O ponto de encontro é o BBC, o bar dos bombeiros do Corvo, junto ao centro da vila. A meia-hora do início da final da Liga das Nações, entre Portugal e Holanda, a paisagem ia-se compondo com minis vazias sobre a mesa e algumas pessoas vestidas a rigor, com as quinas ao peito ou ao pescoço.

Este domingo a ilha já celebrou, foi o dia das sopas do Espírito Santo, preparadas nos últimos dois dias. Houve procissão, missa e um banquete para todos os que se quisessem sentar. Mas nem por isso todos os corvinos se cansaram, depois das idas à praia, da sesta ou do passeio para desmoer a carne e o pão da iguaria típica desta celebração açoreana, havia um coração pronto a aguentar.

À porta, o Luís, dono do Pirate Nest, um negócio de alojamento local, vestido com a camisola da seleção portuguesa, dá contexto ao grupo de jornalistas do SAPO24, “aqui na ilha é tudo do Benfica tirando uma ou outra ovelha negra”, diz, enquanto se ri para o senhor Felipe, portista. O homem ri-se, vem mais uma rodada, fala-se do mar, que tem estado bom para navegar, da beleza das escarpas da ilha e de onde até imaginação e as lendas nos podem levar. A cinco minutos do apito inicial, a história muda do mar para a que se vai escrever esta noite. António Resendes, dos correios da ilha das Flores, que veio até à ilha vizinha para as sopas, dava o primeiro prognóstico antes de acabar a cerveja e entrar “acho que isto hoje vai correr bem. Tem corrido com a Holanda”.

O bar tem dois andares. O rés do chão é um café de dois balcões perpendiculares, estendido ao comprido. Do lado esquerdo há uma pequena bancada dos Jogos Santa Casa. Todo o futebol do Corvo não cabia ali. Abre-se o primeiro andar onde se costuma fazer a noite na ilha. Nas escadas, logo à entrada, um poema de Vasco Pernes retirado da coleção “Lugares de Verão”, convida-nos: “Não há pressa em conhecer a ilha. Há tempo.”, pode ler-se. Felizmente, o verde que se estende do caldeirão ao aeroporto não dura só 90 minutos.

Há um ecrã gigante, a casa está cheia, as pessoas estão vestidas a vermelho. Os mais novos ocupam a mesa da frente e exercitam os olhos entre os telemóveis e o jogo que está prestes a começar. O BBC está cheio, só podia estar, e em dia de aniversário, o sétimo, recuperava o estatuto de 2014, no Mundial do Brasil, em que foi posto avançado da Coca-Cola de apoio à seleção.

O empregado vai fintando as cadeiras que ocupam os corredores habituais de passagem, deixa bebida e comida. A multidão está em calma, aproveita-se para meter a conversa em dia. O primeiro coro dirigido aos que no relvado vestiam de vermelho e quinas ao peito só surgiu aos 21 minutos de jogo, após um toque de calcanhar de Bruno Fernandes. O jogador do Sporting foi o responsável por mais dois momentos de parar a respiração com dois remates perigosos, um defendido por Cillessen e outro a rasar a trave. Foi o médio o único a merecer as onomatopeias na primeira parte. A calma reinava, as pessoas da ilha têm o dom do tempo. Ninguém tremia.

Ao intervalo, da varanda, Orlando, o carteiro da ilha, diz que não há motivo para preocupação. “A equipa está a jogar bem. Contra a Suíça era só Ronaldo, mas neste estão todos bem. Vai correr bem”, diz de cachecol ao pescoço.

O árbitro apita para o início da segunda parte e os primeiros minutos dão a sensação de que o intervalo fez melhor à Holanda do que a Portugal. Junto ao balcão distribuíam-se cadeiras e uma fila de homens, interrompida por uma mulher, ficava com a cabeça dois dedos acima do balcão, parecia um banco de suplentes. Pedem mais uma rodada e dizem que estão a aquecer para entrar.

É raro ver um grupo de pessoas a encarar um jogo de futebol com tanta tranquilidade. Se sofria, sofria-se num silêncio disfarçado. Naquela sala escura, ornamentada com fotografias de paisagens da ilha a preto e branco, onde a imagem da bola nos atingia a todos, havia espaço entre os passes para discutir a tática. O Luís, ao balcão, confessa que o que mais gosta de ver é a seleção. “Vê bem que da temporada passada do Benfica, que é o meu clube, só vi o último, contra o Santa Clara”. Esta é a beleza de ver Portugal com a bola nos pés.

créditos: PEDRO MARQUES / MADREMEDIA

O golo exige um grito geral. Erguem-se cachecóis, punhos. Dá-se o abraço da praxe e volta-se ao lugar, à calma que nem as investidas da Holanda fazem tremer. Na grande área portuguesa um jogador holandês tenta o pontapé de bicicleta, do ‘banco de suplentes’, já de pé ouve-se “só o Ronaldo é que é capaz de fazer aquilo”.

O jogo termina. Festeja-se, os miúdos saem pela rua fora a gritar campeões em direção à rotunda em frente dos correios onde, na pedra da calçada, está pintado o brasão da ilha. Vão sozinhos, engolidos pelo silêncio de uma ilha que festejou a comunidade nos últimos dias e seguem por outra rua, vão buscar uma bola para ir jogar para o largo atrás da Câmara. Talvez hoje não quisessem ser todos Cristianos Ronaldos, numa noite em que os nomes de Bernardo Silva e Gonçalo Guedes ficaram à disposição.

O Orlando, feliz, desce as escadas para ver se alguém vai buzinar para a rua. “O nosso Marquês de Pombal é a rotunda dos Correios. No Benfica buzina-se, vamos lá ver”. Volta passados dez minutos, bebe mais uma cerveja e diz que hoje ninguém sai à rua. “Quando é o Benfica há mais festa do que isto”, ri-se. Não era preciso, hoje, o Corvo já tinha celebrado a sua gente, e o futebol da ilha afinal coube todo no BBC.

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