Apesar de não estar nos típicos circuitos turísticos, Baku é uma cidade com amplas razões para ser visitada, desde o seu centro histórico, que é património mundial da UNESCO, até construções futuristas como as torres Flame ou o Centro Heydar Aliyev. Queijos, chá com compota ou banhos no mar Cáspio são outras delícias que a capital do Azerbaijão oferece. Contudo, na visita de estudo que Marcel Keizer organizou para os seus pupilos, nenhuma destas atividades estava nos planos.

Naquela que é uma das deslocações mais longínquas da Europa, futebolisticamente falando, o único objetivo era ganhar, e, se possível, com “futebol bom e atrativo”. Keizer conseguiu ambas as coisas e nem era um absoluto imperativo fazê-lo. O Sporting até podia lutar por um empate e sair do Azerbaijão com um ponto que lhe garantisse o apuramento para os 16 avos de final da competição, desde que o Arsenal voltasse da Ucrânia com uma vitória perante o Vorskla; tal aconteceu, os “gunners” ganharam 3-0.

A equipa leonina, no entanto, não quis ficar dependente nem se fazer rogada, e depois de bater o Vildemoinhos para a Taça de Portugal, venceu contundentemente o Qarabag com seis tentos. Duas semanas, dez golos: este é o registo do timoneiro holandês desde que tomou o lugar vazado por José Peseiro e temporariamente ocupado por Tiago Fernandes. Mas mais do que o resultado, para o futuro importa a forma como o Sporting atuou ao longo de 90 minutos, sendo que a avaliação contínua que Keizer tem feito dos seus jogadores apenas pode ser positiva até à data.

Vozes mais céticas - ou sensatas - dirão que o Qarabag não representa um desafio com o mesmo grau de dificuldade que, por exemplo, a deslocação a Vila do Conde para defrontar o Rio Ave para o campeonato na próxima segunda-feira vai ter. Se isso é, em parte, verdade, não se pode esquecer também que esta é a mesma equipa que teve de suar para derrotar o Vorskla na Ucrânia e o Loures para a Taça de Portugal, isto sem mencionar a humilhação perante um Portimonense pouco convincente ou a derrota em casa perante o Estoril, para a Taça da Liga. Mesmo cingindo a questão ao confronto direto, apesar da vitória em Alvalade por 2-0 aos azeri, esta exibição foi bem melhor.

Sem embandeirar em arco, é possível dizer que, pelo menos, a vitória do Sporting deve-se tanto à fragilidade do seu adversário como à nova postura que passou a assumir em campo. Com um onze praticamente idêntico ao do jogo anterior, à exceção da substituição do castigado Mathieu por André Pinto no eixo central da defesa, a equipa leonina fez logo uma entrada fulgurante em terreno azeri. Jogada pelo centro, bola para o flanco esquerdo, centro rasteiro de Diaby para a receção orientada de grande nível de Bas Dost que se deixa derrubar e ganha o pénalti que ele próprio bate friamente para adiantar os “leões” no marcador (5’).

No entanto, só depois deste lance é que se começaria a desenhar aquilo que seria o jogo que Marcel Keizer quer impor ao Sporting. É precoce falar-se numa assimilação, mas é certo que para trás ficaram as bolas bombeadas a partir da defesa sem eito nem jeito; durante todo o jogo viu-se uma necessidade de tanto Renan, Coates ou André Pinto seguirem a jogar pelo chão, mesmo que isso significasse perder a bola em zonas perigosas. No passado parece ter também ficado o duplo pivô defensivo - a equipa projeta-se num triângulo com Gudelj como pêndulo mais recuado e Wendel e Bruno Fernandes em repetidas movimentações posicionais, sempre a procurarem e a oferecem linhas de passe para circular rapidamente a bola. Essa fluidez também afeta os homens da frente, tendo sido frequente ver Bas Dost a circular por todo o meio-campo ofensivo. Nota ainda para o médio brasileiro que, na sua estreia na Europa, fez logo três assistências.

Os resultados ficaram patentes: ao contrário do que se passava com os anteriores dois treinadores, o Sporting deixou de estar dependente de repetir cruzamentos para criar situações de perigo, com muitas das jogadas a serem desenhadas pelo centro. O segundo (20’) e o terceiro (33’) golos dos leões surgiram assim, um numa recuperação de bola em que Wendel passa para Bruno Fernandes e este aplica um potente remate mal defendido por Halldórsson, outro numa bela jogada que termina com Nani a sentar três jogadores do Qarabag e a atirar com segurança para subir a contagem.

Ao intervalo, os “leões” mostravam-se mais positivos e mais acertados que a turma rival, tendência que não mudou na segunda parte. Apesar da baixa de ritmo do Sporting, a do Qarabag foi ainda maior, e a equipa azeri não só deixou de atacar com o mesmo critério com que tinha feito nos primeiros 45 minutos como, já desmoralizada, foi perdendo o controlo à retaguarda e acabou o jogo com sete jogadores amarelados (até Simon Slavchev, ex-jogador leonino). O conjunto de Alvalade apenas precisou de se manter fiel ao mesmo modelo para duplicar a contagem de golos: Diaby bisou (65’ e 81’) e Bruno Fernandes duplicou a sua contagem (75’), em três golos onde a equipa conseguiu chegar com objetividade à baliza adversária.

