Se há umas semanas a esta parte visitámos o virtuosismo de Sir Stanley Matthews, o Messi dos seus dias, hoje é justo dizer que visitamos o Cristiano Ronaldo dos seus dias, ao falar de um jogador que mudou igualmente a forma de jogar. Senhoras e senhores, George Best.

Nascido a 22 de maio de 1946, em Belfast, Irlanda do Norte, George Best cresceu, como qualquer criança na altura, a jogar futebol na escola e nas ruas da sua cidade. Aos quinze anos de idade foi descoberto por um olheiro do Manchester United, cujas palavras de volta para Matt Busby e para o clube de Manchester foram: acho que descobri um génio.

Estreando-se pela equipa principal aos dezassete anos de idade, Best já demonstrava o enorme potencial que viria a fazer dele um dos melhores jogadores de todos os tempos a vestir a camisola do United. Mais que isso, Best tornou-se dos melhores de todos os tempos, e em apenas uma mão cheia de anos.

 “Se eu tivesse nascido feio, nunca teriam ouvido falar do Pelé”

Viviam-se os anos 1960, e com eles a reconstrução da equipa de futebol do Manchester United, após o desastre aéreo de Munique. Relembre-se que oito jogadores do United faleceram e muitos outros tiveram que se retirar devido a lesões crónicas na sequência da queda do avião que transportava a equipa de Munique de volta a Manchester, após jogo a contar para a Taça dos Campeões Europeus. Sir Matt Busby, treinador, sobrevivera ao acidente e não só voltou a comandar a equipa, como reconstruiu um United à altura da formação que atingira as meias-finais da competição no ano fatídico de 1958.

A necessidade de reconstrução levou à procura de talento e dessa busca surgiu George Best. Mais cedo ou mais tarde, Best acabaria com certeza por atrair os maiores clubes ingleses, mas o plano de Matt Busby para colocar o United de volta no patamar a que este pertencia levou a que o clube chegasse ao menino de Belfast antes de qualquer outro. O United construía assim um dos melhores trios da história do futebol. Numa época em que os trios atacantes estavam, mais que nunca, em voga, o United criou uma frente atacante que não fica, em nada, atrás dos melhores trios ofensivos de todos os tempos. George Best, Denis Law e Sir Bobby Charlton formavam a United Trinity, que é hoje reconhecida nas imediações dos Estádio de Old Trafford com uma estátua dos três jogadores. O trio fora tão formidável que todos eles seriam premiados, durante os anos 1960, com o Ballon d’Or.

Os anos de glória de George Best

Durante os dez anos ao serviço da equipa principal do Manchester United, com 179 golos em 470 partidas, foi entre 1964 e 1968 que George Best conseguiu conciliar o seu talento com o sucesso dentro do campo de futebol.

Após o primeiro título ao serviço do clube do norte de Inglaterra, em 1965, seguiu-se o aperitivo europeu que levaria a equipa às meias-finais da Taça dos Campeões Europeus em 1966. Jogando os quartos-de-final frente ao Benfica, o Manchester levaria a equipa de Eusébio e companhia ao desespero, com um resultado final a duas mãos de 8-3, favorável aos ingleses. Seria no 1-5 da segunda mão que Best fincava o pé na Europa e se tornava o nome maior da competição.

Voltando a vencer o título inglês em 1967 — pela última vez para George Best e pela última vez para o United antes de 1992, ano de formação da Premier League —, seria apenas em 1968 que Best faria a melhor época da sua carreira. Para infortúnio, novamente, do Benfica, Best e companhia viriam a marcar a final da Taça dos Campeões Europeus, jogada em Wembley, com uma batalha que só terminaria após prolongamento. Quatro bolas a uma seria o resultado de mais uma final perdida pelo clube português.

Nessa mesma época, George Best era consagrado com o prémio Ballon d’Or e juntava à sua fantasia não apenas títulos coletivos, mas também títulos e reconhecimento individual.

O toque de bola de Best ficaria impresso na memória de quem assistia aos seus jogos. O toque de bola, a destreza das suas fintas, a velocidade com e sem bola, os golos, o jogar com os dois pés, o marcar em momentos decisivos, o requinte e capacidade de passe, e o toque de génio, características apreciadas e mencionadas algures no tempo, fosse por um simples adepto, jornalista ou pelos próprios colegas de profissão.

