Dizem dela que é a melhor liga do mundo — e só o primeiro escalão de Espanha lhe consegue fazer frente em termos de mediatismo ou de futebol jogado. Mas o país vizinho só desperta verdadeiramente as atenções quando o que está em causa é o clássico dos clássicos, o que opõe o Real Madrid ao Barcelona, com toda a carga política e sociológica que ele acarreta. Em Inglaterra, berço do futebol, há uma diferença: praticamente todas as semanas somos brindados com "jogos grandes", envolvendo históricos como o Liverpool, Manchester United, Manchester City, Chelsea, Tottenham ou Arsenal, e equipas que já entraram para o dicionário do adepto comum, como o Leicester ou o Wolverhampton.

Os números não mentem. Em 2015, o British Council colocou a Premier League no topo das provas desportivas mais vistas em todo o mundo, com 4,7 mil milhões de pessoas sintonizadas no que o primeiro escalão do futebol inglês tem para oferecer. E, de entre as vinte equipas que todos os anos disputam o título, há uma que se destaca: o Manchester United, que em 2013 era a equipa com mais adeptos por todo o mundo. 659 milhões, escreveu-se, mesmo que muitos desses constituam o tipo de adeptos que segue mais do que uma equipa, particularmente se estas estiverem a ganhar.

Descontando essa atitude dos chamados fair weather fans, a verdade é que a Premier League reúne, todas as épocas, um enorme e fiel conjunto de seguidores, mais ou menos casuais. Pela competitividade, pela qualidade das equipas, pela cultura futebolística própria existente em Inglaterra e que só encontra rival na dos ultras italianos ou na dos barras bravas da América do Sul. E por motivos históricos, claro — não nos esqueçamos de que a Inglaterra colonizou meio mundo, e que por toda a Commonwealth ainda há quem nutra uma forte simpatia pelas terras de Sua Majestade. Não é assim tão estranho que haja fanáticos do Arsenal em África, tal como não é estranho que na Índia, durante largos anos protetorado inglês, o desporto nacional seja o críquete.

Que futuro, Premier?

Mas estávamos a falar de futebol, e da Premier League. Falemos de tudo isso enquanto pudermos. É que, nos últimos dias, a “melhor liga do mundo” esteve em risco de se extinguir, e a culpa é da pandemia da Covid-19, que em 2020 tem as costas mais largas do universo. Mas talvez seja do capitalismo, e da ganância dos grandes clubes. No futebol inglês, o assunto do dia deixou de ser o regresso do público aos estádios para passar a ser o Projeto Big Picture, iniciativa criada pelos maiores clubes do país (Liverpool e Manchester United), e que tinha como objetivo revolucionar por completo o quadro competitivo inglês.

Entre as propostas que foram apresentadas por este projeto estavam algumas mais ou menos aceitáveis, como a redução do número de equipas na Premier League de 20 para 18, um limite máximo de 23 euros no preço dos bilhetes para adeptos visitantes e a criação de uma Premier League feminina. Mas também se discutiu a possibilidade de a liga passar a ficar, grosso modo, nas mãos de nove equipas (os big six: Manchester United, Manchester City, Liverpool, Arsenal, Chelsea, Tottenham, mais o Everton, West Ham e Southampton), que beneficiariam doravante de um estatuto especial, podendo aprovar ou vetar qualquer alteração aos regulamentos ou à liga sem o aval dos demais participantes. Que é como quem diz, o fim de um processo democrático que atribui a cada equipa, independentemente do seu estatuto ou conta bancária, um voto apenas.

Para o efeito, iriam ser pagos 260 milhões de euros a todos os clubes que militam na English Football League Championship (EFL), o escalão imediatamente inferior à Premier, numa espécie de “almofada” que ajudaria os que mais perderam com a pandemia – trickle-down economics aplicado ao desporto-rei. O presidente da EFL, Rick Parry, ficou imediatamente convencido com esta proposta. A própria Premier League considerou-a um absurdo, tal como o Secretário da Cultura, Oliver Dowden, e o primeiro-ministro, Boris Johnson, que admitiram a hipótese de uma intervenção governamental caso estas novas diretivas fossem aprovadas.

