Este artigo é para o nosso amigo José. Esse não é o seu nome verdadeiro, mas vamos chamar-lhe José para proteger a sua identidade. Porque o José tem um segredo: não vê jogos durante a temporada regular da NBA. O José gosta de basquetebol e é fã da liga profissional norte-americana, mas, diz ele, os jogos dão muito tarde e não tem vida para isso.

E sabemos que o José não está sozinho. Porque, embora dormir seja uma coisa que não assiste à maioria dos seguidores da NBA, nem todos conseguem (ou querem) passar madrugadas a pé a ver jogos. Ou porque o trabalho não permite, ou porque a vida pessoal não deixa, ou porque, imaginem, ligam aos sinais que os seus corpos lhes enviam e cedem aos mesmos. Preferem dormir, portanto. Chocante, mas real.

Por isso, este artigo é também para quem, como o José, se guarda para a fase a eliminar da temporada. Para quem segue a temporada regular na diagonal, vai dando uma vista de olhos pelos resultados e pelas classificações, vai vendo uns vídeos das melhores jogadas e dos melhores momentos, espreitando um jogo aqui e ali e mantendo-se mais ou menos a par do que vai acontecendo. Mas só agora é que começa a prestar realmente atenção.

É normal que o José e outros como ele, para quem a temporada começa agora, tenham perguntas. Sobre o que aconteceu, sobre como chegámos aqui e sobre em que ponto estamos. Também é normal que tenham receio. Receio de parecerem perdidos, de ficarem à parte nas conversas e serem descriminados pelos fãs mais assíduos.

Mas não temam, porque nós vamos esclarecer todas as dúvidas que tenham e dizer-vos tudo o que precisam para se por a par. Depois deste artigo vão conseguir participar em qualquer conversa sobre os playoffs com o fã mais ferrenho. Eis o que precisam de saber para seguir os playoffs como se não tivessem perdido uma partida desde Outubro:


Os Golden State Warriors não ficaram em primeiro e não vão ter um passeio até às Finais

Esta temporada, os campeões pareceram mais humanos e vulneráveis que nunca. Tiveram problemas com lesões e ausências prolongadas das suas estrelas, e demonstraram uma instabilidade mental preocupante para quem é o atual campeão e a equipa favorita. Pode ser a pressão a fazer mossa, pode ser cansaço acumulado de longas campanhas nos playoffs ou ser apenas aborrecimento com a temporada regular, mas a verdade é que, ao contrário de anos anteriores, não fizeram uma temporada sem sobressaltos e não chegam aos playoffs embalados e imparáveis. Perderam 10 dos últimos 17 jogos e são outra equipa sem Stephen Curry.

Continuam a ter o melhor plantel da liga, mas este ano entram nos playoffs aos tropeções. E não têm Curry na primeira ronda. Portanto, passando (como contamos) os San Antonio Spurs, têm uma ronda para entrar nos eixos e ganhar embalo antes do previsível embate com os Houston Rockets. Pode não fazer diferença. Ou pode fazer.

Os Houston Rockets ficaram em primeiro e podem ganhar aos Warriors

Chris Paul e James Harden esclareceram todas as dúvidas que havia no início da temporada sobre a sua compatibilidade e mostraram que não funcionam bem em conjunto - funcionam muito bem. James Harden fez uma temporada extraordinária e deve ser o justo vencedor do prémio de MVP. O extremo-base liderou um dos ataques mais prolíficos de sempre e foi um dos obreiros da primeira equipa na história a tentar mais lançamentos de três pontos do que de dois. Uma equipa que tem duas estrelas sedentas de provar o seu valor e ir longe nos playoffs, e o melhor elenco secundário dos últimos anos a complementá-las.

Ao contrário do que todos previam, foram os Rockets que dominaram tranquilamente a temporada regular e terminaram com o melhor recorde da liga.

A máquina dos Rockets está mais profunda e mais oleada do que nunca e, sim, podem ganhar aos Warriors (não estamos a dizer que vão ganhar, mas podem dizer, à confiança e sem parecerem loucos, que os Rockets têm hipóteses de destronar os campeões).

Os Oklahoma City Thunder chegaram aqui. Mas não chegam muito mais longe.


Nem implodiram como muitos temiam, nem dominaram como outros previam. Não foi tão bom como uns esperavam, mas também não foi tão mau como outros esperavam. A temporada da formação de Oklahoma acabou por ser surpreendentemente normal e mediana. Demoraram a encaixar as peças, tiveram altos e baixos ao longo do ano e o entrosamento ainda é um work in progress. Como é normal e como acontece quando se juntam várias estrelas na mesma equipa.

