Todas as histórias têm sempre um princípio, um meio e um fim. Esta versa sobre como construir um campeão olímpico. Começando pelo fim, no sentido do objetivo: a luta pela conquista das medalhas “não depende só e apenas do atleta, depende também da família, da escola, do clube, da Federação e, acima de tudo, depende do governo”. Este é roteiro de Nuno Delgado, judoca, medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Sydney em 2000, chefe adjunto de Missão Olímpica de Londres 2012 e chefe de equipa técnica da Federação Portuguesa de Judo no Rio 2016.

Atleta e Estado, são assim, na sua opinião, “a cara e a coroa” da construção das medalhas olímpicas. Ambos têm que ter uma vontade para as conquistar e ambos devem desenhar um plano e fazer opções para lá chegar.

Do lado do atleta, uma medalha olímpica “em termos de esforço pessoal” tem o custo de uma “decisão de uma dedicação exclusiva, durante as 24 horas do dia, a um projeto de superação de alto nível de rendimento”, sublinha. “Temos de ter um plano bem definido e segui-lo estabelecendo metas e prioridades”.

Provavelmente temos infraestruturas a mais em determinados setores e a menos noutros

Mas as decisões devem estar também nas mãos de quem governa. Portugal tem várias infraestruturas desportivas vocacionadas para o Alto Rendimento. “Provavelmente temos infraestruturas a mais em determinados setores e a menos noutros”, alerta. Há que identificar prioridades. “Se o judo é hoje em dia uma modalidade de referência ao nível olímpico, provavelmente deveria ter mais recursos que outras que não atingiram ainda esse patamar. Essa deveria ser a orientação”, sustenta.

Para o medalhado olímpico, esta é a questão fulcral: “falta um planeamento à dimensão da tutela, do Estado, de quais os grandes objetivos que se pretende para o desporto nas suas várias dimensões e alocar os recursos onde eles são mais necessários”, resume. “Não deve haver apenas o projeto do ténis de mesa ou do judo ou de aqueles que individualmente se superam”. Deve existir “um projeto nacional em que cada um dos agentes, da formação ao praticante, se enquadram nessa lógica”, defende.

“Falta vontade politica”, diz de forma assertiva. “O grande paradigma é o lobby do desporto, as pessoas que vivem no terreno, conseguirem estimular o poder político para entender, solidarizar-se e envolver-se com esta nova dimensão que o desporto deve assumir. As palavras empolgam, mas o financiamento (risos) ...” Entra aqui a tal “questão de um milhão de dólares”. O financiamento aparece quase sempre “tardiamente”. Se acontecesse “mais cedo”, identificando “talentos desportivos”, para a escola “apoiar” e culminar com a “utilização aos centros de Alto Rendimento”, tudo seria diferente, refere.

Estado: Lei do Mecenato, a educação física, o turismo e o conhecimento

O antigo judoca aponta algumas formas em que o Estado pode ter uma ação decisiva. “Infraestruturas sim. Mas há mais. Melhorar a Lei do Mecenato, torná-la mais atrativa, envolver mais a sociedade civil e o setor privado, trazer a educação física para o lugar mais nobre da Educação, apostar no pós-carreira...”, enumera.

Tudo começa de novo e não damos continuidade ao que se faz

Muitos foram os atletas que foram “lá para fora” treinar. O próprio Nuno Delgado treinou e competiu na Alemanha, no TSV Abensberg, onde se sagrou campeão europeu. Atualmente, “é possível reverter esse ciclo e trazer atletas e conhecimento estrangeiro para vir para Portugal”, acredita, até porque “somos um país de acolhimento com lugar estratégico da Europa e ligando África e Estados Unidos da América”. Com a maioria dos quadros competitivos à volta da Europa, juntando “algumas opções estratégicas de Centros de Rendimento e o Turismo, podia ser aí um caminho”, sugere.

O próprio Chefe de Missão Olímpica, um cargo profissional, que “tem uma envolvência” com os atletas olímpicos é um cargo que “não se mantém constante” e esperava-se que existisse “essa continuidade”. São exemplos do “paradigma” do desporto português. “Tudo começa de novo e não damos continuidade ao que se faz”, critica Delgado, ele que foi adjunto de Chefe de Missão em Londres 2012.

Medalhado em Sydney, Delgado serviu-se da memória para dizer que há obstáculos que não deveriam surgir no caminho de um atleta olímpico: “No meu tempo, resolver os problemas burocráticos era mais difícil do que treinar. E isso ainda hoje acontece...»

