velas vigilantes face a Trump.

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