Davos não é a Web Summit e também não é uma conferência TED. Mas essa será porventura a componente mais próxima do cidadão comum, o mesmo cidadão comum que olha com distância senão com desdém para a reunião que junta líderes políticos, económicos e sociais do mundo inteiro. Este texto é, por isso, para si, cidadão comum, como a esmagadora maioria, que não esteve em Davos e que provavelmente pouco se lembra do que lá se passou. Mas - se porventura tivesse estado, e recordemos que quase três mil líderes mundiais pagam entre 50 e 500 mil euros para ir a Davos - esta seria a conferência que não devia perder.

O protagonista chama-se Yuval Noah Harari, é historiador e dá aulas na Universidade Hebraica de Jerusalém. É também autor de dois livros amplamente citados, lá está, por líderes em vários quadrantes da sociedade. Importa dizer que também é lido por cidadãos comuns, a imensa maioria que tem capacidade de fazer esgotar livros até num país como o nosso com fracos hábitos de leitura Yuval Harari começou a rimar com best seller com o livro “Sapiens: Uma breve história da humanidade” que falava do nosso passado, enquanto humanidade. “Homo Deus: Uma breve história do amanhã” que fala do futuro desta nossa condição não ficou atrás e no verão aguarda-se o terceiro livro "21 lições para o século XXI".

Mas regressemos a Davos. Yuval teve direito a uma daquelas apresentações sóbrias que não permitem confundir com lisonja fácil ou fútil. Uma apresentação própria de uma jornalista do Financial Times que entre outras coisas contou que Angela Merkel se tinha cruzado com o professor nos bastidores e que tinha feito questão de lhe dizer quatro palavras:“I read your book”.

“Num século ou dois, a Terra vai estar dominada por entidades que são mais diferentes de nós do que somos diferentes do Neanderthal ou dos chimpanzés”

Youval Harari fica depois sozinho em palco, atrás de um púlpito, não tem pressa, bebe uns goles de água e só depois começa. Sem preliminares: “Somos provavelmente uma das últimas gerações de homo sapiens”. A palestra é sobre o futuro da nossa espécie e do futuro da vida e o mote está dado.

“Num século ou dois, a Terra vai estar dominada por entidades que são mais diferentes de nós do que somos diferentes do Neanderthal ou dos chimpanzés”. Eis a previsão. Mas como assim, ou melhor, o que vai acontecer entretanto para que se possa antecipar tal futuro? “Nas próximas gerações vamos aprender a fazer engenharia de corpos, cérebros e mentes”, explica Harari, não sem antes nos assustar só mais um bocadinho: “e este vai ser o principal produto da economia no século XXI”.

Vamos então numa viagem pela História - afinal o orador não é apenas uma futurista com a capacidade de nos fascinar e aterrar, é antes de tudo um historiador. A posse da terra foi o primeiro ativo a definir como se organizava a humanidade. E, durante 10 mil anos, houve muita terra nas mãos de poucos e o mundo dividiu-se entre aristocratas e servos. Mais recentemente, nos últimos 200 anos, as máquinas substituíram a terra como elemento de ordenação do mundo: a sua propriedade ficou centralizada nas mãos de uma minoria e uma nova ordem nasceu, a que colocou capitalistas de um lado e proletariado do outro. Mas eis que chegámos ao século XXI e o ativo que conta chama-se dados. Dados que estão em todo lado e em lado nenhum, que viajam à velocidade da luz, que podem ser copiados. “Agora os dados substituem as máquinas e se ficarem em poucas mãos a humanidade vai dividir-se não em classes mas em espécies”.

Portanto, estamos a falar de conseguir reprogramar seres humanos - e por reprogramar Yuval Harari refere-se a mudar o corpo, mudar a forma de pensar, mudar a forma de sentir. “Hoje em dia podemos apropriar-nos não apenas de computadores mas de seres humanos e de outros organismos”.

E como é que isso é sequer possível? Olhemos ao que, segundo o conferencista, é necessário para reprogramarmos um ser humano: muito poder de computação e muitos dados, especialmente biométricos. Dados biométricos são todos os dados que possamos listar sobre como nos comportamos como seres humanos, desde qual a nossa capacidade de adição a uma droga, a nossa maior ou menos propensão a engordar ou a forma como o nosso cérebro reage sob stress ou o nosso corpo sob esforço. Para citar apenas algumas das inúmeras probabilidades. Estes dados são muito mais sensíveis - e como veremos determinantes para as “espécies” que seremos no futuro - do que o nosso email, telefone, dados bancários ou informação sobre onde vamos e o que compramos. Estamos a falar de tudo o que se passa no nosso corpo e no nosso cérebro. O que sentes. O que pensas. O que queres.