Construir campeões olímpicos para 8 anos

A cada ciclo olímpico, a história repete-se. Portugal vai regressar com medalhas na modalidade A, B e C. Antes dos Jogos Olímpicos Rio 2016 não foi diferente. “Tínhamos previsões mais fortes, feitas por americanos, de 4 medalhas”, atira. “Temos esse potencial... os resultados mostram que estivemos próximos dessas medalhas".

Agora, na alta competição, os pormenores fazem toda a diferença”, nota. O que tem faltado? “Não conseguimos ainda encontrar uma fórmula para afinar esses pormenores. No caso do judo houve uma evolução e estivemos próximos dessa fórmula. Provavelmente daqui a 4 anos não sabemos se essa dinâmica se mantém. Então tem de haver um pouco mais de consistência de processos”, alerta.

Construir um campeão olímpico está “mais difícil”, frisa. Portugal tem evoluído, mas o mesmo se passa noutros países.

Temos que ter a consciência que não podemos ganhar as medalhas todas

Tendo vivido dois ciclos olímpicos como atleta e outros tantos na pele dirigente do Comité Olímpico Português e técnico da Federação Portuguesa de Judo, Nuno Delgado aponta metas para o médio e longo prazo. “Um plano bem estruturado a 10 anos”. E tal passa por “uma organização que envolva todos os agentes, família, escola, poder local, politico, clubes ... todos têm que se orientar para um objetivo. É assim que funciona uma empresa. Toda a organização ajuda”.

Deixa um recado. Em primeiro lugar, “temos que ter a consciência que não podemos ganhar as medalhas todas”, e, acima de tudo, “temos que estrategicamente pensar quais vamos ganhar daqui a 8 anos”, sublinha. O antigo medalha de bronze aponta que “os técnicos e as pessoas envolvidas podem estimar com segurança quais as hipóteses e fazer esse trabalho. Não é dois anos antes (dos JO) que se começa a apoiar atletas na expetativa que consigam esses resultados”.

Nuno Delgado dá um exemplo de planeamento, no caso concreto, no setor da Educação. “Na Universidade Europeia fizemos um plano estudos com uma aluna para os próximos 4 anos. Está calendarizado para terminar a licenciatura, treinar, competir e estar em condições para lutar por uma medalha nos próximos Jogos”. 

A preparação na primeira pessoa: abdicar de tudo em prol de um sonho

Voltemos ao principio. Ou antes ao fim de um princípio. Nuno Delgado começou a preparar-se para o JO “toda a vida” porque “o sonho” foi aparecendo na sua consciência ao longo das etapas, primeiro como “campeão nacional, depois nas provas internacionais e em 1999 quando fui campeão da Europa, o momento-chave. Disse então para mim: estão criadas as condições para sonhar com uma medalha”, recorda.

Abdiquei de tudo, literalmente de tudo

As opções foram feitas. “Abdiquei de tudo, literalmente de tudo”. O que é tudo? “Disse na Faculdade que não iria dar aulas” depois de terminar o curso, informou a família que “ia ali aos Jogos Olímpicos” e aos amigos “que a disponibilidade seria diferente”. O judo seria, a partir de então, “a sua dedicação exclusiva”, resume.

O dia-a-dia passou a estar orientado só para o objetivo com sangue, suor e lágrimas. “Está nas nossas mãos o futuro que escolhemos com os nossos atos diários. As nossas vitórias e derrotas são fruto das nossas opções”, justifica.

Quem seria Nuno Delgado se não tivesse sido atleta de alta competição. “É difícil prever um futuro que não se concretizou. Se não tivesse acreditado nos meus sonhos e se não tivesse prosseguido os meus ideais não estaria aqui, com a carreira que tive no judo e não estaria ligado a apoiar para que outros possam cumprir os seus planos”.

Os atletas e o limite. Ao ultrapassá-lo estamos a chamar o doping para a competição

As últimas palavras de Nuno Delgado vão para a palavra proibida: doping. “É um sinal da sociedade que é muito competitiva, com apetência para adulterar e de encontrar formas de ganhar a qualquer custo. É um paradigma perigoso”, frisa. A dimensão que tem ganho “descredibiliza a competição e as referências (atletas) do desporto” pelo que é “uma luta que devemos ter” e, eventualmente, “rever a evolução da competitividade que está a existir”, avisa.

Para exemplificar, chama para o terreno a modalidade que tão bem conhece. “Se me disser que a prova do judo (nos Jogos Olímpicos) será feita em 5 dias e os atletas vão ter de lutar nesses 5 dias, não vai existir nenhum atleta que não se dope”, declara. “O risco está também do lado de quem organiza a competição. É obvio que o espetador gosta de ver o atleta no limite e todos os atletas têm um limite. Se o ultrapassarmos estamos a chamar o doping para a competição”, finaliza Nuno Delgado.

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