“Não sou uma pessoa muito emotiva. Sou campeão olímpico, mas amanhã acordo e é um dia normal. Já estou a pensar em setembro ganhar a Liga Diamante. Não paro aqui, estou sempre a pensar em competir”, explicou.

Pichardo venceu o concurso com um salto de 17,98 metros, novo recorde nacional, conquistando a primeira medalha de ouro para Portugal em Tóquio2020, depois da de prata de Patrícia Mamona na prova feminina do triplo salto e das de bronze do judoca Jorge Fonseca (-100 kg) e do canoísta Fernando Pimenta (K1 1.000).

O facto de o estádio não poder ter adeptos “até foi bom”. “Vou para o quarto e festejo sozinho lá. Tenho muita vergonha, sou mais reservado”, declarou, quando questionado na zona mista sobre a razão de não ter dado a típica volta olímpica.

Pichardo lembrou a avó, que já morreu, em quem pensa sempre que salta, e explicou que os momentos de prece que foi tendo entre saltos, da sua religião ioruba, são “rituais” antes e durante da competição, para pedir “força e que saia saudável”.

Em Cuba, em que há quem o veja e ao pai como ‘traidores’, deixou “a família e a língua”, porque agora faz “parte dos cinco portugueses campeões olímpicos”, ao lado de Carlos Lopes (1984), Rosa Mota (1988), Fernanda Ribeiro (1996) e Nelson Évora (2008).

“Estou há quatro anos a trabalhar para dar medalhas a Portugal. Ouvir que um português não é feliz porque um estrangeiro chega ao país e se sente feliz por representá-lo... é complicado. Moro em Portugal, a minha filha nasceu lá, vou continuar e não vou voltar. Mesmo assim, há portugueses que não se sentem felizes que um atleta como eu more lá. É um bocado ingrato”, admitiu.

De resto, está pronto para “cantar o hino hoje”, na cerimónia de pódio, algo que sabe fazer já “há algum tempo”. “O único problema é o sotaque”, brincou.

Festejou, no estádio, com “todos os portugueses que lá estavam, eram fáceis de identificar pelo polo vermelho”, e tem “sentido o calor, na Aldeia [Olímpica] e por mensagens”, mesmo que alguns “continuem a falar por ser luso-cubano, daquelas confusões”.

“Ainda hoje não posso voltar a Cuba. Há pessoas que não entendem isso”, desabafou.

Escolheu Portugal, disse, até quando tinha outras propostas, e lembrou o pai, colocado à parte em Cuba, razão pela qual saíram do país e não podem voltar, que deve estar feliz, mas também ele “para dentro”.

Sobre as medalhas colocadas na sede do Comité Olímpico de Portugal (COP), o facto de o seu ouro ser também lá colocado “será um privilégio”. “Entrar no centro de alto rendimento e ver a minha foto... será um privilégio”, reforçou o atleta, que regressa já sexta-feira a Portugal.

"Há anos que fala de mim e não respondo"

Sobre a ‘eterna’ polémica com Nelson Évora, campeão olímpico na disciplina em Pequim2008 e que se despediu em Tóquio2020 na qualificação, declarou que a confusão lhe trouxe ofensas e “faltas de respeito”, além de insultos e mentiras, também pela “confusão do Sporting e do Benfica” que vem da altura em que chegou a Portugal.

“Não tenho falado mal do Nelson. Há pouco enviaram-me o ‘link’ sobre o Nelson falar do abraço. (...) Não falo mal do Nelson, não quero levar o assunto para problemas pessoais. Há anos que fala de mim e não respondo. Já ganhou tudo, porque não me deixa a mim fazer a minha carreira?”, disparou.

Quase à mesma hora, Nelson Évora reagia à vitória de Pichardo nas redes sociais. “Muitos parabéns, Pedro”, lê-se na publicação temporária na sua página oficial na rede social Instagram, acrescentando “bingo para Portugal”, aludindo à conquista da quarta medalha lusa, uma de ouro, uma de prata e duas de bronze.

créditos: O português Nelson Évora observa a final de triplo salto dos Jogos Olímpicos Tóquio2020 / JOSÉ COELHO/LUSA

Durante a final do triplo salto, Nelson Évora esteve na bancada junto à caixa de areia onde decorria a prova. De acordo com a Tribuna/Expresso, aí deu algumas indicações a Hugues Fabrice Zango, o atleta do Burkina Faso que era outro dos favoritos e terminou em terceiro.

Sobre isso a publicação diz que Pichardo não se alongou muito, dizendo apenas: “Apoio ao Zango? Toda a gente viu, não fui eu. Para mim tanto faz, não faz diferença. Quer continuar com a polémica mas eu não digo nada”.

Esta segunda-feira, depois de se despedir dos palcos olímpicos, Nelson Évora foi questionado sobre se Pedro Pichardo o cumprimentaria se estivesse na pista na altura, à semelhança do que fizeram outros triplistas. Évora garantiu que não.

“Não sei porquê, não por mim, mas não teria de ser eu a abraçá-lo. O Pichardo há-de aprender com a vida. Espero que tudo lhe corra muito bem”, respondeu.

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