O Clube de Futebol de Santa Iria disputa a Pró-Nacional da Associação de Futebol de Lisboa, ou seja, está nas Distritais, divisão imediatamente inferior ao último escalão do futebol nacional, o Campeonato de Portugal Prio. Tem 24 jogadores no plantel com uma média de idades de 25 anos. São todos portugueses, menos um, oriundo de São Tomé e Príncipe. Uns são estudantes, a maioria trabalha, treinam três vezes por semana, às terças, quartas e quintas feiras, e nenhum é profissional da bola. “Recebem somente prémios de jogo”, explica Cândido Dias, ex-jogador do clube e atual diretor desportivo, que é conhecido no mundo da bola como Dani. É em função desses prémios de jogo que se chega ao oscilante orçamento para a época, que no ano passado “andou pelos 20 mil euros”.

Domingo, 16 de outubro, às 15h00, escreve-se uma página única na história do clube do Concelho de Loures, sito na preferia industrial de Lisboa e que celebrou 75 anos a 15 de julho. O Santa Iria recebe, em casa emprestada (Sacavém), o Vitória de Guimarães, da Liga NOS, em jogo da 3ª eliminatória da Taça de Portugal Placard.

Com o Campo Tomaz Reynolds, com capacidade para 750 pessoas, sem as medidas regulamentares no que toca à largura (tem 56 metros sendo o mínimo 64) para “entrar” nestas competições nacionais, conforme explica o presidente Rui Patrício (na foto), a opção de campo recaiu no Sacavenense (Campeonato de Portugal), clube vizinho que abriu as portas do seu estádio cedendo gratuitamente os 3200 lugares. O anúncio foi feito nas redes sociais do clube, pelo que as fotos do relvado do Grupo Sportivo Sacavenense devem receber primeiro os likes e depois viajar para as paredes do corredor de acesso aos balneários, debaixo da bancada do campo do Santa Iria, local que regista outros feitos, dos títulos da AFL à subida à 3ª Divisão Nacional e os dois anos ali passados (1986 a 1988).

Para o jogo da Taça de Portugal “emitimos 3000 bilhetes com o preço de 10 euros. Os que não forem vendidos temos que pagar o custo de impressão”, alerta Rui Patrício. “O Guimarães pediu 200....estávamos à espera de mais” sublinha em tom de lamento o homem que dirige o clube há 3 anos, mas que vai no sétimo ano de coletividade. “Temos tido muitas perguntas sobre os ingressos. A dúvida é se temos 1000, 1500 ou 2000 pessoas”, continua, deixando um pedido no ar. “Como a receita é a dividir por três (Clubes e Federação Portuguesa de Futebol) vamos sensibilizar o Guimarães para prescindir da verba a que tem direito”, assegura fazendo contas de cabeça. Sem previsão, por agora, de qual o valor da verba arrecadada com o jogo da Taça, há, para já, uma certeza: chegar à 3ª eliminatória da prova rainha do futebol português garantiu ao clube uma verba total de participação de nove mil euros (dois mil na 1ª eliminatória, três mil na 2ª e agora, quatro mil). Ou seja, quase metade do budget da época transata. E pode subir, se virarem Tomba-Gigantes e deixarem pelo caminho a equipa que cedeu as bolas de jogo e cujo treinador, Pedro Martins “andou por aqui a espiar na última jornada”, desvenda Peres, sócio nº60.

Em caso de vitória os jogadores recebem...100 euros. Um prémio “chorudo” para aqueles lados. Tem a palavra a equipa que veste de azul e branco. “Flecha” (na foto), capitão, que já marcou nesta prova é uma das esperanças locais. Aos 32 anos, o avançado com o nome Ricardo Henriques já ganhou, pelo menos, o prémio da fama nacional.

Assistências dão para despesas dos jogos, patrocinadores e bar ajudam à festa

No ano passado, o tridente, presidente, diretor desportivo e treinador, Nuno Lopes, tinha um sonho de ganhar a taça AFL, que viria a acontecer. “Este ano queríamos ir até à 3.ª eliminatória, pelo que o objetivo de época já está”, assume o diretor desportivo. Porque a Taça de Portugal deu um mediatismo digno da Liga NOS, Cândido Dias explica o segredo do sucesso. “Tentamos criar uma árvore. Temos treinadores e adjuntos que já foram aqui jogadores, tentamos criar uma mística”, remata. 

Com os pés bem assentes na terra e sem querer outros voos, até porque “esta é a nossa divisão, não temos infraestruturas nem força financeira para mais”, o presidente do Clube de Futebol de Santa Iria assume “que quer fazer melhor que no ano passado (2º lugar e vencedor da Taça AFL)”. Segue-se um esclarecimento: “ser campeão é uma coisa, subir é outra. Até porque não poderíamos jogar no nosso campo e não podendo esticá-lo, temos a autoestrada (que liga Lisboa-Porto) como muro, os postes de eletricidade... jogar noutro lado perdia-se a identidade, os sócios não se deslocariam e perdíamos as receitas de bar, importante fonte de receita”. E por falar em dinheiro, os patrocinadores são outra ajuda para este clube do Concelho de Loures que tem 1000 sócios “dos quais 700 pagantes”. Com os homens a pagarem dois euros, mulheres e reformados metade e crianças 50 cêntimos, a “quotização rende mil euros mês” o que dá “para pagar a eletricidade”, explica Rui Patrício. Aos jogos, em média, assistem “150-200” adeptos. “Dá para as despesas de jogo”, reforça Cândido Dias, diretor desportivo.

Encravado entre escolas do Sporting

Totalizando cerca de 350 jogadores, entre futsal feminino e futebol, dos mais novos aos veteranos, os quatro campos sintéticos não “dão para mais equipas”, assevera Rui Patrício, que sustenta que mais campos houvesse mais bola rolava. Situado entre duas escolas do Sporting, Sacavenense e Povoense, que “secam” os miúdos da zona envolvente, é normal a presença de olheiros, sejam das academias, dos leões e do Benfica. Outrora abordados pelas águias e pelo Dragon Force (Porto) a “constituir um franchising”, mantiveram a sua identidade. Entre “emails e convites” a quem desponta na formação, há quem vá a treinos de captação aos “Grandes”, mas regressa sempre. “São uns entre centenas e por vezes nem dois toques na bola dão”, explica o presidente que não deixa de recordar um jogador formado na casa e que vestiu de verde e branco. “O Paulo Pilar esteve para ir ao Mundial de Juniores de Lisboa de 1991, mas partiu a perna. Passou ao lado de uma carreira”, lamenta. Pulando para a atualidade, o júnior Bruno Pais saiu para o Nacional da Madeira e depois Sporting e Patrícia Morais, guarda-redes da seleção nacional e contratada pelo Sporting Clube de Portugal, é cabeça de cartaz do orgulho local.

Historial à parte, domingo se verá se haverá jogadores a despertar cobiça alheia e se o milagre da Taça de Portugal prossegue num clube cuja auto-estima está, por estes dias, em índices elevados, em contraciclo “a algum bairrismo que se foi perdendo desde que o velho 'Altinho', onde era difícil jogar, ganhou bancadas e relva sintética”, adianta João Barroso, vice-presidente, enquanto corta as credenciais do jogo da vida.

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