Caro João, 

A presente serve para dar um impulso motivacional pré-jogo. Mesmo que faças parte das personagens em destaque no vídeo de apresentação do novo FIFA 21, ao lado de juventude que sabe dar uns toques na bola como é o caso do Mbappé, Haaland ou Alexander-Arnold, e estejas há dias a levar com palestras do Simeone ou dos seus adjuntos sobre o encontro de hoje. Ainda assim, com todas estas nuances, te escrevo.

Porque não vai ser pêra doce passar pelo conjunto de Julian Nagelsman. O Leipzig foi a segunda equipa a aterrar em Portugal e está focado. Tanto que até anda com a hashtag #MissaoFinal no Twitter. Assim, sem qualquer tipo de consternação pelo paradeiro do sinal diacrítico que serve para anasalar as vogais. Ou seja, estão em Lisboa numa missão. E essa missão passa por bater o teu Atléti.

Só que falar na Champions, Lisboa e em Colchoneros, tudo na mesma frase, é ter que lembrar um pouco de mágoa porque nem tudo vive só de bonança e vitória. Assim, há que recordar que o Atlético perdeu por 4-1 com o rival Real Madrid, após prolongamento, na final de 2014, realizada no Estádio da Luz, em Lisboa. Porém, é na hora da derrota que se forjam os sucessos. Pelo menos se acreditarmos no discurso de Arnold Schwarzenegger que "partiu a Internet" — o tal em que alerta o mundo que dorme 8 horas diárias para "sleep faster!" [dormir mais rápido].

Diz ele que é preciso falhar para ganhar, que é preciso não dar alarido às vozes que nos mandam abaixo, que é preciso procurar fazer algo que os outros nunca fizeram (aqui roubou um bocadinho ao Mandela, mas faz parte). Gostos são gostos, vidas são vidas, mas a realidade é que Exterminador do futuro nos filmes virou Governador na vida real. Alguns dos seus argumentos até podem não ser completamente originais, mas o Arnie é uma das estrelas do séc. XX que já emprestou o nome a um estádio de futebol. Portanto, alguma coisa estará a fazer bem. Assim como o Simeone.

De onde vêm e o que andaram para aqui chegar:

Clube: Club Atlético de Madrid

Cidade / País: Madrid, Espanha

Palmarés na Liga dos Campeões: Chegou a três finais, mas perdeu sempre.

  • Em 73/74, ainda sob o desígnio de Taça dos Campeões Europeus, caiu perante o Bayern Munique de Muller e Beckenbauer, com uma pesada derrota por 4-0.
  • Em 13/14, já no prolongamento por 1-4, no Estádio da Luz, em Lisboa, frente ao rival Real Madrid. É o dia da conquista da "La Decima".
  • Em 15/16, também contra o Real Madrid, no Giuseppe Meazza, em Itália. O jogo terminou 1-1 no tempo regulamentar, mas os blancos iriam prevalecer nas grandes penalidades (5-3). 

Percurso: 

Fase de grupos: 2º lugar, Grupo D

  • Atlético Madrid vs. Lokomotiv: 2-0, 2-0
  • Atlético Madrid vs. Juventus: 0-1, 2-2
  • Atlético Madrid vs. Bayer Leverkusen: 1-2, 1-0

Oitavos de final:

  • Atlético Madrid vs. Liverpool: 1-0, 3-2 (a.p.)

Digo isto — e acho que vais ter de concordar comigo — porque para chegarmos até aqui foram precisos dois jogos a evocar o expoente máximo da corrente futebolística do cholismo. Para ti, acredito, é um pouco chato. Corres demasiado, fechas espaços ou invés de tentares umas cuecas, tens preocupações defensivas a quadruplicar em vez de estares a criar oportunidades com nota artística. Mas a realidade é que, a eliminar, quando não se inventa e se aplica o cholismo, vão chegando sempre longe. Esta Champions não foi diferente.

Na primeira mão, em fevereiro, calhou-vos a fava: o campeão em título, o Liverpool. No entanto, seguiram a corrente na perfeição e seguraram a vantagem alcançada com o golo madrugador do Saul. Controlaram a partida, estiveram coesos, sempre prontos a dar aquela facada à Atleti. Acabariam por não marcar, mas também não sofreram golos fora — algo importante então, mas que em Lisboa não serve para nada. 

O que nos leva ao segundo jogo em que viajaram até Anfield, onde sofreram a bom sofrer. Arrisco a dizer que defenderam mais de 80% do jogo. Levaram com uma enxurrada de futebol atacante em cima de meia-noite. Mas a verdade é que venceram. Há jogos assim, ouve-se dizer por aí. Eu cá acredito só que há dias em que estrelas improváveis cintilam mais do que outras. Ora pergunta lá ao Marcos Llorente senão é assim? O Diego Costa até que saiu do campo meio taciturno, azamboado, mas o colega que o substituiu acabou por virar o herói da noite ao fazer dois golos à avançado centro, qual número 9 letal com mira na ponta da bota. Depois, claro, há que pagar um copo ao Oblak — que foi gigante.

Mas a verdade é que o jogo já lá vai. E agora há toiro alemão regado a bebida energética austríaca pronto a galgar pelo relvado de Alvalade em direção à vossa baliza. Todavia, a ter que ser honesto, acredito que o Leipzig até faça um jogo mais ofensivo, vertical, à procura do golo. Também deve acabar com mais posse de bola. Mas o argentino de fato preto que estará no banco, a respingar indicações à tropa para dentro do campo, vai delinear uma estratégia eficaz, compacta, cínica.

Parece que já estou a ver filme. Cá atrás, o Felipe vai mostrar o cabedal quando disputar as bolas com os matulões Poulsen e Schick. No meio campo, haverá congestionamento de pessoal. Mas tanto o Koke como o Niguez têm experiência para arrumar a casa. Isto, claro, sem esquecer que se o Partey estiver a 100% fisicamente vai ser aquela vassoura pronta a fazer o serviço de limpeza. Mais à frente, no ataque, há um variado leque de opções para o contragolpe. Seja o Diego Costa na raça, o Morata numa jogada desengonçada ou tu próprio num momento mais espontâneo. São jogadores com características diferentes, mas munidos de ferramentas para desmontar o puzzle alemão. 

O centralão Dayot Upamecano é forte, (muito) rápido e dobra bem, mas é muito jovem. Até pode fazer um jogo insigne, exemplar, sem falhas. No entanto, não acredito. Estou mais inclinado para ver uma matreirice do Diego Costa do que uma situação dessas. Claro que não quer isto dizer que o Christopher Nkunku não possa ter um rasgo e vire um jogo que à partida esteja controlado. Há sempre essa possibilidade. Só que se a Muralha apresentada em Anfield estiver afinada só posso crer que não é muito provável.

Depois é a tal coisa: já não há Timo Werner. O RB Leipzig continua a ser perigoso, mas não creio que adiante muito o seu treinador dizer que "há outros que podem sair da sua sombra". Digo isto porque da sombra ao talento ainda vai uma distância considerável. Sem esquecer, claro, que é uma sombra que valeu 34 golos nesta época. Mais, terá de ser alguém que consiga passar pelo muro de Madrid com selo argentino.

Mas isso é coisa que não me parece que aconteça. Não é assim, João?

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