Infelizmente para os seus fãs, normal e mediana deve também ser a sua participação nos playoffs. Teria sido melhor terminarem mais abaixo na classificação. Porque tinham mais hipóteses de fazer uma surpresa na metade inferior da grelha. Se tivessem ficado em 6.º, apanhavam os Portland Trail Blazers e depois, se passassem estes, uns Golden State Warriors ainda a entrar nos eixos (e com um Westbrook super-motivado para enfrentar Durant) e podiam fazer uma surpresa. Na metade de cima da grelha, não devem passar da segunda ronda. Se passarem da primeira.

Ah, e Russell Westbrook fez mais uma temporada com média de triplo-duplo. Isso é que é tudo menos normal. É um feito inacreditável e nunca antes conseguido. Sim, podem dizer que ele joga para os números e faz coisas para os inflacionar, mas é um feito incrível, seja como for. Já o dissemos antes e voltamos a dizer: mesmo que um jogador jogasse uma época com esse objetivo em mente e entrasse em campo com o objectivo de fazer média de triplo-duplo seria algo extraordinariamente difícil de conseguir. Westbrook fez em duas temporadas seguidas algo que só tinha acontecido uma vez na história da liga. É obra.

Os Portland Trail Blazers, os New Orleans Pelicans e os Utah Jazz fizeram épocas bem acima das expectativas, mas o seu trabalho está (quase) feito.


Quer dizer, pelo menos uma delas irá mais longe do que as outras. Os Blazers e os Pelicans enfrentam-se na primeira ronda, por isso pelo menos uma destas três equipas estará de certeza na segunda ronda. Mas nenhuma irá para além daí. 
Já escrevemos aqui sobre as duas primeiras e a temporada dos Jazz é tão ou mais surpreendente (depois de perder Gordon Hayward, ninguém esperava que fizessem uma temporada melhor), mas nenhuma delas irá derrotar os Rockets ou os Warriors. Chegar à segunda ronda e dar luta a uma dessas equipas será um sucesso para qualquer uma deste trio.

A ausência mais prolongada nos playoffs acabou.

Custou mais do que se previa e a vaga só foi assegurada mesmo no último jogo da temporada, mas a maior seca de playoffs da liga acabou. Há 14 anos que os Minnesota Timberwolves não iam à segunda fase. O prémio por quebrarem essa série negativa? Um embate com a equipa mais em forma e mais on fire da liga. 
Andaram na metade de cima da classificação durante grande parte da temporada, mas não se aguentaram por lá quando Jimmy Butler se lesionou. Karl-Anthony Towns e, principalmente, Andrew Wiggins, ainda não são tão regulares e fiáveis com os Wolves esperam (e precisam) que sejam. Tivessem terminado mais acima e apanhado uma equipa do meio do pelotão e podiam aspirar a passar uma ronda. Assim, para o ano há mais para Tom Thibodeau e os jovens Lobos.

Este não é o ano dos San Antonio Spurs

Esta foi uma época completamente atípica para a equipa texana. Polémicas com a sua maior estrela, uma saga em torno da sua lesão que só foi ultrapassada em bizarria pela história de Markelle Fultz, divisões no balneário como nunca vimos na era Popovich, jogadores a mandar recados pela comunicação social e um sétimo lugar no Oeste, que é a sua pior classificação das duas últimas décadas. Quase que não se apuravam para os playoffs e entram nestes numa condição que já não nos lembrávamos de os ver: sem serem candidatos. Foi um ano para esquecer e só resta esperar para ver se foi apenas uma fissura facilmente reparável ou uma brecha que ameace desmoronar o castelo.

Não é gralha, os Cleveland Cavaliers terminaram mesmo em 4º lugar no Este

E não, este ano não lhes basta ligar o motor nos playoffs para limpar a conferência. Este ano a equipa de LeBron James tem sérios problemas de constituição do plantel e corre sérios riscos de não conseguir o que consegue há três anos consecutivos: ir às Finais. 
Depois de uma primeira metade de temporada miserável, e da contratação de Isaiah Thomas ter-se revelado um monumental erro de casting, revolucionaram o plantel e melhoraram. Mas não tanto como prometiam. E terminaram num impensável-no-início-da-época quarto lugar. 
Como escrevemos quando fizeram a limpeza de balneário a meio da temporada, fazer alterações tão profundas a meio da época é sempre arriscado, mas mais arriscado seria não fazer nada. Em junho eram uma certeza nas Finais, em janeiro nem por sombras parecia que lá chegariam, e hoje são candidatos com reservas. Com uma defesa tão má, não podem ser outra coisa. Contem com eles, sim, mas este ano, vão ter concorrência no Este.

