Esta não está a ser uma má temporada para se ser fã da NBA. Ao longo destes meses, temos sido presenteados com grandes exibições atrás de grandes exibições por parte de alguns dos melhores jogadores da liga (e do mundo).

Russell Westbrook vai terminar a época com uma média de triplo-duplo (31.6 pontos, 10.4 assistências e 10.7 ressaltos à data da escrita destas palavras) e (para já) igualou o recorde de triplos-duplos numa época (41). James Harden, com 29.2 pontos, 11.2 assistências e 8.1 ressaltos, está a superar todas as expectativas e a levar os Houston Rockets até onde ninguém acreditava. LeBron James está a fazer algo que nunca fez na carreira (terminar a época com mais de 8 assistências e 8 ressaltos de média). E Kawhi Leonard está a fazer (silenciosamente, claro) a melhor época da sua carreira (26 pontos, 6 ressaltos e 3.6 assistências e 1.8 roubos de bola).

Como dissemos há umas semanas, desde Michael Jordan em 1989 que ninguém faz médias de 25 pontos, 8 ressaltos e 8 assistências. Este ano temos três jogadores a fazê-lo. E Leonard pode não entrar nesse lote, mas, para compensar, tem um impacto defensivo que nenhum destes tem.

Para além destas quatro grandes temporadas, podemos ainda acrescentar a de Isaiah Thomas (sobre a qual já escrevemos aqui) ou a de Giannis Antetokounmpo (que lidera a sua equipa, os Milwaukee Bucks, em pontos, ressaltos, assistências, roubos de bola e desarmes de lançamento!).

Mas, se acham que esta temporada está a ser recheada de grandes performances individuais, deviam ter visto a temporada de 1961-62 (e isto é só uma força de expressão, nós também não vimos, não somos assim tão velhos).

Essa foi a temporada em que Oscar Robertson fez média de triplo-duplo. O base dos Cincinnati Royals acabou essa época com 30.8 pontos, 12.5 ressaltos e 11.4 assistências. Um feito inédito e que, até Westbrook virar Westbeast, parecia irrepetível. Foi também nessa época que o Big O fez 41 triplos-duplos. Outro recorde que, até Westbeast, parecia impossível de quebrar.

Essa foi também a temporada em que Wilt Chamberlain fez 50.4 pontos e 25.7 ressaltos de média. Vamos dar-vos um momento para processar essa informação. CINQUENTA pontos. E VINTE CINCO ressaltos. DE MÉDIA. Mesmo quando colocadas no contexto da época (mais sobre isso daqui a pouco) são estatísticas inacreditáveis. Nesse ano, o poste dos Philadelphia Warriors marcou mais de 50 pontos em 45 jogos. E num deles, no dia 2 de Março de 1962, entrou para a história como o primeiro (e muito provavelmente o único) jogador a marcar 100 pontos num jogo. Absurdo, seja em que era e em que contexto for.

Se acham que esta época estamos a assistir a duas temporadas historicamente boas (de Harden e Westbrook) no mesmo ano, nesse início da década de 60 tivemos dois dos maiores feitos de sempre no mesmo ano.

E, surpresa!, nenhum deles foi suficiente para ser MVP. O vencedor do prémio foi um tal de Bill Russell, que teve uns igualmente impensáveis para os padrões atuais 19 pontos, 23.6 ressaltos e 4.5 assistências e ganhou o título com os Boston Celtics (o quarto de oito consecutivos que os verdes venceram nessa década).

Naquela altura, eram os jogadores que votavam no prémio de MVP e valorizava-se muito quem vencia o campeonato. Por isso, o poste dos Celtics levou o prémio para casa e a votação nem sequer foi renhida (51 votos de 1.º lugar para Russell e apenas 13 e 9, respetivamente, para Robertson e Chamberlain).

Mas os números de deixar os queixos caídos não se ficaram por esses três. Seguindo pela classificação final do prémio de MVP, tivemos também Elgin Baylor, dos Los Angeles Lakers, com uns incríveis 38.3 pontos, 18.6 ressaltos e 4.6 assistências, Jerry West, também dos Lakers, com 30.8 pontos, 7.9 ressaltos e 5.4 assistências, e Bob Pettit, dos Saint Louis Hawks, com 31.1 pontos, 18.7 ressaltos e 3.7 assistências.

É claro que estes números têm de ser contextualizados. Eram outros tempos na NBA, uma era com menos equipas e com um basquetebol menos evoluído. Era também uma era com um ritmo de jogo mais rápido e com muito mais posses de bola por jogo (a média da liga nesta época de 61-62 foi de 126.2 posses de bola por jogo; em 2016-17 é de 96.4). O que significa mais passes, mais lançamentos, mais ressaltos e mais oportunidades de colecionar estatísticas.

Para se perceber a diferença que isso faz, os números de Russell Westbrook ajustados ao ritmo de jogo de 61-62 seriam qualquer coisa como 38 pontos, 13 ressaltos e 13 assistências.

Também ninguém tinha ainda ouvido falar de gestão do esforço e os jogadores jogavam muito mais minutos (o recorde de minutos por jogo que Chamberlain estabeleceu nesta época — 48.5 — nunca será batido)

É sempre complicado (se não impossível) comparar eras diferentes. Mas podemos olhar para aquilo que os jogadores de determinada era faziam comparado com os seus contemporâneos. E entre todos os jogadores que jogaram, em condições semelhantes, naquela era, mais ninguém fez o que estes fizeram.

Não nos interpretem mal. Esta é uma grande altura para estar vivo e ser fã da NBA. E somos uns felizardos por estar a assistir às performances de Westbrook, Harden, James e afins. Mas quem nos dera ter visto aquela época de 61-62, a das melhores temporadas individuais de sempre.

Márcio Martins já foi jogador, oficial de mesa, treinador e dirigente. Atualmente, é comentador e autor do blogue SeteVinteCinco. Não sabe o que irá fazer a seguir, mas sabe que será fã de basquetebol para sempre.

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