"E André Silva."

Foi com este nome que o selecionador nacional Fernando Santos fechou a lista de convocados para os encontros de qualificação para o Mundial de 2018, frente à seleção de Andorra e às Ilhas de Faroé.

Os holofotes da imprensa dirigiram-se, quase de imediato, para Gelson Martins. A mais recente promessa leonina tinha recebido a primeira chamada à seleção A. O país aplaudiu.

Contudo, pouco tempo depois, um pormenor chamou a atenção: não havia nenhum jogador do Benfica na convocatória.

É preciso fazer um exercício de memória e recuar quase dois anos para encontrar uma situação idêntica. Em novembro de 2014, Fernando Santos não levou nenhum ‘encarnado’ para os jogos frente à Arménia e Argentina. Na altura, nomes como Hélder Postiga (então ao serviço do Desportivo da Corunha) ou Bosingwa (a jogar no Trabzonspor da Turquia) ainda eram nomes 'convocáveis'. Éder ainda estava no Sporting de Braga (longe de saber - ou talvez não... - que um dia seria o herói do título europeu de Portugal) e Tiago Gomes (na altura companheiro de Éder, agora no Apollon Limassol) era um dos defesas-esquerdos convocados.

Na gíria e nos comentários baseados no senso comum, esta 'ausência' poderia ser considerada 'normal'. “O Benfica não aposta em portugueses” ou “No Benfica fala-se sérvio?” são comentários que muitos adeptos de futebol já teceram ou ouviram. Mas, na realidade, esta época quatro portugueses têm marcado presença assídua no onze inicial do clube da Luz. São eles Nélson Semedo, André Horta, Pizzi e Gonçalo Guedes. Para além disso, o plantel do tricampeão nacional conta ainda com dois campeões europeus: Rafa e Eliseu.

Se as não convocatórias de Rafa (lesionado e ainda só com um jogo feito pelos encarnados) e Eliseu (perdeu o lugar para Grimaldo) acabam por fazer sentido para o comum dos adeptos, talvez importe perceber que motivos poderão ter levado Fernando Santos a ter deixado os restantes jogadores encarnados 'sentados' no Seixal.

Quem tirou o lugar a quem? 

Nélson Semedo

Nelsinho voltou. O jovem defesa do Benfica fez uma pré-época que deixou os adeptos a salivar, com o seu estilo sem medo, impetuoso e frenético no ataque. E isso refletiu-se nos números. Em nove jogos, distribuídos pelas diferentes competições, o jogador soma já um golo marcado e três assistências. Parece que a lesão - contraída ao serviço da Seleção na época passada - é um pesadelo de outros tempos.

Quem lhe 'roubou' o lugar?

Os dois defesas a atuar sobre a lateral direita chamados por Fernando Santos foram o campeão europeu Cédric Soares e o ex-Benfica João Cancelo.

Cédric era um nome esperado. Com um início de época bastante consistente, o jogador formado nas camadas jovens leoninas é, provavelmente, o melhor defesa direito português da atualidade. No seu clube, o Southampton de Inglaterra, é dono e senhor do lado direito da defesa e a sua influência na equipa é inegável.

João Cancelo já tinha integrado a última convocatória e é, nesta altura, o principal 'rival' do defesa encarnado na disputa por um lugar nos escolhidos do selecionador. Com um Valência ‘de pernas para o ar’ (apenas conseguiu somar pontos nas duas últimas jornadas), Cancelo fez quatro jogos a titular e dois como suplente utilizado na La Liga. Ainda à procura de uma posição fixa no onze valenciano - já passou pelos dois corredores, na defesa ou mais à frente -, as suas exibições são, por vezes, irregulares (em linha com as da equipa, de resto). Contudo, não deixam de fazer com que seja um dos destaques deste início de época da equipa espanhola, onde a sua influência aumenta a cada jogo. Tem uma assistência.

André Horta

Formado no Benfica, foi resgatado ao Vitória de Setúbal para desempenhar um papel difícil no clube da Luz: substituir Renato Sanches. E o que é um facto é que o jovem internacional português pelas camadas jovens chegou, viu e venceu, e desde o primeiro jogo assumiu a titularidade no meio-campo encarnado. Completamente diferente do ‘menino da Musgueira’, Horta tem, ainda assim, deixado o seu estilo bem vincado, com um jogo menos físico e mais inteligente (algo que se nota, sobretudo, na qualidade de passe). Em termos de números, o arranque de época acompanha a qualidade das exibições: duas assistências e um golo marcado. Contudo, a adaptação a uma nova realidade tem implicado algumas exibições menos conseguidas, onde a falta de maturidade é evidente. Por isto, e acima de tudo pela concorrência de um meio-campo campeão europeu, a sua chamada à seleção A nesta fase não era expectável.