Com a equipa a ambientar-se a um novo modelo, Keizer foi guardando as substituições até aos 70 minutos, quando tirou Bas Dost e fez entrar Jovane Cabral, que veio abanar o jogo com a sua intensidade, fazendo uma assistência. No entanto, num misto de necessidade (é grande a lista de jogadores leoninos lesionados) e vocação, Keizer trouxe um banco recheado de talentos da academia, tendo aproveitado para lançar Thierry Correia, que se mostrou seguro na sua estreia absoluta na equipa principal.

Contudo, nem tudo vai bem no reino do leão, havendo problemas que não se resolvem imediatamente e que vão dando dores de cabeça ao treinador holandês. Apesar de, para o fim, o Qarabag já não conseguir atacar com qualidade, os primeiros 45 minutos foram algo instáveis para a equipa leonina, incapaz de controlar a profundidade e a ser sujeita a bolas longas. Foi assim que o Qarabag ameaçou estragar a festa aos 14 minutos, quando o lateral Guerrier amorteceu de peito uma bola vinda do outro flanco para o extremo Zoubir rematar cruzado, tudo isto a passar-se nas costas de Bruno Gaspar. Mais tarde, o Qarabag quase fez o 3-2 quando Michel surgiu isolado na cara do guardião leonino após bola picada, desviando a bola apenas para Bruno Fernandes fazer de bombeiro e afastá-la em cima da linha de golo.

Mesmo com pequenas pechas, o conjunto leonino construiu um resultado que só tinha conseguido por três vezes na sua história. Todos os sinais são positivos para Marcel Keizer, que não pôde contar com jogadores como Montero, Raphinha ou Battaglia, mas a época ainda é longa e promete desafios mais complicados. Jogando naquele que vai ser o palco do final da Liga Europa deste ano, o Sporting apenas depende de si para lá chegar.

Nani
créditos: EPA/YURI KOCHETKOV

Bitaites e postas de pescada

O que é que é isso, ó meus?

Esta rubrica é patrocinada pela dupla Bruno Gaspar-Abdoulay Diaby. O Sporting podia ter voltado de Baku com uma vitória imaculada, mas, em vez disso, foi apanhando sustos devido à sua dificuldade em controlar a profundidade na defesa. O maior deles todos foi o golo com que o Qarabag empatou a partida, com o lateral português demasiado afastado de Guerrier e Zoubir, ambos à espreita nas suas costas, e o extremo maliano a limitar-se a ver o colega em apuros e a não descer para ajudar. Nisso, Diaby podia aprender com Nani, que, não indo para novo, mostrou como se faz quando desceu à grande área para ganhar uma bola aos 63 minutos.

Diaby, a (des)vantagem de ter duas pernas

Tudo bem que o maliano não foi contratado por ser um tecnicista puro, mas pela sua capacidade de explosão e velocidade (onde é que já vimos isto?). Isso explica que Diaby tenha desesperadamente sido aquele que mais lances deitou a perder com o seu controlo de bola deficitário. Contudo, o jogador não se deixou abater pela fraca produção na primeira parte, voltando na segunda para causar o caos aos azeris com raides direcionados à sua baliza. Tais demandas resultaram em dois golos, sendo o segundo, de primeira após cruzamento, um tento de belo efeito. Pouco a pouco, o ex-Club Brugge vai demonstrando a sua utilidade e ganhando o seu espaço. Só não lhe peçam para construir jogo.

Fica na retina o cheiro de bom futebol

Foram muitos e bons os golos do Sporting neste jogo, mas Marcel Keizer certamente recordará com carinho o terceiro, aquele que quererá ver repetido ao longo da sua vida no clube pois foi a mais pura manifestação daquilo que é a sua ideia de jogo. Ao contrário do que o vimos fazer durante toda a época, Coates pretere o chutão e passa rasteiro para Diaby, que toca curto de primeira para Wendel, que, numa sucessão rápida de passes com Bruno Fernandes e Bas Dost (sim, veio descer ao meio campo), fica solto para avançar pelo meio campo e servir Nani. É certo que foi necessário um pouco de magia do número 17, mas tudo dependeu da dinâmica ao meio campo para acontecer.

Halldorsson, nem com duas mãos defendeu aquela bola

“O futebol vive muito do momento” é um daqueles chavões que vem sempre a calhar, especialmente para descrever Hannes Þór Halldórsson. Há 166 dias estava a ser coroado de glória após defender um pénalti de Lionel Messi e assegurar que a sua Islândia mantinha o empate frente à Argentina no Campeonato do Mundo. Hoje, as mesmas mãos férreas que impediram o golo do astro argentino a 1.925,76 quilómetros de distância de Baku revelaram uma consistência esponjosa a tentar parar o remate de Bruno Fernandes. O remate ia rasteiro e bateu no chão antes de chegar ao guardião, sim, mas Halldórsson podia ter feito bem melhor. Um frango robusto e altivo não deixa de ser um frango.

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