Perdoem-me, caros leitores, por uma certa dose de heresia nas primeiras palavras sobre a da 54ª edição do Super Bowl. Eu, cidadão europeu me confesso: como adepto incondicional de râguebi, considero esta modalidade como o desporto da bola oval “boa”. Do outro lado do atlântico, há também quem transporte uma bola com o mesmo formato na mão, mais pequena, que ao contrário da modalidade da minha preferência desportiva, é jogada, com a mão para a frente e que o meu olhar se inclina para apelidar de jogo da bola oval “má”.

As diferenças não se ficam, no entanto, por aqui. Ao contrário de 15 (XV) ou 7 (sevens) jogadores em campo, no futebol americano são onze contra onze. Os primeiros entram em campo com fitas enroladas às orelhas, pensos a taparem as ditas, umas que de tão amassadas parecem carne picada. Os jogadores, no caso de estarem a representar a sua nação, choram, abraçados, a ouvir o hino, que cantam como se não houvesse amanhã. Já os segundos, pintam a cara, surgem de leggins, luvas, chumaços, capacetes, alguns deles com lenços pendurados nos quadris e celebram, com danças, se apanham a bola uns metros depois desta ter sido lançada. E se no campo quem joga parece saído de uma banda-desenhada da Marvel ou boneco do MacDonald’s, distribuído no menu de crianças, o árbitro, esse, veste-se como um vendedor de gelados.

Este era, pelo quarto ano consecutivo, o meu ponto de partida, para uma reportagem com adeptos do futebol americano que há mais de 11 se reúnem, em Lisboa, para, literalmente, não pregar olho na noite em que a América para.

Enquanto o estádio “Hard Rock”, em Miami, recebia o jogo mais importante do ano nos Estados Unidos da América, que opôs San Francisco 49ers (da Califórnia) e os Kansas City Chiefs (Missouri), campeões da National Football Conference (NFC) e da American Football Conference (AFC), respetivamente, outro “estádio” foi montado no Snooker Club, em Lisboa, um espaço que, para além do jogo da bola branca e bola preta, é também local de romaria dos adeptos do Barcelona FC (futebol), sendo a penya barcelonista na capital portuguesa.

E logo à entrada, dois fãs do futebol americano trataram, antes do jantar aprazado, de desmitificar o que descrevo de entrada. Em menos de um quarter time (15 minutos), que dura cada um dos quatro pedaços da partida, sofri dois touchdows, curiosamente, “marcados” por dois adeptos confessos do desporto da minha predileção.

“Uma lua de mel que durou 10 treinos”

Fernando Lopes, 50 anos, olhava para o futebol americano como “uma espécie soft de râguebi”, um desporto no qual fez uns treinos “no CDUL” e no qual “era adepto da África do Sul”, isto até Jonah Lomu (1975-2015) aparecer, que o levou a mudar-se para “a Nova Zelândia”, recordou.

Fernando Lopes créditos: Miguel Morgado | MadreMedia

“Pensava que era o jogo da bola oval má”, até que em 2007, tudo mudou, curiosamente no ano em que a seleção nacional portuguesa (Lobos) disputou o Mundial de râguebi, em França. A culpa foi de André Novais de Paula (responsável pela página no Facebook de futebol americano). Com o conhecimento das regras “comecei a olhar de forma diferente para tipos com mais de 100kg, que correm velozmente, outros que metem a bola a 50 metros”, assumiu. “Respect", assumiu.

Torce pelos New Englad Patriots, uma escolha natural. “Como era fã dos Boston Celtics (equipa de basquetebol de Boston) e de Lary Bird a escolha recaiu no clube da mesma cidade”, explicou. E acrescentou. “Os Patriots, com seis anéis (títulos) já foram, desde que comecei a seguir a modalidade, cinco vezes à final e ganharam três desde então. Neste período tem mais títulos que o Sporting”, diz com um sorriso, trazendo à conversa o clube de que é adepto confesso.

Fernando chegou a jogar futebol americano, em 2014, no “Lisboa Devils”, clube que entrou em ação nos anúncios na transmissão da Eleven Sports do Super Bowl. “Tinha 45 anos. Fui aos treinos de captação. Enviei idade e peso (117 kg e 1.84m). Alertei para a minha idade, mas olharam mais para o meu peso e altura”, encolheu os ombros.