A tensão prometeu fazer quebrar a corda. Os big six ameaçaram deixar a Premier League caso não levassem a sua avante, o que significaria uma quebra nas receitas de muitos milhões de euros para a liga. Desconhece-se se irão cumprir a ameaça, até porque a UEFA, que se opôs e opõe a um projeto semelhante (a criação de uma “Superliga” europeia) estará de olho; a saída de clubes como o Manchester United da Premier League significaria, muito possivelmente, a sua saída também de competições como a Liga dos Campeões. A bola esteve, por isso, do lado dos clubes mais pequenos, que disseram “não” à operação de charme levada a cabo pelos grandes: a proposta foi discutida esta quarta-feira, e acabou sendo rejeitada por unanimidade. Só não esteve, e parece que nunca mais irá estar, do lado dos adeptos.

Vai tudo azul no Chelsea

Apesar de tudo isto, enquanto as bancadas (ou, considerando a situação atual, os sofás lá de casa) se encherem de gente que enrola cachecóis à volta do pescoço e arranha a garganta com todo o tipo de cânticos, o futebol respirará. O mesmo é válido para os jornais desportivos e para as manchetes que anunciam esta ou aquela contratação, por valores mais ou menos assombrosos. Enquanto uma entrada sonante ou uma saída precoce alimentarem as emoções dos adeptos — alegria confiante ou tristeza odiosa —, o futebol respirará. E, tal como aconteceu nos principais campeonatos do velho continente, nem o vírus colocou um ponto final nas despesas, ainda que as tenha travado um bocado.

Nesta janela de transferências, os clubes da Premier League gastaram em conjunto 830 milhões de libras — algo como 917 milhões de euros —, um número que, embora assustador, representa na verdade cerca de um quinto das potenciais receitas que os clubes obterão ao longo da época corrente. Isso mesmo o explicou Chris Winn, do Global Institute of Sport. Os gastos foram, disse, “relativamente sustentáveis”. E, logicamente, menos do que no ano passado, onde foram gastos mais 200 milhões de libras (220 milhões de euros).

O “campeão” do mercado de transferências voltou a ser, uma vez mais, o Chelsea, sustentado pelo magnata russo Roman Abramovich. Os “azuis” de Londres, que se redescobriram neste século com a ajuda do dinheiro de Abramovich e do génio de Mourinho, não conquistam o campeonato desde 2017, ainda que depois disso tenham acrescentado uma Taça de Inglaterra e uma Liga Europa à sua vitrine de troféus. Ao leme, o Chelsea tem agora um dos homens que ajudaram o clube a alcançar um estatuto global, Frank Lampard, e o objetivo passará por melhorar o 4º lugar conquistado em 2019/20.

Para o efeito, o Chelsea gastou mais de 240 milhões de euros em transferências, e foram os londrinos a efetuar a contratação mais cara do mercado, indo buscar o jovem médio ofensivo Kai Havertz ao Bayer Leverkusen, por 80 milhões de euros. Havertz (que já marcou um hat-trick pelo Chelsea, em jogo a contar para a Taça da Liga) tornou-se desta forma o segundo jogador mais caro de sempre dos londrinos, mas não foi a única contratação sonante por estes realizada este ano: também entraram Timo Werner, vindo do RB Leipzig (53 milhões de euros), Ben Chilwell, do Leicester (50 milhões), Hakim Ziyech, do Ajax (40 milhões) e Edouard Mendy, do Rennes (24 milhões). 