Mas essa concorrência não são os Boston Celtics

Os Celtics superaram a ausência de Gordon Hayward na temporada regular melhor do que se esperava, mas a ausência também de Kyrie Irving (e Marcus Smart) já é demais para serem uma ameaça séria na conferência. Brad Stevens vai tirar o máximo dos jogadores disponíveis e contem com eles para continuar a lutar e dar mais luta do que lhes dão crédito, mas não vai dar para lutar pelo título. Se forem fãs dos Celtics vejam pela positiva: este vai ser um ano para os jovens da equipa ganharem (mais) experiência nesta fase da temporada e para Jaylen Brown e Jayson Tatum continuarem a sua formação. Para o ano, se tudo correr bem, regressam ao plano original.

A maior concorrência aos Cavaliers são os Toronto Raptors

Se não viram nenhum jogo deles, podem não acreditar, mas os Raptors foram mesmo a melhor equipa do Este. DeMar DeRozan melhorou o seu lançamento e acrescentou os triplos ao seu arsenal. E não foi o único a reinventar-se. DeRozan é o símbolo duma equipa que evoluiu muito e que, sem fazer mudanças profundas no plantel, mudou profundamente a forma de jogar.

Deixaram de ser “DeRozan e Lowry a atacar à vez” e transformaram-se numa equipa que joga de forma criativa e coletiva, que movimenta muito e bem a bola e que recorre muito mais e de forma mais eficaz aos lançamentos exteriores. 
O banco é outro reflexo dessa evolução. Um grupo de jogadores por quem ninguém dava muito no início da temporada transformou-se na melhor segunda unidade da liga e num dos pontos mais fortes da equipa.

Este ano foram mais, muito mais, do que apenas as suas duas estrelas. E, a manter tudo isso nos playoffs (ainda há essa dúvida), são mais do que carne para canhão dos Cavs.



Os Philadelphia 76ers podem ir longe. E os Miami Heat. E os Milwaukee Bucks

Basicamente, qualquer uma destas equipas pode aproveitar o desfalque dos Celtics e acabar nas finais de conferência. Esta metade de baixo da grelha do Este é a que está mais em aberto e tudo pode acontecer.

A série no Oeste com mais probabilidade de surpresa é Thunder vs. Jazz

Na verdade não é grande surpresa, pois os lugares destas equipas podiam facilmente estar invertidos (e o 4.º contra o 5.º é, basicamente, uma eliminatória 50-50). Os Jazz foram muito melhores que os Thunder na segunda metade da temporada (desde 24 de janeiro, têm o melhor recorde da liga a seguir aos Rockets, 25-5, e a melhor diferença de pontos, +10.7). Portanto, os Jazz ganhar não seria assim tão surpreendente. 
Mas os Thunder têm Russell Westbrook, Paul George e Carmelo Anthony. E um dos melhores ataques. E venceram a série da temporada, 3-1. E estes Jazz são relativamente desconhecidos para a maioria. Por isso, uma vitória dos Jazz será surpreendente para muitos.

A série no Este com mais probabilidade de surpresa é Sixers vs. Heat

Os Heat ganharam os últimos dois encontros entre estas duas equipas. E têm no banco um dos melhores estrategas da liga. E são um grupo resiliente e lutador. E os playoffs são diferentes da temporada regular. Os Sixers têm veteranos no plantel, mas as suas estrelas são rookies nestas andanças (alguns são mesmo rookies, em todas as andanças) e nada substitui a experiência própria. E isso pode fazer diferença nesta fase. Ser eliminado por uma equipa com pior classificação pode ser uma dor de crescimento. Mais uma etapa no "Processo".

Para terminar, porque nada parece mais de fã informado e que não perde pitada do que uns fait-divers e umas private jokes, fiquem atentos às publicações de Joel Embiid (ainda não sabemos se o poste dos Sixers vai jogar na primeira ronda, mas ele e Hassan Whiteside têm historial de trocar cortesias nas redes sociais e o duelo entre eles promete ser épico, dentro e fora de campo) e não percam o reencontro de LeBron James com o seu velho amigo e soprador de ouvido Lance Stephenson.

Tudo a postos para os playoffs, José? Aqui vamos nós.

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