A partir da madrugada desta quarta-feira, o porto de Waitemata e o golfo Hauraki, em Auckland, Nova Zelândia testemunham a 36ª edição da America’s Cup, duelo de nações no mar e o mais antigo troféu internacional na história do desporto.

Criado em 1851, precede em 45 anos os Jogos Olímpicos da era Moderna.

O Emirates Team New Zeland, defender e vencedor em título do “Auld Mug”, alcançado nas Bermudas em 2017, enfrenta o desafiante (challenger) Luna Rossa Prada Pirelli Team.

A tripulação com bandeira italiana conquistou o direito a entrar na batalha naval depois de vencer a Prada’s Cup, no passado dia 21 de fevereiro, diante dos ingleses do INEOS UK Team, liderados por Ben Ainslie, o mais medalhado velejador olímpico, equipa que usou o túnel do vento da Mercedes para testes da embarcação.

Sete pontos para erguer o troféu

Prevista para os dias 6 a 15 de março, a competição viria ser adiada para a próxima madrugada por decisão das autoridades de Auckland (que saiu de mais um lockdown) e do executivo de Jacinda Ardern.

A America’s Cup decorrerá, ainda assim, debaixo do nível 2 de segurança, em quatro possíveis, no que toca à Covid-19.

A final contempla 13 séries de corridas, duas regatas por dia. Estão agendadas para a próxima madrugada (16h15 na Nova Zelândia), na próxima sexta-feira, sábado, domingo e segunda até que uma das equipas atinja sete pontos (uma vitória equivale a um ponto). Tal pode só acontecer a 17 de março, dia da última e única vez que as embarcações entram na água, caso seja necessário para apurar o vencedor da 36ª edição.

O campo de regatas estende-se por 3 quilómetros de comprimento e cerca de 1,5 km de largura.

Os AC75s, novíssima embarcação monocasco de 75 pés (22,86 metros), sete toneladas de peso cuja vela maior quase toca no céu, são o foco de atenções do duelo náutico. Rápidos e capazes de atingir velocidades inimagináveis, podem voar à velocidade de 90 km/h.

“Os barcos foram concebidos há três anos, e agora estão a exceder as expetativas sobre o que podemos fazer, quão rápido podemos ir. A velocidade dos barcos é um mistério para nós como para qualquer um”, afirmou na conferência de imprensa, Peter Burling, skipper do Team New Zeland, que fez parte da tripulação Kiwi, vencedora em título, há quatro anos.

Max Sirena, timoneiro italiano do Luna Rossa , representando o Circolo della Vela Sicilia yacht club, que já ganhou a America´s Cup ao serviço de outra nação (Team BMW Oracle Racing, em 2007) , disse estar “ciente que esta é uma oportunidade de uma vida e tudo faremos para ganhar”.

Domínio americano durante mais de 100 anos

A competição náutica tem o nome de America exatamente por causa do nome da embarcação vencedora na primeira regata disputada no sul da Inglaterra, em agosto de 1851, opondo a tripulação que representava o New York Yacht Club, vindo dos EUA diante 16 veleiros ingleses.

Organizado pelo Royal Yacht Squadron, disputado ao largo da ilha de Wight, a sul de Southampton, na costa sul da Inglaterra, o Royal Yacht Squadron’s 100 Pound Cup (Taça das 100 Libras), assim denominado, teve como prémio uma jarra de 27 polegadas feito de 134 onças de prata, no valor de 100 libras, que viria a ser entregue aos americanos.

Consta que a Rainha Vitória, estacionada no Royal Yacht, em Solent, ao ver o “navio” do novo mundo passar, perguntou quem seguia em 2º lugar. “Sua Majestade, não há segundo”, responderam, uma resposta que serve de ilustração do espírito da Taça América em Vela.

Na história da competição, os Estados Unidos da América ostentam 28 vitórias, 25 das quais conquistadas, consecutivamente, pelo Yacht Club de Nova Iorque, clube que entre 1851 e 1980 (129 anos), arrecadou o Auld Mug (77 regatas ganhas de um total de 84) até que a Austrália e o Royal Perth Yacht Club triunfaram em 1983, na 25ª edição. A Grã-Bretanha disputou por 16 vezes a final, mas nunca venceu a mais importante competição de vela.

O sindicato italiano (então em representação de outro clube náutico) na primeira e única vez que chegou a esta final, em 2000, frente aos neozelandeses, perdeu por 5-0.

Por sua vez, o Team New Zeland detém três troféus, o primeiro dos quais, na sua estreia, em 1995, então liderados por Sir Peter Blake e Sir Russell Coutts que venceram (5-0) o Sail America, em San Diego. O Royal New Zealand Yacht Squadron tem sido o clube com mais sucesso nos anos mais recentes, vencendo três das sete participações na America's Cup.

O país do Hemisfério Sul tem mais duas conquistas que os seus vizinhos dos Mares do Sul, a Austrália e mais um do que a Suíça.

Da quase destruição à viagem na primeira classe

Auld Mug é uma peça artesanal, criada em 1948, três anos antes da America’s Cup, por Robert Garrard & Co, joalheiro real desde 1735. Originalmente em forma de jarra, foi doada ao Royal Yacht Squadron para usar como troféu.

Em 1996, a peça foi vandalizada. Um estudante neozelandês e ativista Maori, Benjamin Peri Nathan, bateu com um martelo 50 vezes, explicando que o fez porque acreditava que a “Taça” simbolizava a opressão do povo indígena. Viria a ser reparada no Reino Unido e regressou, de avião, em 1ª classe à Nova Zelândia.

O troféu, 1,1 metro de altura e 14 kg de peso, banhado a prata, tem direito a viajar numa cadeira no avião devidamente empacotado e acompanhado por uma guarda especial. Que o poderá levar, de avião, pela primeira vez, para a Itália, ou simplesmente nem sequer levantar voo e permanecer na Nova Zelândia.

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