Há um português em cada canto do mundo. Sempre ouvimos este chavão, que é normalmente comprovado quando se viaja para fora de Portugal.

A eliminação da seleção nacional portuguesa era assunto que já tinha ficado arrumado na gaveta até que, no aeroporto internacional de Sochi, no meio do nada, quando palmilhávamos o corredor das portas de embarque à procura de um lugar para nos sentarmos, surge uma voz portuguesa. “Já vi que são portugueses”, disparou, com à vontade.

Nem precisámos de responder.

De imediato, sem pedir licença, atirou um convite, em estilo de indicação pura e dura, para bebermos uma cerveja.

A conversa começou, como não poderia deixar de ser, sobre futebol, ou que outra probabilidade existiria de uma senhora estar, por esta altura, na Riviera do Cáucaso se não fosse para ver a bola...

A única estranheza foi verificar que estava sozinha. E é aqui que entram explicações dadas a velocidade da luz.

Adora futebol, é portuguesa, vive no Qatar há 7 anos, trabalha numa empresa, da qual é partner, e que é nada mais, nada menos, que uma plataforma de marketing (associada à fidelização de clientes).

“Não quero misturar português com inglês, mas já são muitos anos fora”, desculpa-se, pedindo, educadamente, mais umas desculpas por não se querer identificar. “A minha história não é assim tão interessante e não vale a pena por o meu nome”, reforça.

Insistimos. Perguntámos porque tinha vindo do Qatar até à Rússia e que dissesse pelo menos um nome. Anuiu a metade do pedido.

O acompanhamento da seleção não é novidade. “Quando foi o Europeu em França também fui”, informou. Desta vez, “o meu marido não conseguiu vir e vim sozinha”, reforçou. Explicou ainda que tinha planeado estar mais tempo, esperava acompanhar a seleção desde o início, mas que o trabalho a raptou na fase de grupos e só foi ao fatídico jogo com o Uruguai.

Explicação dada. E o assunto futebol ficou por aqui. Demorou um minuto.

Sentados, pedimos as cervejas, num diálogo que, ou não estivéssemos na Rússia, mete gestos e dedos apontados ao menu em inglês (com a empregada com menu original na mão para a tradução).

A conversa sobre marketing e a forma como começou a trabalhar na empresa (leva três anos) da qual agora é partner serviu de mote para um verdadeiro brainstorming sobre empreendedorismo, startups, tecnologia ao serviço do cliente, desenvolvimento de apps, fund raising, procura de investidores, negócios, procura de quadros e promoção de emprego, head hunters, patentes, desenvolvimento de produtos de alcance global a partir da sua criação em Portugal e tudo o mais.

Em Sochi, uma cidade que à boleia do legado olímpico assiste a uma transformação de uma localidade sem cor típica do passado comunista para uma nova Califórnia, o tema inovação e empreendedorismo caí que nem uma luva.

Continuando sem dizer o nome, passou pelos locais onde o emprego a levou. “Trabalhei na Arábia Saudita onde durante 9 meses fui diretora editorial para trabalhos para o Wall Street Journal”. Replicou a tática no Qatar. E foi neste Emirato que conheceu o marido, que está a trabalhar em televisão. “Apaixonei-me e fiquei”, sorri.

Mas a vida parece não parar. “Fui para Jacarta (Indonésia), regressei ao Qatar, trabalhei no Dubai e na Índia, em Bangalore”. Uma cidadã do mundo, em especial do mundo no Médio Oriente e Ásia. “Adorei a Arábia Saudita, conhecer as razões de serem muçulmanos”, exprime. “Vivi ali as verdadeiras peripécias das Arábias”. Sobre o Qatar dá um dado estatístico para desmistificar que se ganha “rios” de dinheiro. “Uma alface custa-me 8 euros. Oito euros”, diz com uma pronúncia nortenha que cresce na hora das lamentações. “Nasci na Trofa”, informou.

Não é menina para grandes queixas e volta à carga com o tema que o executivo do primeiro-ministro português, António Costa, iria adorar. Promoção de emprego e investimento em Portugal. E talvez um regresso de um cérebro. Honestamente, é bom de ouvir. Alguém que saiu do país e pensa em criar emprego. Em especial em Portugal.

Mais de uma hora à conversa. O tempo de espera do aeroporto aproximava-se do final e a chamada para o embarque na porta 11 ouviu-se. Antes de nos levantarmos deu-nos um cartão. Pronto, já sabemos o nome de quem tivemos à conversa. Mas ainda não temos autorização para escrever este episódio ao estilo “meu querido Diário”. Continuou com “deixe lá isso...”.

Embarque, um pouco mais de duas horas de voo até Moscovo. Aterrámos, fomos à procura do fim da indicação Exit (saída) e voltamo-nos a encontrar com a nossa interlocutora na zona de transferência/conexão de voos. Lá estava à nossa espera para informar que o caminho para Qatar era por ali (apontou). Perante a questão se podíamos ou não utilizar o nome e a história, disse que sim. A Paula despediu-se com um voto. “Vemo-nos no Qatar. No Mundial”, acenou.


Diário da Rússia é uma rubrica pela voz (e teclas) de Abílio Reis, Tomás Albino Gomes e Miguel Morgado e fotografia de Paulo Rascão, equipa do SAPO24 enviada à Rússia para fazer cobertura do Mundial. Um diário que é mais do que futebol, porque a bola não se faz só de bola, mas também das pessoas que fazem a festa. Acompanhe a competição a par e passo no Especial "Histórias de futebol em viagem pela Rússia".

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