“Não-lugares”, segundo Marc Augé - esta era a resposta certa! -, são espaços transitórios que não têm significado relacional e histórico suficiente para serem definidos como “lugares” - por exemplo, quartos de hotéis, aeroportos, supermercados.

Ora, os meus olhos, durante a emissão do jogo, mais do que procurarem os pés do Ronaldo, que poderia marcar o golo n.º 700 da carreira, tinham ido parar a pessoas, fenómenos, pormenores que são muitas vezes transitórios mas que acabámos por perceber que estão cheios de significado relacional, histórico, social.

Há vários meses que ando a dizer que gostava de escrever a crónica de um jogo de futebol - eu, que pouco percebo do assunto. Se está à espera de uma análise da estratégia de jogo, esta crónica não é para si. Se, pelo contrário, tem curiosidade de saber o que uma iletrada do futebol tem a dizer sobre os 90 minutos de ontem e como é possível conhecer mais sobre o mundo do chamado desporto-rei ao olhar para as imagens em que não aparece a bola, seja bem-vindo. Prometo falar pouco ou nada do jogo. Está lançado o desafio.

A primeira descoberta surgiu ainda o jogo não tinha começado.

O “não-lugar” de levar uma criança pela mão

Faltavam poucos minutos para a bola começar a rolar quando a cena habitual apareceu nos ecrãs: no túnel que dá acesso ao relvado, neste caso do Estádio Olímpico de Kiev, capital da Ucrânia, apareciam em fila, ainda penteadinhos, grandes nomes do futebol prontos para lutar por uma vaga no Euro2020 (e, pronto, do jogo não haverá muito mais do que isto neste texto).

Estava tudo preparado: os holofotes prontos para iluminar as estrelas, as bandeiras (maioritariamente, azuis e amarelas) no ar, aqueles saltinhos de aquecimento dados.

Mas os meus olhos ficaram presos lá atrás, a cerca de meio metro das caras que todos querem ver. Fixaram-se nas crianças que davam a mão aos jogadores.

Eu tinha quase a certeza de que nem sempre tinha sido assim. A pergunta impôs-se: “Desde quando é que isto é feito?”. Fui à procura da resposta. E encontrei-a mesmo antes de Yaremchuk marcar o primeiro golo, logo aos seis minutos (incrível, ainda consegui mais uns laivos de crónica). Atrás da resposta vieram informações recheadas dos tais “significados históricos, sociais” que nos ajudam a perceber os nossos tempos.

Parece, então, que a ideia de os jogadores serem acompanhados de crianças na entrada para o campo se começou a tornar popular no final dos anos 90 - por exemplo, nesta final da Taça de Inglaterra de 1999, já se veem duas crianças nos instantes antes do início do jogo - e se estabeleceu de forma mais oficial no Mundial de 2002, no Japão e na Coreia do Sul. A FIFA emitiu no ano anterior ao campeonato um comunicado onde explicava que se tinha aliado à UNICEF para fazer da proteção das crianças uma causa com atenção à escala global. A parceria ficou conhecida como “Say Yes for Children” (“Digam Sim pelas Crianças”, numa tradução livre) e incluía várias ações. Entre elas, anunciava a FIFA nessa nota: “Em todos os jogos, crianças com t-shirts a dizer ‘Say Yes’ levarão os jogadores para o campo”.

Desde essa altura, a prática tem-se instalado. No Mundial de 2018 na Rússia a FIFA anunciou a participação de 1.408 crianças (1.273 locais e 135 de outros países) no programa “McDonald’s Player Escorts”, que tem sido responsável pela organização desta iniciativa, destinada a crianças com idades entre os seis e os dez anos.

Além de chamar a atenção para as causas infantis, a ideia traz um elemento de inocência ao jogo, relembra os adultos de que as crianças estão a olhar para eles como exemplo, envolve por vezes parcerias com instituições de caridade e chega já a ser um negócio.

No Reino Unido, por exemplo, vários clubes da Premier League (campeonato da primeira divisão inglesa) cobram pela experiência, havendo situações em que os valores ascendem às 700 libras (perto de 800 euros) - é o caso do londrino West Ham. No entanto, há clubes que não cobram pelo serviço, como o Liverpool e o Arsenal, e outros que entregam as receitas a instituições de cariz social, como faz o Burnley.

Yarmolenko não precisou de filosofar, mas deu-nos uma aula de história

Entretanto estávamos a ver um jogo! Quase a chegar aos 27 minutos, quando nada o fazia prever, na grande área de Rui Patrício apareceu Yarmolenko, o avançado ucraniano que marcou o segundo golo pela equipa da casa (incrível, já vamos na terceira referência ao que efetivamente se passou dentro das quatro linhas). Eis que estamos perante uma jogada digna de um comentário ao mais alto nível futebolístico. Yarmolenko é um dos cinco jogadores, entre os onze iniciais da Ucrânia, que têm nomes acabados em “enko”.

Desta vez não foi necessária pesquisa para começar a dissertar sobre o tópico. Pensando por analogia aos nomes que em inglês acabam em “son” - Johnson, Peterson, Anderson… -, pareceu-nos que também “enko” pudesse significar “filho de”. E lá fomos nós verificar este dado, já curiosos por saber mais a história deste sufixo.

Consta, numa revista científica dedicada ao estudo dos nomes, que “enko” é considerado o elemento “mais comum” na formação dos nomes ucranianos. O sufixo, cuja origem recua à segunda metade do século XII, é constituído pelos elementos “en” + “k” + “o”, em que “en” significa “criança”, “k” sugere um sentido diminutivo e “o” é apenas uma terminação. “Assim, ‘enko’ indica ‘filho de’”, sendo aplicado a seguir ao nome dos pais. Uma vez que não é um sufixo encontrado noutras línguas eslavas (línguas faladas principalmente nos países mais a leste da Europa), as pessoas com apelidos que incluem “enko” serão certamente descendentes dos povos da região da Ucrânia.

700.º: O número que CR7 sabe fazer, mas talvez não saiba dizer

O tempo ia avançando e Portugal nada de marcar. Mas o número 7 havia de se impor a dada altura. Aos 72 minutos, Cristiano Ronaldo marcava um penálti, colocava a seleção portuguesa mais perto de um empate (que acabou por não chegar) e celebrava o golo número 700 da sua carreira.

Era o momento por que todos esperavam. Só não tenho a certeza de que fosse um momento fácil para aqueles que faziam o relato do jogo. Não sendo especialista em desporto, há uma palavra que duvido que tenha sido usada ontem mesmo pelos profissionais mais talentosos. Sabe, caro leitor, como se diz 700.º por extenso? Esta foi a nossa derradeira pesquisa da noite. Assim ficámos a conhecer uma nova palavra - “septingentésimo” - e nos despedimos de um jogo que deixou boas memórias (mais para uns do que para outros), novos significados e um resultado que esperamos que não se traduza num “não-lugar” no Euro2020.

Há vários meses que andava a dizer que queria escrever uma crónica de um jogo de futebol. Hoje foi o dia.

(Artigo corrigido às 22h02 do dia 22 de outubro - Marc Augé popularizou o conceito "não-lugares", sendo Michel de Certeau o responsável pela criação do termo)

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