O Manchester City, clube que em 2008 foi adquirido pelo Abu Dhabi United Group com o objetivo de ser convertido num dos clubes mais poderosos do mundo, falhou este sábado o desígnio para o qual renasceu no início deste século, ao perder a primeira final da Liga dos Campeões.

O palmarés europeu curto dos Citizens, uma Taça das Taças conquistada em 1970, é um peso nos ombros de um emblema que soma temporadas de um futebol luxuoso em Inglaterra, que quebrou em 2012 um jejum de 44 anos sem vencer a primeira divisão do futebol inglês, que já venceu todos os títulos nacionais possíveis numa só época (2018/19), que em 2017/18 conseguiu amealhar um recorde de 100 pontos na Premier League.

Desde que o City recebeu o avultado investimento dos Emirados Árabes Unidos, venceu cinco campeonatos ingleses, duas Taças de Inglaterra, seis Taças da Liga e três Supertaças de Inglaterra. Ou seja, 16 títulos em 13 anos. Teve jogadores de alto gabarito a vestir a camisola azul de Manchester, como Robinho, Carlos Tévez, David Silva, Edin Dzeko, Vincent Kompany ou Yaya Touré. Tudo isto, fora toda a constelação que atualmente integra o plantel, de Kevin de Bruyne a Sergio Agüero. Teve ainda como treinadores Roberto Mancini, Manuel Pellegrini e Pep Guardiola.

Foi com o treinador catalão que a verdadeira revolução chegou ao Etihad Stadium. Depois de Mancini e Pellegrini terem colocado o clube ao nível dos melhores em Inglaterra, cabia a Guardiola a responsabilidade de projetar o emblema na Europa. Afinal de contas, este era o técnico que tinha criado o tiki taka do FC Barcelona, clube com que dominou o futebol espanhol e com o qual conquistou duas Ligas dos Campeões em quatro anos.

Desde que chegou a Terras de Sua Majestade, há cinco temporadas, Guardiola venceu três campeonatos, quatro Taças da Liga, uma Taça de Inglaterra e duas Supertaças. Dez dos 16 títulos dos últimos 13 anos foram com o espanhol, que só na primeira época não conseguiu vencer qualquer título, um pormenor único na carreira do técnico. No entanto, faltava a Europa. Faltava a Liga dos Campeões, fardo que trazia desde a Alemanha, quando treinou o Bayern Munique, onde em três anos chegou a três meias-finais - nunca conseguindo conquistar a tão desejada orelhuda.

O City de Guardiola foi magnânimo em Inglaterra, bateu recordes atrás de recordes, venceu tudo o que havia para vencer. Mas na Europa, os quartos-de-final, fase que a equipa não conseguiu ultrapassar nos últimos três anos, pareciam ser o limite. Liverpool, Tottenham e Lyon foram barreiras que os Citizens não conseguiram derrubar. Esta temporada, a equipa que se haveria de sagrar campeã inglesa chegou a uma inédita final da Champions, depois de um percurso em que afastou Borussia M´gladbach, Borussia Dortmund e Paris Saint-Germain. Parecia estar a 90 minutos de cumprir o seu desígnio, de coroar o trabalho e investimento de mais de uma década.

Do outro lado, estava o Chelsea. Um clube com uma história semelhante, comprado em 2003 pelo magnata do petróleo russo Roman Abramovich, mas que conseguiu, muito mais cedo, colher frutos europeus.

Em 2008, cinco anos depois do avultado investimento que levou para Stamford Bridge José Mourinho, os Blues disputavam a sua primeira grande final europeia da nova era, já depois de terem conseguido interromper um jejum de 50 anos sem vencer a liga inglesa. Essa final da Champions de 2007/08, a primeira entre clubes ingleses naquela competição, não galardoou os londrinos, que após um desempate por grandes penalidades viram o Manchester United de Cristiano Ronaldo sagrar-se campeão europeu. Mas seria o marco.

Desde a entrada em cena de um investidor no clube, o Chelsea não teve o mesmo sucesso nacional que um City, por exemplo. Em 18 anos venceu cinco vezes a Premier League, cinco Taças de Inglaterra, três Taças da Liga e duas Supertaças. 15 títulos, menos um que os Citizens em 13 anos. No entanto, conseguiu conjugar esse sucesso, menos dominante, em Inglaterra, ao longo de todo este período, com uma presença forte na Europa. E que teve o seu grande momento em 2011/12, quando o clube venceu a sua primeira Champions num jogo frente ao Bayern Munique, no desempate por grandes penalidades, numa final em que o adversário jogava em casa e que era - de longe - o favorito, uma vez que o emblema de Londres vinha de uma temporada conturbada: acabaria no sexto lugar na liga, guiado por Di Matteo, treinador que havia substituído André Villas-Boas, despedido a meio da época.

Logo no ano seguinte, também numa temporada em que trocou de treinador a meio, e com Rafael Benítez no comando, o Chelsea conquistou a sua primeira Liga Europa ao vencer o SL Benfica. Seis anos depois, com Maurizio Sarri, o primeiro a conservar o lugar do princípio ao fim da época, venceu a sua segunda Liga Europa.

Hoje, os Blues conquistaram o seu quarto título europeu em 18 anos, num processo que também resulta de uma mini revolução conseguida por Thomas Tuchel, treinador que assumiu o banco dos londrinos em janeiro, depois de um percurso atribulado do emblema sob o comando de Frank Lampard. Em poucos meses, o alemão conseguiu transformar completamente o clube, levando-o de um nono a um quarto lugar na liga, a que se somou uma final da Taça de Inglaterra, perdida para o Leicester, e a conquista da Liga dos Campeões.

