Depois de mais uma eliminação nos playoffs às mãos dos Cleveland Cavaliers (a segunda em dois anos), e com dois dos seus principais jogadores — Kyle Lowry e Serge Ibaka — a terminar contrato, os Toronto Raptors tinham uma decisão a tomar este verão: continuar pelo mesmo caminho ou experimentar uma nova direção?

Não se pode dizer que o caminho que estavam a seguir fosse mau. Há quatro anos consecutivos que chegavam aos playoffs, nos dois últimos anos tinham terminado a temporada regular no top 3 da Conferência Este e a equipa tinha-se estabelecido como uma das melhores da conferência.

Mas também não se pode dizer que fosse um caminho especialmente bom. Ou com grande futuro. Época após época, o estilo de jogo da equipa falhava nos playoffs e as perspetivas de chegarem a umas Finais da NBA a jogar daquela forma pareciam escassas. 
Na era dourada do jogo rápido, do “pace and space” (ritmo e espaço) e dos triplos, os Raptors jogavam a um ritmo baixo, que privilegiava os ataques em meio-campo, as jogadas de isolamento e os lançamentos de meia-distância. Por isso, tinham que decidir: continuar ou mudar?

A primeira hipótese era insistir nessa direção. Afinal, era um caminho que rendeu os maiores sucessos da história da equipa e lhes valeu a única ida às finais de conferência da sua existência. Portanto, podiam renovar com Lowry e Ibaka, manter o plantel intacto e comprometerem-se com esta direção para o futuro próximo.

A segunda hipótese era fazer mudanças profundas no plantel. Deixar Lowry e Ibaka sair, aproveitar para reconstruir a equipa e tentar construir um grupo com um tecto mais alto.

A terceira era mudar o treinador. Dwayne Casey não era propriamente conhecido como um grande estratega ofensivo e o estilo de jogo da equipa parecia um anacronismo na NBA atual.

Mas a formação canadiana optou por uma quarta hipótese: mudar o estilo de jogo sem mudar nenhuma das coisas anteriores. O que é algo muito raro, se não inédito.

Normalmente, tentar meter jogadores com determinadas características a jogar num sistema que exige outras características é meio caminho andado para o desastre. Tentar meter quadrados a jogar como círculos não costuma dar bons resultados. Como também não costuma sair coisa boa quando se pede a um treinador que mude aquilo que fez durante toda a vida. Não faltam exemplos de experiências fracassadas dum e doutro tipo (a passagem de Mike D’Antoni pelos Los Angeles Lakers e a imposição de Phil Jackson do triângulo ofensivo a Jeff Hornacek e aos New York Knicks são duas das mais recentes e mais presentes na memória dos fãs).

Mas os Raptors estão a desafiar esta velha discussão do “adaptar o sistema ao pessoal existente” vs “recrutar o pessoal em função de um sistema”. E acrescentaram uma nova opção: “o sistema e o pessoal adaptarem-se às circunstâncias”. Os canadianos mantiveram o treinador, mantiveram os jogadores, mas decidiram jogar de forma distinta.

Estão a jogar mais rápido — 94 posses de bola por jogo em 2016-17 (24.ª equipa da liga); 98 esta época (11.ª equipa da liga) e de forma mais colectiva — 18 assistências por jogo em 2016-17 (últimos na liga); 23 esta época (ainda na metade inferior da liga, 18.o lugar neste capítulo, mas melhor). E estão a lançar mais triplos. Muito mais triplos (24 por jogo em 2016-17; 31 este ano).

Para já, os resultados são positivos. São a segunda equipa que mais pontos marca na conferência Este (110,7 por jogo) e são o quarto melhor ataque da liga (com 113 pontos marcados por cada 100 posses de bola). É claro que a prova de fogo virá nos playoffs e aí será outra experiência fascinante ver se se mantém fiéis a estes novos princípios ou se regridem para os velhos hábitos. Mas, entretanto, têm ainda mais 66 jogos para praticar e cimentar o seu novo estilo de jogo.

Os Toronto Raptors apostaram na capacidade de adaptação e re-aprendizagem do seu grupo, e no desenvolvimento do mesmo. Não mudaram. Reinventaram-se. Podem ir mais longe do que antes, ficar na mesma ou até ir fazer pior do que em anos anteriores. Mas, aconteça o que acontecer, são uma experiência fascinante que vale a pena seguir.

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