Quem tem dinheiro, pode, e o Chelsea uma vez mais demonstrou que, no que toca a gastar, nem uma pandemia afeta os seus “vícios” sui generis. O que não significa que seja o único a fazê-lo, ou que não tenha concorrência direta. O City, também ele azul mas da nortenha Manchester, tem vindo a contar nos últimos anos com a ajuda das “verdinhas” — não as russas, mas as árabes. Após ter estado sobre a alçada da UEFA por incumprimento do fair-play financeiro, chegando a ser proibido de participar nas competições europeias de clubes (decisão que foi depois anulada, surpreendendo ninguém), o City entrou em força no mercado com vista à conquista não da Premier League, mas da Liga dos Campeões — o troféu mais cobiçado pelo clube e pelo seu treinador, Guardiola, que não voltou a vencê-lo desde que saiu do Barcelona.

Uma das contratações mais marcantes deste defeso, a ida de Rúben Dias do Benfica para o City, considerando os valores e moldes em que se realizou, está no topo da lista dos citizens. Mas não poderemos descurar também a de Nathan Aké, outro defesa, que deu a ganhar pouco mais de 45 milhões de euros ao Bournemouth e que já se estreou a marcar. A defesa é, aliás, o maior problema deste Manchester City. Em apenas três jogos realizados no campeonato, até agora, a equipa de Guardiola já sofreu sete golos, conquistando apenas quatro pontos. Um início péssimo, para uma equipa que quer ser a maior do mundo...

A novela e o blockbuster

A novela Cavani, que em Portugal foi líder de audiências e merecedora de um Globo de Ouro, em Inglaterra não foi mais que uma nota de rodapé. Após muito se ter especulado acerca do seu futuro, o uruguaio acabou por assinar pelo maior rival do City, o Manchester United, também à procura de melhores dias. 

O anúncio da sua chegada coincidiu com o fim de uma outra minissérie, que agitou os adeptos portistas durante as últimas semanas do defeso: a de Alex Telles, que acabou mesmo por sair do FC Porto para rumar à terra dos Joy Division e dos Smiths. Os patrões norte-americanos do United têm sido mais comedidos ao longo dos anos no que toca a gastar (o que lhes tem valido várias críticas por parte dos adeptos), e esta época “ficaram-se” pelos 83,5 milhões de euros, praticamente metade dos quais gastos em Van de Beek, contratado ao Ajax.

Surpreendente é a forma como o Leeds, após anos e anos de penúria nas divisões inferiores, gastou mais do que supostamente deveria. Com Marcelo Bielsa no comando, que está para o futebol moderno como Hegel para a filosofia, o Leeds procura recuperar os tempos áureos em que disputava meias-finais da Champions. Claro que, primeiro, terá de pensar em manter-se na Premier League, após ter garantido a subida na época transacta. Mesmo que tenha gastado como clube grande, ou como filme Hollywoodesco.

Os nortenhos gastaram mais de 100 milhões de euros em transferências, com a mais cara a ser a do ponta de lança Rodrigo, que se mudou de Valência para Leeds. Destaque, também, para as contratações de Llorente, que abandonou a Real Sociedad, de Raphinha, que saiu do Rennes e do português Hélder Costa, vindo do Wolverhampton. Se tal servirá para que o Leeds faça mais que a sua obrigação, ainda é cedo para o dizer. O que é certo é que, com Bielsa, os adeptos têm vivido um verdadeiro sonho — com os Óscares, que é como quem diz voos mais altos, à espreita.

Contra os bretões, marchar

Hélder Costa é “apenas” mais um português a jogar na Premier League, competição que, por norma, atrai jogadores dos quatro cantos do mundo, num melting pot de culturas e estilos de jogo que é também um dos factores pelos quais a liga é tão seguida por todo o planeta. Claro que não é possível falar de Portugal na Premier League sem falar do Wolverhampton, que é a vingança lusa pelo que “eles” nos fizeram ao Algarve.

