Poucas coisas no mundo se conseguem fazer tão proféticas como o futebol. Rasteirado por tantos ditados populares, o desporto-rei, rodeado e encurralado, não tem como não cair num. Há quem diga que quem chega pior a um jogo destes, da dimensão de um SL Benfica - FC Porto, costuma vencer. Este sábado foi verdade.

Antes da partida, o momento de cada um dos clubes era distante. O Benfica já tinha conquistado o primeiro troféu da época, a Supertaça Cândido de Oliveira, com uma goleada por 5-0 ao Sporting CP, e mostrou-se avassalador nas duas primeiras jornadas do campeonato com vitórias por 5-0 e 0-2. Já o FC Porto vinha de uma eliminação na pré-eliminatória de acesso à Liga dos Campeões, de uma derrota na primeira jornada da liga, diante do Gil Vicente, sobrando assim o ânimo do 4-0 com que derrotaram o Vitória de Setúbal no estádio do Dragão na última jornada.

Os encarnados mostravam-se oleados, com um futebol bonito, de ataque, inteligente. Os azuis e brancos, até ao jogo diante dos sadinos, estavam distantes daquilo que já tinham conseguido fazer com Sérgio Conceição, provavelmente fruto das muitas mudanças no plantel, com o treinador ainda à procura de fazer passar a sua ideia.

Os papéis estavam atribuídos e a magia do futebol fez o que tinha a fazer, deu a vitória antecipada ao Benfica, nos palpites dos balcões de café e da tabela da liga, e a profecia desenrolou-se num filme que tinha tudo para ser inesperado, mas que Sérgio Conceição, com uma teia tática bem desenhada, fez parecer o mais natural possível.

O treinador do FC Porto, na antevisão ao Clássico, já tinha dito que, no seu entender, os adversários do Benfica ainda não tinham explorado os pontos menos fortes dos encarnados. Ditava-se assim a profecia de Conceição, arriscada na altura, agora consagrada numa lição de bom futebol.

Benfica e FC Porto repetiram os onzes das últimas jornadas e por isso, Conceição e Bruno Lage estavam destinados a ser jogadores de xadrez durante 90 minutos, num jogo que prometia obrigar a uma leitura contínua e a assumir decisões táticas no momento. E se o plano do primeiro correu na perfeição, com as peças praticamente autónomas a cumprirem o pressuposto, o segundo viu-se obrigado a estar constantemente à procura da fórmula certa, encurralado por um adversário constantemente a ameaçar o xeque-mate. Quando esteve perto de a atingir já perdia por um golo, as costas da sua defesa estavam demasiado nuas e os dragões ainda com força para matar o encontro.

O jogo começou com um FC Porto melhor, mais duro e pressionante, a dar pouco espaço ao Benfica. Durante a primeira parte, os dragões fecharam o corredor central aos encarnados, impedindo as habituais combinações rápidas, obrigando as águias a jogar pelas alas e a optar pelas bolas longas, sendo que a missão de acautelar o jogo aéreo ficava entregue à dupla Pepe - Marcano que se mostrou irrepreensível.

A este plano, os dragões juntaram decisão. Os azuis e brancos não se desgastaram em ataques inofensivos, procuraram antes esperar pelo momento certo para explorar a profundidade pela velocidade de Moussa Marega ou de Zé Luís. A gestão do tempo e do corpo do meio-campo ficava entregue a um jovem estreante em "Clássicos", Romário Baró, que parecia que jogava jogos destes desde que veio ao mundo, numa tripla ainda composta por Uribe e Danilo Pereira. Os três entraram no entendimento perfeito que fez esquecer que, há poucos meses, a força daquela zona do terreno portista vinha de um homem que agora vive a 600 quilómetros de distância, na capital espanhola.

Antes do primeiro golo houve dois avisos: o primeiro aos 18 minutos, um contra-ataque rápido pela direita com Jesús Corona a rematar forte dentro de área e a obrigar Rúben Dias a dar o corpo às balas para cortar a bola, depois, aos 21 minutos, após uma perda de bola de Nuno Tavares, numa transição defensiva, Marega conseguiu colocar a bola em Zé Luís que, no cara a cara, perdeu para Odysseas Vlachodimos.

