Se na temporada 2021/22, Cristiano Ronaldo mostrou que o futebol não tem idade, ao marcar 24 golos e somar três assistências na Premier League, considerada por muitos como a liga mais competitiva do mundo, estatística a que poderíamos acrescentar mais cinco golos e uma assistência com a camisola de Portugal, em encontros a contar para a qualificação para o Mundial de 2022, este início de época está longe de ser um sonho.

Depois de ter perdido um dos filhos gémeos durante o último parto da parceira Georgina Rodriguez, seguiu-se um verão tenebroso em que o nome do capitão da seleção nacional foi tema quase diariamente devido ao desejo deste de sair de Inglaterra, com uns jornais a apontarem motivos pessoais, relacionados com a morte do filho, outros para a vontade de disputar a Liga dos Campeões, competição que já conquistou em cinco ocasiões, uma com o United e quatro com o Real Madrid, e de que é o melhor marcador da história. Muitos foram os destinos apontados a CR7, muitos foram os dias que Ten Haag, treinador do Red Devils, foi questionado sobre a ausência do português da pré-época.

Quando o futuro de CR7 parecia sanado, eis que Cristiano Ronaldo surge de forma atípica na equipa do Manchester United: suplente e sem golos. O único que apontou foi de grande penalidade, frente ao Sheriff, da Moldávia, em jogo da faze de grupos da Liga Europa, única competição onde, até agora, foi sempre titular.

Os números contrastam contra toda a carreira do vencedor de cinco Bolas de Ouro que, ainda na época passada, nos mesmos oito primeiros jogos da temporada marcou seis golos. Se recuarmos mais, até 2020/21, quando atuava na Juventus, o registo, no mesmo número de jogos, foi de 10 golos. Em 2019/20, quatro. Em 2018/19, três golos e quatro assistências. Em 2017/18, na última época do Real Madrid, seis golos. Em 2016/17, quatro golos e quatro assistências. Em 2015/16, 10 golos. Em 2014/15, 12 golos. Em 2013/14, nove golos. Em 2012/13, seis golos. Em 2011/12, oito golos. Em 2010/11, três golos e três assistências. Em 2009/10, na primeira época como merengue, nove golos. Em 2008/o9, na última temporada da primeira passagem pelo Manchester United, três golos e três assistências. Em 2007/08, dois golos. Em 2006/07, dois golos. Em 2005/06, um golo e uma assistência. Em 2004/05, zero golos e duas assistências. Foi preciso recuar 16 anos para encontrar um registo de início de época tão pobre como o atual e 17 anos para encontrar um pior, período em que CR7 ainda era uma jovem promessa do futebol mundial.

Diga-se que o atual panorama não favorece o avançado. Sem sabermos o que realmente aconteceu no verão, não houve nada dito de forma oficial por parte do atleta, do seu agente ou clube, apenas palavras do novo treinador a dizer que contava com ele, e à falta da prometida entrevista que Cristiano Ronaldo anunciou no Instagram, prometendo revelar tudo o que aconteceu, a integração no plantel ter-se-á dado com algum atrito. A ida do 11 inicial para o banco está longe de beneficiar o craque português que, contabilizando a sua primeira época em Inglaterra (2003/04) até ao seu regresso ao mesmo país (2021/22), soma apenas 15 golos em 71 jogos como suplente utilizado.

Cristiano não tem os melhores números para um jogador que salta do banco e isso verifica-se esta temporada onde, em cinco jogos como suplente utilizado, não apontou qualquer golo. É importante também dizer que Ronaldo não está propriamente habituado a ser suplente, já não o era tantas vezes desde 2008/09, a última época da primeira passagem no United em que fez um golo em cinco jogos como suplente. Mais, os jogos como suplente utilizado representam apenas 7% do total de jogos na soma das passagem pelo Manchester United, Real Madrid e Juventus, um número tão pequeno como o de golos como suplente nessas equipas, isto perante o total de golos marcados com as respetivas camisolas, apenas 2%.

Por falar em percentagens, é de mencionar que menos de 90 minutos no total de jogos do Manchester United numa pré-época, também terão deixado o jogador a nível físico e competitivo longe do rendimento esperado, sobretudo quando este já tem 37 anos - e mesmo que no nosso imaginário Cristiano Ronaldo esteja sempre a treinar.

Se a vida estranha em Manchester mancha os números de um homem que há poucos dias assumiu publicamente que pretende disputar o Campeonato da Europa de 2024, quando terá 39 anos, a vida a titular na seleção nacional está longe de ser um escape.

O melhor marcador de sempre por seleções, com 117 golos - para já -, nos últimos oito jogos com a camisola das Quinas, três de qualificação para o Campeonato do Mundo e cinco a contar para a fase de grupos da Liga das Nações, só marcou num encontro, um bis frente à Suíça. Um registo apenas comparável com os primeiros tempos do astro português na seleção, que anotou apenas um golo nas primeiras 11 internacionalizações, ou nos 11 jogos compreendidos entre março de 2009, frente à Suécia, e junho de 2010, diante da Coreia do Norte.

Antes do jogo com a Coreia do Norte, Ronaldo eternizou a mítica frase "os golos são como o ketchup" e pôs fim ao jejum. Resta saber se estamos à beira de um momento épico, a que o 7 tantas vezes nos habituou, e ao regresso da veia goleadora.

O próprio jogador estará ciente deste início horribilis de temporada ao ponto de ter convidado o psicólogo canadiano Jordan Peterson para conversar em sua casa. Peterson, à conversa com o jornalista e apresentador britânico Piers Morgan num programa da Talk TV, revelaria que o capitão da seleção falou de alguns obstáculos que está a passar.

"O Cristiano convidou-me para ir a casa dele ter com ele. Ele estava com alguns problemas há uns meses e um amigo dele enviou-lhe alguns dos meus vídeos. [Depois de ver], Cristiano quis falar comigo, então convidou-me e estivemos à conversa durante umas horas em casa dele. Ele queria, sobretudo, falar sobre o que quer para o futuro e também sobre alguns obstáculos que está a enfrentar neste momento", revelou.

Com um calendário comprimido devido à realização do Mundial no Qatar durante boa parte dos meses de novembro e dezembro, terá, praticamente, de quatro em quatro dias, oportunidade de dar a volta à situação. A primeira, depois desta paragem para seleções, a última antes do Campeonato do Mundo, será já este fim de semana no dérbi de Manchester diante do City.

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