“Até hoje ninguém tinha este poder - fosse a KGB ou a Inquisição”, sublinha Harari. Agora já há quem tenha.

“Em quatro mil milhões de anos de vida na Terra, dos dinossauros às amebas e dos tomates aos seres humanos, manteve-se a seleção natural e a bioquímica como chaves de evolução da vida. A ciência está agora a substituir a seleção pela evolução natural pela evolução pelo design inteligente".

“Organismos são algoritmos”. Sejam vírus, bananas ou humanos

Explica-nos depois que toda esta revolução - evolução? - mais ou menos visível, mais ou menos invisível decorre de outras duas revoluções: a da ciência da computação com os avanços registados na inteligência artificial e em machine learning e na biologia e neurociência. Uma espécie de “tempestade” perfeita que traz à prática um ensinamento com 150 anos, de Darwin aos nossos dias: “organismos são algoritmos”. Sejam vírus, bananas ou humanos. Agora, com os avanços computacionais e científicos, os sensores biométricos transformam sinais vitais em sinais electrónicos e a partir daí há matéria-prima para um computador analisar. Mais que analisar, mudar: “podem assim criar-se algoritmos que nos conhecem melhor dos que nos conhecemos a nós próprios” [e os humanos não se conhecem assim tão bem, acrescenta em jeito de nota de rodapé Yuval Harari].

O conferencista que tem o auditório de Davos suspenso nas suas palavras não hesita em exemplificar com o seu próprio exemplo. “Quando tinha 21 anos percebi finalmente que era gay depois de viver vários anos em negação. E não é uma situação excepcional”. Agora imaginem, continua, que em poucos anos poderemos ter um algoritmo - materializado numa aplicação como qualquer outra que já usamos no nosso dia a dia - que pode dizer a um adolescente quem é, ajudando-o a conhecer quem é. Harari vai mais longe para os fazer perceber o quão perto podemos estar disso: pode ser uma aplicação em forma de jogo que usando os dados que tem do jogador lhe dá uma resposta, “algo a que se pode jogar numa festa de teenagers”. Com todas as questões associadas que nos podem simplesmente gelar.

O que Yuval Harari não tem dúvidas é que esta informação vai de certeza ser usada por marcas. Afinal, predizer desejos, manipular emoções, e até a possibilidade de se tomar decisões soam a sinfonia melodiosa numa perspetiva meramente de marketing. Claro que os próprios responsáveis de marcas serão eles mesmos “manipuláveis” por outras entidades dentro da mesma lógica mas ainda assim a tentação é óbvia. Mais grave é que a tal centralização do que é mais valioso na posse de poucos poderá dar origem ao aparecimento de “ditaduras digitais”.

Mudamos aqui o rumo da conversa para falar de democracias e ditaduras à luz da tecnologia. “A democracia processa informação de forma transversal e distribui o poder de decisão por muitas instituições e indivíduos. A ditadura, ao invés, concentra a informação e o poder num só sítio. No século XX, a democracia oferecia melhores resultados [pela escolha, pela decisão] do que a ditadura, veja-se EUA versus URSS. No século XXI, isto pode inverter-se e o tratamento centralizado de dados pode ser muito mais eficiente do que o distribuído”.

Na sua análise, esta centralização já está a acontecer a vários níveis. Dá o exemplo do sistema de segurança /vigilância global dos Estados Unidos e o que o seu próprio país, Israel, está a fazer com Gaza. Muitos políticos, afirma, usam as emoções humanas como os músicos usam os instrumentos. “Não lhes devemos dar instrumentos mais sofisticados nem a confiança de desenhar a vida”, defende.

Senhores e senhoras, está apresentado o futuro por Yuval Harari. Então, e agora? O que fazemos? Deixamo-nos ir? Voltamos para trás? Harari trata ele próprio de dizer que acredita que a solução tem de estar em olhar em frente e não o contrário. “Como historiador posso dizer-vos duas coisas sobre o passado: não era divertido e não iam gostar de lá voltar e - não vai voltar”.

Neste momento, afirma, há um pequeno grupo de entidades que sabe o que está a acontecer - o Google sabe, o Facebook sabe, os Governos sabem, especialmente a China. “Não temos de entrar em pânico, a discussão está a começar. E precisamos sobretudo dos poetas para nos ajudar com isto”.

Vamos terminar como a jornalista do Financial Times ao encerrar a sessão. Obrigada por nos inspirar e aterrorizar.

Artigo de Rute Sousa Vasco publicado a 4 de fevereiro de 2018 em www.thenextbigidea.pt

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