Já vimos que fazer do futebol profecia é extremamente simples, e aqui até podíamos parar para escolher entre a homenagem ao grande Jorge Perestrelo com um “água mole em pedra dura tanto bate até que fura” ou optar por um simples “não há duas sem três”. À terceira, Zé Luís inaugurou o marcador. Após um canto batido por Alex Telles, Ferro cortou mal a bola, na direção da baliza, e o cabo-verdiano estava no sítio certo à hora certa para fazer golo.

O FC Porto não deixou o Benfica pensar nem atuar em velocidade e um bom resumo disso é dizer-se que, aos 90 minutos de jogo, para além de não ter tido uma grande oportunidade de golo, o único remate enquadrado com a baliza dos encarnados foi um livre de Grimaldo que nem chegou para assustar Marchesín.

Na segunda-parte, a história não foi diferente. Mesmo com Lage a mexer no xadrez e a tirar Samaris para estrear Adel Taarabt em "Clássicos" o FC Porto continuou a conseguir gerir a vantagem. A primeira oportunidade foi nos segundos 45 minutos foi mesmo dos pupilos de Conceição com um grande remate de Luis Díaz à entrada da área a obrigar guarda-redes grego das águias a uma grande defesa.

O Benfica, à medida que o treinador mexia na equipa, ia conquistando terreno, mas sempre sem causar perigo. À medida que o fazia, subia, inevitavelmente, a linha defensiva, deixando um campo aberto à mercê de um sprinter como Marega.

E se aos 78 minutos, o maliano, na cara do golo, tem uma perdida inacreditável, com a bola a passar junto ao poste, nove minutos depois, com uma facilidade que resume o desgaste da equipa benfiquista, Otávio isola Marega com um passe sem balanço feito em cima da linha do meio-campo e o avançado azul e branco redime-se, mata o jogo e fecha o placard nos 2-0.

Quando o árbitro apita para o final do encontro, após uma decisão do VAR de invalidar o golo de Seferovic por fora de jogo, já no tempo extra, víamos o campeonato a (re)começar. Dois rivais diretos novamente igualados em termos pontuais e um FC Porto igual a si mesmo, à imagem do treinador, forte, experiente, arrasador, que se precisava de mostrar aos seus adeptos.

Sérgio Conceição ressuscitava a equipa no jogo conseguindo, além disso, fazer aquilo que até hoje ninguém tinha conseguido fazer: vencer o Benfica de Bruno Lage no campeonato.

Não podemos dizer que não fomos avisados de que isto podia acontecer.

créditos: MIGUEL A. LOPES/LUSA

Bitaites e postas de pescada

O que é que é isso, ó meu?

RDT e Seferovic é um dupla que tarda em mostrar resultados e que, pelas características dos dois avançados, tira um elemento de ligação entre o meio-campo e o último terço do terreno, algo que diferenciava o futebol dos encarnados na última temporada e que era alimentado ora por João Félix, ora por Jonas. Nenhum dos dois foi sinónimo de ameaça com o (pouco) perigo a ser manifestado por um Rafa inconformado e um Pizzi a tentar entrar na área por em movimentos interiores.

Pepe e Marcano, a vantagem de ter muitos anos em cada perna

A média de idades da defesa do Benfica neste encontro era de 21,5 e a do FC Porto de 30. São as idades e a experiência de Pepe e Marcano que elevam tanto este indicador azul e branco. Dentro de campo nota-se. A dupla portista foi uma autêntica parede no jogo aéreo e a neutralizar a dupla Seferovic/RDT

Fica na retina o cheiro de bom futebol

As conferências de imprensa após este jogo merecem ser vistas e revistas num ambiente de salutar. Sérgio Conceição numa correta e honesta análise, na posição facilitada de vencedor do encontro, e Bruno Lage com um realismo nas palavras, aliado a um grande fair play, a que não estamos habituados em Portugal. É bom ver o futebol ser bem discutido por quem o protagoniza.

Nem com dois pulmões chegava a essa bola

O falhanço de Marega aos 78 minutos é uma coisa do outro mundo. Felizmente para o maliano, o resultado permite que tudo aquilo possa cair no esquecimento.

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