“Depois do andebol e basquetebol foi o desporto mais giro que pratiquei. Era um dos gordos da frente. Ofensive line. Serve para segurar o adversário e assim permitir libertar bola para o Quarterback (a estrela da equipa)”, explicou.

Nesta viagem ao passado, solta um lamento. “Foi uma lua de mel que durou 10 treinos, o tempo suficiente para uma lesão no pulso”, atirou os olhos para o chão enquanto rodou a mão. “Segurava um gajo de 100 kg, 20 anos mais novo e era cuspido para trás. Desmaiei duas vezes, eram treinos de 2h30 e que temos que ir com tudo”, assegurou. “Há uma metáfora que explica. Numa autoestrada, ou és o mosquito ou és o carro”, explicou, ele que foi mais bicho com asas do que máquina voadora.

“Tem uma lógica mais matemática e maior intensidade”

João Morao, igualmente com metade de um século nos ossos entrou em campo. Tem o râguebi no ADN. Jogou nos juvenis no Técnico, nos anos 80. Talvez por isso, puxa dos galões para fazer uma comparação entre as duas modalidades: “Se dizem que o râguebi é um desporto de vândalos jogado por cavalheiros e o futebol é um desporto de cavalheiros jogado por vândalos, o futebol americano é um desporto de animais jogado por animais do ponto de vista físico”, atirou.

João Morao créditos: Miguel Morgado | MadreMedia

Se dúvidas houvessem sobre a fibra de quem joga o desporto preferido da América, acrescentou. “O râguebi é uma corrida de médio-longo curso e futebol americano e corrida 100 metros, com intensidade e violência”, frisou. “Tem uma lógica mais matemática e maior intensidade”, reforçou este apaixonado pelo jogo. Esta paixão “nasceu em meados dos anos 90, quando trabalhava em Frankfurt”, na Alemanha. “Jogava nas bases áreas americanas, num campeonato entre bases. Era tide end (do lado do ataque) intermédio, quem está na frente e quem recebe a bola”, recordou o torcedor dos Seattle Seahawks.

Acompanha a temporada “religiosamente”. Um seguidismo cego que começa no “combine, free agency, draft e a construção da equipa e treinos e culmina na pre-session, com quatro jogos onde se faz a redução de 90 para 50 atletas”, descreve. Demasiados inglesismo que se resumem na construção de um plantel que começa nos testes a jogadores, em ver quem está livre para assinar, na escolha dos melhores e nos jogos de pré-época.

Hugo Ramos é o benjamim (20 anos) de um grupo de 20, maioritariamente masculino. Poucos anos depois de ter saído do colo da mãe, foi pela mão da progenitora (Margarida Pedroso Ferreira, mais uma vez presente) que começou a ver jogos, uma ligação alimentada com a ajuda de uma app em que descarregou um jogo. Dos Patriots, desde 2014, por ser o “clube da moda” e por causa de “Tom Brady”, cumpriu, este verão o sonho de criança. “Fui ver um jogo contra os New York Giants”, na pré-época.

O futebol americano é seguido como uma religião. Só lamenta que a mãe não alimente a fé com a assinatura do canal televisivo que transmite a temporada e “não ter amigos” fiéis.

créditos: Miguel Morgado | MadreMedia

A bola oval, a pequena, e que já não “má”, seguiu para as mãos de André Novais de Paula, de 48 anos. Puxou a conversa para o futebol americano em Portugal. “Onze épocas e hoje começou a primeira jornada. Houve fusões de equipas e fui ver o Cruzaders Lisboa-Lamber Jacks de Paredes (lenhadores de Paredes). Ganharam os Cruzaders, foi uma sova”, conta Novais de Paula, com a camisola do seu clube de eleição, Green Bay Packers (Wisconsin), equipa que perdeu com os 49ers na final da conferência. “É um clube com tradição e história e é o único franchisado em que não há dono individual, mas sim os habitantes da cidade”, assinalou.