Em 1967, no início da época que levaria o United ao sucesso europeu, um momento simbólico — que levou muitos a mencionar que foi o norte irlandês que deu cor ao futebol. Num jogo a contar para a super taça inglesa, frente ao Tottenham, Best e os seus companheiros eram os primeiros jogadores a participar numa partida transmitida a cores pela televisão inglesa. A magia e fantasia que George Best colocava no relvado podia agora ser apreciada na sua plenitude, a cores.

Se a imprensa portuguesa rotulou Best de “O Quinto Beatle”, o que eu percebo pela proximidade geográfica, a sua vida social e popularidade, ainda assim eu terei que colocar a minha parcialidade musical em cima da mesa e chamá-lo de "O Bob Dylan inglês". A irreverência, o fazer o que lhe vai na cabeça, a mudança de paradigma do futebol, que à semelhança de Dylan, largando a guitarra acústica, liga o amplificador e usa arrogância da guitarra elétrica para virar o mundo de pernas para o ar em plena década de sessenta. Tal como Dylan, Best deu um abanão no seu mundo, mudou o estilo, marcou uma geração, perdão, todas as gerações que se seguiram. Gostos não se discutem, mas assim como Bob Dylan, George Best está na lista restrita de artistas que contribuíram para a evolução da sua arte. Ambos irreverentes o suficiente, loucos ‘qb’ e incrivelmente geniais na sua essência. Transportando com eles a personalidade e qualidade que poucos conseguem, o músico e o futebolista, ainda que com percursos muito diferentes, marcaram um período de revolução artística que ainda hoje nos afeta de forma extremamente positiva.

O fim do 'Melhor', do 'Best'

"Espero que as pessoas se lembrem sempre do meu lado futebolístico e o porquê das multidões virem aos meus jogos”

Depois dos poucos, mas recheados de sucesso, anos de dedicação ao futebol, o foco do jogador passou a ser a sua vida social, e com o dinheiro e a fama veio a decadência do futebolista e, rapidamente, com o passar do tempo, da pessoa. A vida mediática aliou-se ao álcool e juntos colocariam um ponto final na carreira do futebolista. Mesmo continuando a jogar até 1984, a lenda nunca mais seria a mesma e Best seria uma sombra do que poderia, na realidade, ter continuado a ser. Falecendo a 25 de novembro de 2005, George Best deixava-nos com apenas 59 anos de idade. Tendo sido uma figura querida do público até à data da sua morte, manteve-se perto do futebol, juntando-se ao painel de comentadores da Sky Sports por diversas vezes. Coincidência ou não, o alcoolismo, também a causa de morte da sua mãe, seria a sua.

Ao longo dos anos foram imensas as frases que Best nos foi deixando. Escolher as melhores é tarefa quase impossível, ainda assim, deixo-vos com algumas das mais famosas. Como bon vivant que era, Best, onde quer que fosse, trazia com ele o seu carisma e sentido de humor. Se quiser conhecer mais detalhadamente a vida pessoal e profissional de Best, aconselho vivamente o documentário sobre o mesmo. Datado de 2017, "George Best: All by himself" é a obra que fica para melhor dar a conhecer o génio por detrás da pessoa.

“Em 1969 desisti do álcool e das mulheres - foram os piores vinte minutos da minha vida” — sobre a sua vida boémia.

“Ele não sabe chutar com o pé esquerdo, não consegue cabecear a bola, não ganha disputas de bola e não marca muitos golos. Tirando isso, é bom jogador” — sobre David Beckham.

“Houve muitos jogadores rotulados como o novo George Best ao longo dos anos. Desta vez, foi a primeira vez que foi um elogio para mim" — sobre a comparação entre si e Cristiano Ronaldo. De certeza que Best ficaria ainda mais radiante se tivesse tido a oportunidade de ver a evolução de Cristiano no United e a sua confirmação no Real Madrid.

“Uma vez disse ao Gazza (Paul Gascoigne) que o seu QI era inferior ao número da sua camisola. Ao que ele respondeu: O que é o QI?” — sobre Paul Gascoigne.

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