A corrida em redor da montanha mais alta da Europa, o Mont Blanc (4.897 m), nos Alpes franceses, desafia os limites do corpo humano com um percurso de 170 quilómetros e 10.000 metros de subidas. "Como organizador, acho muito importante mostrar que é possível lutar contra o doping", afirma Michel Poletti, diretor técnico da prova, conhecida como UTMB.

A próxima edição, que acontece de 22 a 26 de agosto, será usada como laboratório para o trabalho de Pierre Sallet, fisiologista especialista em doping, e Patrick Basset, médico anestesista especialista em provas de resistência e no resgaste em montanha. "A saúde pública está a ser claramente deixada de lado quando se fala na luta contra o doping", denuncia Sallet, que também é presidente da ONG internacional Athletes for Transparency (Atletas pela Transparência). "O tema da saúde era central nas décadas de 1990 e nos anos 2000, quando não existiam tantos testes de detecção de produtos dopantes, principalmente o EPO", lembra. "Hoje, a luta antidoping está a ser estruturada em torno da Agência Mundial Antidoping (Wada), com foco maior nos testes, deixando um pouco de lado a questão da saúde", lamenta.

Ao invés de colher amostras para tentar encontrar substâncias proibidas, o programa "Quartz", implementado pela dupla, tem como objetivo avaliar o estado de saúde dos atletas - da preparação até ao dia da prova. Na base do voluntariado, os participantes do UTMB já estão a ser solicitados para colher amostras de sangue, cabelo e urina. "Com a análise de 66 dados biológicos nas amostras, o Quartz oferece uma visão mais ampla do que os testes antidoping. Com a avaliação da saúde, podemos ver tudo", argumenta Sallet.

Um novo passaporte biológico

O programa tem a vantagem de as análises poderem ser feitas em qualquer laboratório, o que não é possível nos testes oficiais de detecção de substâncias proibidas, que precisam de ser feitos em estabelecimentos credenciados pela Wada. Mesmo assim, Sallet e Basset continuam a achar indispensável que os atletas sejam submetidos a exames antidoping tradicionais. "O nosso programa não é mais eficiente, é apenas complementar. Os exames antidoping são necessários, por exemplo, para detectar o uso de estimulantes. Mas já vimos que o passaporte biológico mostrou os seus limites com atletas que tomaram microdoses de EPO", opina Basset. "Com este programa, tentamos mudar a forma de ver as coisas, colocando à disposição dos atletas limpos uma ferramenta que pode provar, de facto, que estão limpos", enfatiza Poletti.

Os atletas acompanhados terão a possibilidade de tornar públicos todos os dados, o que pode ser visto como uma forma de denunciar indiretamente aqueles que se recusarem a divulgá-los. As informações recolhidas podem integrar um relatório médico a ser usado em complemento ao passaporte biológico da Wada. Quando os atletas apresentam perfis anormais, como um nível muito alto de hematócritos, por exemplo, podem ser proibidos de participar nas provas. "Existem perfis anormais que não são causados por doping. A tendência é achar que está tudo bem, porque o atleta não é dopado, mas há problemas de saúde muito mais graves do que o doping", lembra Basset.

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