Quem lhe 'roubou' o lugar?

André Gomes, João Mário, Renato Sanches, Adrien Silva e João Moutinho. Todos eles campeões europeus. Todos eles indiscutíveis para Fernando Santos.

Parece que a sombra de Renato Sanches vai continuar a pairar mais algum tempo sobre André Horta. O jovem campeão europeu é um dos que está (e estará) a tapar a entrada na seleção A e mesmo com uma entrada muito aquém do que era esperado no Bayern de Munique, volta a merecer a confiança do selecionador nacional. O facto de ter sido um dos motores mais importantes na conquista do Euro 2016 em França não terá sido, de certeza, algo subestimado por Fernando Santos.

Adrien Silva é, neste momento, um dos indiscutíveis de Fernando Santos. No Europeu de França houve um Portugal antes e depois da entrada do jogador no onze e o reflexo do capitão leonino na equipa de Jesus é brutal. Um enorme jogador que, neste momento, 'rouba' o lugar não só a Horta como a qualquer outro médio português.

Protagonista de uma das maiores e mais mediáticas transferências deste defeso, o agora nerazzurro (cores do Inter de Milão) João Mário é outro dos indiscutíveis de Fernando Santos. À direita, à esquerda ou ao meio, a inteligência, sentido tático, polivalência e técnica individual do médio português vão, muito provavelmente, garantir-lhe um lugar na Seleção durante muitos (e bons) anos.

Depois de um Euro muito apagado, João Moutinho voltou a ter um arranque de época ao nível do que nos habituou no passado. Tornou a assumir o papel de 'motor' do Mónaco de Leonardo Jardim, talvez aproveitando o embalo do seu compatriota e companheiro de equipa Bernardo Silva. Em onze jogos, leva um golo e uma assistência, mas a sua influência na equipa monegasca vai muito além disso. É um jogador com grande experiência e com um percurso que dá garantias.

Por último, André Gomes. O médio ex-Benfica deu agora o salto para o Barcelona e ainda se está a adaptar, apesar de já ter deixado boas impressões em algumas exibições. As suas principais características ficam vincadas na qualidade de passe e inteligência na maneira de jogar. Ainda só foi titular por três vezes, mas tudo indica que seja um elemento importante no processo de rotação da equipa catalã. Para Fernando Santos, é outro dos 'intocáveis' (até ver).

Pizzi e Gonçalo Guedes

Estão os dois no mesmo 'saco', da mesma maneira que a Federação Portuguesa de Futebol coloca todos os jogadores que atuam no último terço do terreno no mesmo lote. Pizzi é um polivalente. Mas esta época tem sido na sua posição de origem (extremo) que tem dado o seu maior contributo ao clube da Luz. O internacional português está a ter, inclusivamente, o seu melhor arranque de época de sempre, com três golos e duas assistências. Já Gonçalo Guedes, também ele extremo de origem, tem jogado como segundo avançado. Com arrancadas irrequietas e alguns desperdícios em zonas de finalização - daqueles que levam os adeptos a 'arrancar cabelos' - tem, ainda assim, dado um bom contributo à equipa. Marcou um golo.

Quem lhes roubou o lugar?

Cristiano Ronaldo, Nani, Ricardo Quaresma e Gelson Martins. Fernando Santos é conhecido por ser um selecionador - e treinador - conservador, mas o 'menino' (como lhe chama Jorge Jesus) Gelson Martins 'obrigou-o' a arriscar. Com um início de época frenético (em que tem 'sentado' nomes como Markovic ou Joel Campbell), o jovem extremo sportinguista - que este ano já chamou a atenção do Real Madrid quando o Sporting visitou o Santiago Bernabéu - foi a 'truta' do selecionador para este duplo confronto da qualificação para o Mundial da Rússia.

Quanto aos restantes 'rivais' de Pizzi, é difícil argumentar. Tratam-se de três destes jogadores 'históricos' do conjunto nacional. Ricardo Quaresma 'renasceu' na Seleção com Fernando Santos - é um nome grande, com experiência e 'peso' no balneário. Nani, o quarto português mais internacional de sempre (e quase a tomar o lugar de Fernando Couto no pódio dos mais internacionais) é outro dos indiscutíveis e tem sido o companheiro de ataque do mais forte candidato à Bola de Ouro deste ano: Cristiano Ronaldo, capitão da equipa das quinas e por muitos considerado o melhor jogador português de sempre.

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