Mas mais do que os resultados finais, Tuchel, que na última temporada saiu derrotado da final da Liga dos Campeões como treinador do Paris Saint-Germain, conseguiu transformar taticamente o Chelsea, devolvendo-lhe um sistema de três centrais com que o clube já tinha sido feliz com Antonio Conte. Os Blues tornaram-se numa autêntica barreira defensiva: em 30 jogos com Tuchel no comando, conseguiram terminar 19 sem sofrer golos.

Foi precisamente essa capacidade tática que esteve esta noite em exibição e que bloqueou todas as ideias que fizeram do City um clube dominante em Inglaterra, esta época. Tudo isto com especial ênfase no francês N’Golo Kanté, pela capacidade de ocupação de espaço no centro do terreno, em dupla com Jorginho, que anulou o meio-campo adversário e muitas vezes a capacidade de progressão da equipa de Guardiola.

O jogo começou precisamente com o carimbo do Chelsea, que em cinco minutos viu Timo Werner falhar três golos ‘cantados’. O Manchester City - que partiu para o jogo com Sterling como surpresa no onze inicial, ao contrário do adversário que alinhou com o onze tipo - só deu um ar da sua graça aos 28 minutos, quando Foden teve um lance de golo nos pés, que foi roubado por um grande corte de Rüdiger. Dois minutos depois, a equipa de Guardiola voltou a fazer-se notar num cruzamento de Kyle Walker, que por muito pouco não encontrou Mahrez em ótimas condições de finalizar o lance.

A primeira parte teria no entanto o momento que marcou o jogo: o único golo do encontro. Numa grande jogada coletiva que começou no guarda-redes, Mendy, a bola voou da grande área para a esquerda, onde Chilwell recebeu e passou a Mason Mount, sozinho no meio do terreno. Este fez um passe fabuloso em profundidade, que Havertz acompanhou sozinho em velocidade, depois de ultrapassar a linha defensiva do City, e graças a Werner, que soube arrastar a marcação de Rúben Dias, tirando-o fora da jogada, até se encontrar na cara de Ederson à entrada da área. Com um primeiro toque, passou pelo guardião brasileiro, e com um segundo empurrou a bola para o fundo da baliza.

Ao apito para o intervalo, não havia dúvidas sobre quem merecia estar na frente do marcador. O Chelsea tinha conseguido anular o adversário, jogava conciso, capaz de impedir os espaços de criação e perigoso no contra ataque.

O início da segunda parte ficou marcado pelo choque entre o central Rüdiger, do Chelsea, e o médio Kevin de Bruyne, do City, com o segundo a ter de ser substituído depois de ter ficado com o olho maltratado. Foi a segunda substituição forçada do encontro, depois da saída do central Thiago Silva, dos Blues, na primeira parte.

O primeiro grande momento em que o City esteve perto do empate aconteceu ao minuto 69. A bola viajava da lateral para o centro do terreno, à procura de Gündoğan, que se encontrava na pequena área e pronto a fazer o empate, quando Azpilicueta fez um corte fulcral.

Quatro minutos depois, respondeu o Chelsea com um lance em que Pulisic ainda deve estar a pensar como não deu em golo. Havertz trabalhou a jogada, e libertou o norte-americano, que perante a mancha de Ederson atirou ao lado.

Este foi o período mais animado do jogo, com Gabriel Jesus, aos 75 minutos, a ter tentado o empate com uma finalização artística, mas que ficou mesmo por concretizar.

Aos 90 minutos, o jogo era o City a fazer de tudo para chegar ao golo, e o Chelsea não a defender como podia - como acontece em muitos destes casos - mas como sabia e fez ao longo de todo o jogo. No último minuto do tempo regulamentar, Foden quase conseguiu ultrapassar a muralha azul adversária. No último minuto do tempo de compensação, Mahrez atirou por cima da trave.

A lição defensiva do Chelsea, “uma pedra no sapato” como descreveu Tuchel no final da partida, levou a melhor sobre um Manchester City que nunca conseguiu ser a equipa que foi ao longo da época. Neste duelo entre dois ‘novos-ricos’, entre duas revoluções que aconteceram de formas distintas, os Citizens levam mais uma lição para casa: o que está a correr mal neste projeto que é capaz de produzir o melhor futebol da Europa, ao mesmo tempo que falha em vencer e, assim, afirmar-se na Liga dos Campeões?

Esta noite esteve em campo, de um lado, uma revolução que já foi bem sucedida e que se revalida. Do outro, uma revolução que teima em se concretizar e que frustra equipa e adeptos. Quanto tempo se consegue carregar uma pressão destas, sobretudo numa altura em que o futebol vive de resultados imediatos? Em que são feitos, anualmente, avultados investimentos? O que pode o City aprender com o Chelsea?

Numa equipa com Guardiola a treinador, Ederson na baliza, Rúben Dias no centro da defesa, Gündoğan e Kevin de Bruyne no meio-campo, Sterling, Mahrez e Bernardo Silva como extremos e Gabriel Jesus e Agüero no ataque, com rotina de vencer, o que falta a esta revolução para que não passe de validade? O que falta a uma equipa que tem tudo?

Estas são as perguntas que não têm resposta na Europa do futebol, e que vamos esperar ver respondidas na próxima temporada. Outra vez.

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