A equipa de Nuno Espírito Santo voltou a encontrar no produto nacional o seu sustento. Para além de Fábio Silva, que esta semana recebeu a notícia de que se encontra na lista final de candidatos ao prémio Golden Boy, o Wolverhampton foi ainda buscar Vitinha, por empréstimo com opção de compra obrigatória, e o lateral direito Nélson Semedo, que custou 30 milhões de euros e chegou do Barcelona. Outro lateral, mas esquerdo, chegou igualmente ao clube inglês e também fala a língua lusa: o brasileiro Marçal, que estava no Olympique de Lyon. Depois de uma época bem conseguida por parte do Wolverhampton (7º lugar e quartos-de-final da Liga Europa), a fasquia estará naturalmente mais elevada para este ano.

Entre as saídas do clube estão também portugueses: o já mencionado Hélder Costa, mas também Rúben Vinagre, emprestado ao Olympiacos, Bruno Jordão, emprestado ao Famalicão e Diogo Jota, que em poucas semanas se tornou na nova coqueluche do futebol português, ao ser transferido para o campeão em título, o Liverpool, por uma soma considerável — 44,7 milhões de euros — e após ter apontado dois golos à Suécia, em jogo a contar para a Liga das Nações.

No que à equipa de Jürgen Klopp diz respeito essa foi, aliás, a transferência mais sonante a nível de dinheiro envolvido, mas não de mediatismo. Essa pertence a Thiago Alcântara, que se mudou do campeão europeu, o Bayern de Munique, para a equipa que antecedeu os bávaros na conquista desse mesmo troféu por valores a rondar os 22 milhões de euros. Os Reds, quiçá o mais histórico dos clubes ingleses, nunca haviam conquistado a Premier League, no seu formato atual. Os adeptos, fervorosos e exigentes, não se contentarão com menos do que a revalidação do troféu.

Os campeões e os outros

Esta época, o Liverpool poderá ter no seu grande rival, o Everton, um desafio muito maior do que aquele com que se tem deparado nestes últimos anos. A equipa de Carlo Ancelotti ocupa o primeiro lugar do campeonato, com quatro vitórias em quatro jogos, e este fim de semana defronta precisamente o Liverpool, em casa, num dos derbys mais quentes do jogo britânico. O Everton gastou pouco mais de 70 milhões de euros em contratações, mas fê-lo de forma cirúrgica, com Ben Godfrey, Allan e Doucouré a serem as mais caras. Mas a mais importante — por sabermos bem que se trata de um jogador de enormíssima qualidade — até foi a custo zero: James Rodríguez, que abandonou o Real Madrid, seis anos depois da sua chegada à capital espanhola.

A apadrinhar este “novo” Everton esteve o Tottenham, de José Mourinho, que anda há largos anos no topo do futebol inglês — sem no entanto conseguir conquistar troféus. Procurará fazê-lo não só com o português no banco mas também através do regresso do seu filho pródigo, Gareth Bale, emprestado pelo Real Madrid, onde nunca foi feliz. Na frente, o talento de Son poderá vir a ser ajudado pelo de Carlos Vinicius, que saiu de um Benfica onde (alegadamente) não tinha espaço; Lo Celso (comprado ao Bétis por 32 milhões de euros) e Reguillón (vindo do Real Madrid por 30 milhões) foram os dois grandes investimentos dos londrinos neste mercado, que também repescaram o veterano Joe Hart ao Burnley. No último suspiro do mercado, foram também buscar Joe Rodon, defesa, ao Swansea.

Numa janela de transferências que só conheceu o seu fecho esta sexta-feira, data em que o mercado interno deixou de estar à mão dos clube ingleses, aquela que seria a maior transferência de última hora esteve por um fio: a ida do argelino Saïd Benrahma, do Brentford para o West Ham. Seguido por vários clubes, incluindo dois que disputarão a Liga dos Campeões (segundo relatos), Benrahma acabou mesmo por assinar com os Hammers após uma sexta-feira complicada para os corações dos seus adeptos. Um pouco como o enigma da esfinge, o extremo começou por ser certo de manhã, descartado à tarde (teria, alegadamente, chumbado nos exames médicos) e confirmado à noite. O empréstimo, com opção de compra, é válido por um ano. Resta saber se o hypealimentado por vídeos como este – se justifica.

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