Uma maratona em campo e um intervalo que fechou com “muchas gracias”

Ontem, domingo, 2 de fevereiro, 23h30, marcava o relógio em Portugal Continental e Madeira, 17h30 em Miami, na Florida. Uma sala dividida entre os jogos de snooker e quem, já de barriga cheia, alimentasse os olhos com as quatro televisões e o ecrã gigante que transmitiam o Super Bowl, a razão de ali estarem esta noite.

Já com o hino cantado por Demi Lovato, momento para a homenagem a veteranos de guerra, moeda ao ar e início do jogo.

Zero adeptos confessos em Lisboa de qualquer uma das equipas: os 49ers, clube californiano com origem na corrida ao Ouro, que somavam cinco anéis e os Chiefs, com um título somente na era Super Bowl. Estão pela modalidade em si. Alguns vestem a camisola da sua preferência, sendo que “cheira demasiado a Patriots”, solta uma camisola dos New Orlean Saints. João Morao, admitiu, torcer pelos Chiefs. Fernando Lopes, esse, assumiu-se “neutro”.

Perdoem-me, mais uma vez, não fazer a crónica do jogo que demorou 4 horas e saltar, direto, para o intervalo, o momento mais aguardado (a par do apito final) e, por norma, o mais visto na televisão. Para a história, registe-se que as duas equipas chegaram empatadas (10-10), foi a quarta vez que tal sucedeu em 54 anos de competição nacional. Já estávamos no dia de hoje, segunda-feira. 01h01.

Jennifer Lopez e Shakira, namorada do jogador de futebol do Barcelona, Gerard Piqué, eram as estrelas (latinas) anunciadas para cantarem durante 13 minutos no meio do terreno que virou palco. Foi a primeira vez que as duas artistas sul-americanas – que somam mais de 150 milhões de álbuns vendidos a nível mundial – atuam juntas no mesmo cenário.

A latinidade, frenética esteve sempre presente ou não fosse Miami uma cidade “caliente”. Admito: à velocidade com que mudavam de roupa (Shakira entrou de encarnado e Lopez trocou o cabedal pelo prata), abanavam o corpo, saltavam, dançavam, subiam e desciam o varão (Jennifer Lopez), não fixei o reportório musical, exceção feita aos sons do “hino” do Mundial de futebol da África do Sul, ao desfile final com uma bandeira de duas faces (EUA e Porto-Rico) e um “muchas gracias” final. Tinham passado 23 minutos desde o apito para o intervalo.

“Tenho que acordar amanhã para ir trabalhar”

A debandada começou nos espetadores do Super Bowl. “Tenho que acordar amanhã para ir trabalhar” era a justificação para a falta aos próximos dois períodos de 15 minutos de jogo que, sabiam, dura três ou quatro vezes mais. Entre pausas e time-outs o relógio avança penosamente. Os fiéis do snooker resistiam mais.

Às 01h30 começou a 2ª parte. O VAR lá do sítio explicava, para todo o estádio ouvir, as decisões do homem do apito. Os jogadores voam para apanhar a bola. São autênticas máquinas de força e velocidade.

Na cronologia do encontro, os San Francisco 49ers (da Califórnia), que poderiam fazer história ao igualar no topo os New England Patriots e o Pittsburgh Steelers, com seis “anéis”, chegaram mesmo a cheirar esse feito. Venciam no 4º período por 20-10. Mas como explicado atrás, 15 minutos podem demorar uma eternidade e o Underdog Chiefs virou o resultado a seu favor. Fim de jogo às 3h11. 50 anos depois, o Kansas City vence o Super Bowl, por 31-20.

O conjunto de Kansas City repetiu o sucesso de 1970, ano em que venceu os Minnesota Vikins por 23-7, na segunda presença no Super Bowl, três anos após o desaire por 35-10 face aos Green Bay Packers.

É hora de debandada geral de quem via o futebol americano. Televisões apagadas. Quem jogava snooker foi intimado a colocar os tacos e bolas na mesa. A duas mesas preenchidas por jogadores de etnia cigana ainda sobrou tempo para uns cantares antes de pagarem a conta.

Fim de noite, princípio de madrugada. Texto finalizado e fui para casa ver a gravação do jogo das Seis Nações França-Inglaterra. Ou não fosse este o meu jogo da bola oval, que por sinal, ocupa o topo das minhas preferências desportivas.

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