Considerado um tabu pelos brasileiros, o número saiu do armário justamente num país que criminaliza a homossexualidade. Coincidência? Talvez um pouco, mas a seleção brasileira apenas seguiu a norma da FIFA de manter a numeração fixa de jogadores no Mundial do 1 ao 26 (total de jogadores convocados).

E o escolhido para a camisola 24 foi o defesa central Bremer, que antes do Mundial acumulava apenas 44 minutos jogados pela seleção e que também fez a sua estreia na competição na derrota por 1 -0 diante dos Camarões.

O defesa da Juventus jogou todo o encontro contra os africanos, na terceira jornada do Grupo G. Mesmo com a derrota, o Brasil manteve a liderança e joga esta segunda-feira com a Coreia do Sul.

"Para mim é uma camisola como outra qualquer, o importante é estar no Campeonato do Mundo, o número não importa", disse o jogador.

Um tabu antigo

A associação pejorativa do número 24 no Brasil é antiga e remonta ao célebre jogo do bicho.

No jogo, o veado, animal pertencente à Família Cervidae, assim como os cervos, é representado por esse número, que, ao longo das décadas, foi sendo associado a pessoas homossexuais, mostrando que o preconceito foi construído socialmente através do tempo.

A denúncia transcendeu diferentes esferas da sociedade brasileira, inclusivé o futebol, que regista diariamente agressões a homossexuais e transexuais.

Como forma de luta e criminalização da homofobia, a comunidade LGBTQIA+ passou a usar-se do número, principalmente no futebol, em camisolas comerciais de organizações inclusivas e em torneios de bairro organizados por equipas LGBTQIA+.

A camisola, que ficou de fora de 21 edições do Mundial, renasce num campeonato marcado por polémicas relacionadas aos direitos LGBTQIA+, incluindo a proibição dos capitães de usarem a braçadeira 'One Love', com as cores do arco-íris.

A explicação, no entanto, não é marcada pelo ativismo, mas sim pelas regras de numeração fixa e sequencial da FIFA, que, para o Mundial de 2022, anunciou a possibilidade da convocatória de 26 jogadores, diferentemente das edições anteriores, em que eram considerados 23 nomes, desde 2002.

“Teríamos adorado se fosse uma ação de ativismo, como as realizadas por outras equipas, mas é muito bom ver isso a acontecer neste cenário”, disse Railson Oliveira, fundador da FieL LGBT, claque LGBTQIA+ do Corinthians, à AFP.

Até sexta-feira, havia pelo menos dois registos do uso desta camisola em jogos da seleção brasileira, ambos em particulares, nos quais normalmente não há regras numéricas rígidas: os avançados Taison, na vitória por 3-1 sobre o Japão, em novembro de 2017, e Roberto Firmino, na vitória por 3-0 sobre Gana, em setembro, embora o jogador do Liverpool não tenha entrado em campo.

Um tabu em desconstrução

No ano passado, a seleção brasileira teve a oportunidade de utilizar o número 24 na Copa América, na qual foi permitido convocar até 28 jogadores por conta da pandemia de covid-19.

Porém, não foi o que aconteceu. Enquanto as demais seleções utilizaram o número, no Brasil as designações foram do número um ao 23 e depois saltaram para o 25, utilizado pelo médio Douglas Luiz.

Uma ONG considerou o ato homofóbico e processou a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). A entidade, no entanto, argumentou que essa numeração era mais adequada para um médio e o caso foi arquivado.

Mas os tempos parecem mudar.

A CBF apoiou a Parada do Orgulho Gay do Rio de Janeiro, no último domingo (27).

Pelas ruas da capital carioca, e com o apoio da entidade do futebol, foi exibida uma gigantesca camisola da seleção com o número 24 e uma braçadeira com as cores do arco-íris.

"Sentimos um ar de amadurecimento, sabemos que uma coisa não tem nada a ver com a outra, no sentido de um número determinar a orientação sexual de alguém. Porém, não podemos afirmar nada com tanta certeza", finalizou Railson.

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