Há duas temporadas, os Toronto Raptors já tinham estado nessa posição: eliminados nos playoffs pelos Cleveland Cavaliers de LeBron James e deixados a equacionar o futuro e a construção do plantel. Nesse Verão de 2017, decidiram tentar algo muito raro, se não mesmo inédito: mudar sem mudar ninguém. Mantiveram o treinador, mantiveram os jogadores e mudaram a forma de jogar. Como escrevemos na altura, era uma experiência fascinante e, corresse bem ou corresse mal, uma das equipas mais interessantes de seguir nesse ano.

Essa “mudança sem mudança” correu bastante bem. Até à segunda ronda dos playoffs, pelo menos. Fizeram a melhor temporada regular da história da equipa (com 59 vitórias e 23 derrotas - segundo melhor recorde da liga, atrás dos Houston Rockets) e terminaram em primeiro lugar da conferência. E pareciam uma séria ameaça aos Cavaliers. Mas depois chegaram os playoffs e os Raptors não estiveram nem perto disso. Foram varridos pela equipa de LeBron James (a terceira eliminação em três anos às mãos dos Cavs) e deixados, uma vez mais, a questionar tudo.

E desta vez o diretor geral Masai Ujiri decidiu mudar mesmo. Não “mudar sem mudar” como no ano anterior, mas fazer alterações profundas na equipa. Despediu o treinador Dwayne Casey (decisão que originou um dos momentos mais caricatos do ano, com Casey a ser eleito Treinador do Ano dias depois de ter sido despedido - e quando já tinha sido, por sua vez, contratado pelos Detroit Pistons) e trocou o melhor jogador da equipa.

Ujiri promoveu Nick Nurse, um dos adjuntos de Casey, ao primeiro lugar do banco. Nurse é um estreante como treinador principal na NBA, mas conhece bem esta equipa. Estava desde 2013 na equipa técnica e é apontado como o homem por trás da transformação ofensiva da última época. E também não é nenhum estranho aos títulos. Antes de integrar o corpo técnico de Dwayne Casey, treinou durante 6 temporadas na D-League (agora G-League), onde se tornou o único treinador a vencer um título com duas equipas diferentes. Um desses títulos foi ao serviço dos Rio Grande Valley Vipers, a filial dos Houston Rockets, que utilizavam um ataque baseado na velocidade, no movimento e nos lançamentos de 3 pontos. Muitos lançamentos de 3 pontos. Um bom laboratório para aquilo que ele está a tentar fazer com os Raptors, portanto.

Depois, Ujiri decidiu jogar na lotaria de Kawhi Leonard. Chegou a acordo com os San Antonio Spurs e trocou o melhor jogador da história da equipa canadiana (pelo menos o mais bem sucedido e mais condecorado com a camisola da formação canadiana) por uma aposta em Kawhi Leonard, que tem apenas mais um ano de contrato garantido e pode ser agente livre no final da temporada. É uma aposta arriscada (para além do risco de poder sair após esta época, havia também o risco dele não regressar ao seu nível pré-lesão) mas que pode trazer grandes recompensas. Também pode atirar a equipa para um processo de reconstrução, mas aquilo que aconteceu este verão em Oklahoma (com Paul George a preferir ficar nos Thunder quando todos o davam como certo nos Lakers) deu motivação a Ujiri para arriscar e dá esperança aos Raptors que Kawhi também possa ser convencido a ficar.

Com Kawhi veio também Danny Green, o que só tornou a troca mais irrecusável. Porque, apesar do risco, a oportunidade de ter um jogador que, em forma e ao seu melhor nível, está entre os cinco melhores jogadores da liga era uma oportunidade que Ujiri não podia deixar passar.

E é uma aposta que, para já, não podia estar a correr melhor. Seguem invictos, com um recorde de 4-0, e com vitórias sobre os rivais (e principais favoritos à conquista do Este) Boston Celtics e sobre os prováveis nos playoffs Washington Wizards.

Kawhi Leonard está a jogar ao nível de antes da lesão. Tanto Danny Green como Leonard são melhores atiradores do que DeMar DeRozan e têm mais e melhores jogadores exteriores para jogar no sistema que abraçaram na época passada. E Kyle Lowry, rodeado de atiradores, está a fazer um início de época fenomenal.

Para além disso, um dos pontos mais fortes da equipa no ano passado, o banco, ainda ficou mais forte. Com Fred VanVleet, Delon Wright, Norman Powell, CJ Miles, OG Anunoby, Jonas Valanciunas (ou Ibaka - o lituano e o hispano-congolês têm dividido a titularidade) e Greg Monroe, têm 12 jogadores que podem entrar e contribuir. Têm usado uma rotação de 10, com VanVleet, Powell, Miles, Anunoby e Valanciunas/Ibaka. Delon Wright esteve lesionado, regressa esta semana e será um elemento ativo na rotação e Greg Monroe pode ser útil quando for chamado. É um belo banco. E um belo e profundo plantel. Um plantel que agora tem um jogador de elite, um “go to guy" fiável e como nunca tiveram.

São uma equipa mais profunda e mais equilibrada que as anteriores. E parecem uma equipa mais preparada do que nunca para não fraquejar nos playoffs. Este é o ano em que podem, finalmente, não desiludir. Sabemos que já dissemos isto antes e até provarem isso nos playoffs têm (temos) todas as razões para desconfiar deles. Mas este ano têm mais armas do que nunca. LeBron deixou a coroa do Este para quem a apanhar e os Raptors (e as mãos gigantes de Kawhi Leonard) são sérios candidatos a meter as garras nela.

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