Estreou recentemente na Amazon Prime a série “All Or Nothing: Tottenham Hotspur”, que acompanha o percurso do clube inglês treinado por José Mourinho na última temporada. Pouco tempo depois de chegar ao clube, o treinador português tem uma conversa com o seu adjunto onde discutem a equipa dos Spurs e os jogadores, dizendo que é “uma equipa boa demais”, de “nice boys”, de bons meninos, no fundo. E até refere que o ex-sportinguista Eric Dier parece ser o único de sangue quente (a infância em Portugal pode ter ajudado, quem sabe?) e com gosto por “viver no conflito durante o jogo”.

O que é que isto interessa num artigo que tem no título o nome de Ricardo Quaresma?

Pois bem, quando ouvi as palavras de Mourinho lembrei-me que Quaresma também é um pouco assim – ainda que quando foi treinado pelo técnico português, no Inter de Milão, as coisas não lhe tenham corrido particularmente bem (como o próprio, de resto, já admitiu).

Lembro-me bem da estreia de Quaresma a marcar pelo Sporting, há quase 20 anos. Na altura, um miúdo de 18 anos praticamente acabados de fazer recebe a bola no centro do campo do já extinto Estádio Engenheiro Vidal Pinheiro e vai por ali fora, passando pelo meio de dois defesas até rematar cruzado, praticamente na quina da área, para o fundo das redes de um dos mais experientes guarda-redes portugueses de sempre.

O miúdo era Ricardo Quaresma, o guarda-redes era Rui Correia e o campo, para os mais distraídos, era o do Salgueiros, onde ano e meio antes o Sporting tinha quebrado o jejum de 18 anos sem ganhar o campeonato português.

Daí Quaresma saiu para Barcelona, regressou a Portugal para jogar no FC Porto que se tornou dono do seu coração, depois Inter de Milão, Chelsea, regresso a Milão, Besiktas, Al-Ahli, regresso ao Porto, novamente Besiktas, Kasimpasa e, agora, Vitória de Guimarães.

Ao longo da sua carreira, senti sempre que Quaresma gostava mais dos ambientes escaldantes do que dos jogos mornos. Que gostava mais dos loucos adeptos turcos do que dos menos “quentes” (pelo menos em comparação) jogos da Serie A. E foi por isso que foi amado na Turquia e no Dragão, onde esse “calor no pescoço” vindo das bancadas – e não só – que faz tremer muitas pernas, a ele parece que o embala ainda mais.

E é por isso que chegar a Guimarães, talvez o clube português com os adeptos mais fanáticos – num país dominado pelos três grandes no que a preferências clubísticas diz respeito, é difícil não lembrar os milhares de fiéis vimaranenses que continuaram a assistir aos jogos do clube mesmo quando desceu ao segundo escalão do futebol português, há pouco mais de 10 anos –, parece ser o corolário perfeito para a carreira daquele que, um dia, Quinito apelidou de “supermercado de fintas”.

Quaresma vai ser amado em Guimarães e, por consequência, odiado em Braga. Vai ser assobiado, como sempre, no Estádio da Luz. Já em Alvalade e no Dragão, será provavelmente aclamado. Aliás, não será arriscado dizer que vão existir poucos jogos no campeonato português desta época em que Quaresma não seja aquele para quem todos vão querer olhar, inclusivamente aqueles que oponham o Vitória de Guimarães aos chamados três grandes.

Provavelmente, grande parte da carreira de Quaresma foi assim. Ou, pelo menos, pareceu sempre brilhar mais quando todos os olhares estavam em si. Como se gostasse e se alimentasse disso, ele, o jogador de futebol que nunca se achou menos que ninguém – nem mesmo quando foi enviado para o Porto, onde foi feliz, como parte da transferência de Deco para a Catalunha.

Numa entrevista há cerca de um ano, Quaresma assumiu isso, de resto, dizendo que lhe feriu o ego e o orgulho. E foi de ego ferido que arrancou depois para uma carreira que, para muitos pode parecer abaixo daquilo que lhe auguravam, mas que lhe permitiu conquistar títulos nacionais e internacionais em quase todos os clubes por onde passou.

As duas últimas décadas, em que o futebol se “matematizou”, tiraram algum espaço à irreverência de jogadores como Quaresma. Em clubes de topo, há poucos exemplos daqueles jogadores a quem se perdoa tudo porque, de um momento para o outro, podem virar uma partida.

Quaresma é um desses casos, sendo que a reputação de “bad boy” que sempre colaram – mesmo que, segundo o próprio, nunca tivesse bebido, fumado ou criado mau ambiente em balneários – também não terá ajudado a que tivesse o respeito e admiração de grande parte dos adeptos de futebol em Portugal.

Se Quaresma é ou não um “bad boy”? A verdade é que a irracionalidade do futebol continua a precisar de “Quaresmas” que nos mexam com as emoções, que não sejam “bons meninos”.

Tínhamos saudades de o ver por cá. Cuidado com as trivelas, ele está de volta.

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