Vera Leal tem uma das histórias empreendedoras mais curiosas da Ilha Terceira e é o retrato de alguém que persegue os seus sonhos, mesmo que estes estejam em áreas completamente diferentes da sua vida. Natural desta região dos Açores, Vera formou-se em Arqueologia e História da Arte, ramo onde se especializou e começou a trabalhar com uma série de bolsas de investigação. Com estas, atravessou o Atlântico e trabalhou em Espanha e na Figueira da Foz, no museu Dr. Santos Rocha, onde podem ser encontrados diversos vestígios da presença romana em Portugal, bem como algumas esculturas medievais e renascentistas.

Era o percurso para o qual se tinha trabalhado, até que em 2016 um outro interesse começou a despertar um “bichinho” dentro da terceirense: a cosmética. Devido a uma condição de pele atópica (eczemas, alergias) e de alopecia androgenética (perda de cabelo), Vera adotou um estilo de vida mais saudável e, consequentemente, procurou produtos naturais que de alguma forma a ajudassem a tratar destes problemas. “Procurei muitos produtos nas ervanárias e dei por mim a tentar descobrir o que eram aqueles nomes complicados nos rótulos, e tentar perceber como eram as composições. Passava horas na loja a olhar para os rótulos e decidi fazer um workshop para tentar experimentar [criar um produto]. A semente ficou plantada nesse momento”, partilha.

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Estávamos em 2016 e, depois deste workshop, de forma autodidata, Vera Leal leu diversos livros sobre a área e, em casa, montou uma espécie de laboratório onde começou a fazer algumas experiências com materiais que ia adquirindo. Não tinha nenhum objetivo particular em mente, apenas perceber como os tradicionais produtos de cosmética para a pele ou cabelo podiam ser produzidos de forma natural, sem os materiais que podiam agravar os problemas que tinha. Seguiu-se uma pit stop em Lisboa, onde decidiu ir tirar um curso de Biocosmética no Instituto Português de Naturalogia (IPN), onde pôde ganhar mais bases, que aprofundou com um curso online ligado a fórmulas botânicas, lecionado por uma universidade britânica. 

“Foi ai que senti confiança para formular, porque tinha uma equipa de especialistas que avaliavam as minhas fórmulas e diziam os seus pontos fracos e fortes, davam um feedback muito em estruturado. Então percebi que gosto realmente de estar num laboratório e adoro investigar”, confessa. Estávamos em 2020 e Vera tinha finalmente uma ideia para o que viria a ser a Mazal.

A aposta na cosmética sólida

Quem tiver lido as linhas anteriores, poderá ter ficado com a sensação de que Vera largou por completo a Arqueologia, mas tal não é verdade. Tanto que, atualmente, a terceirense continua a trabalhar na área. Em 2020, regressou a casa, onde decidiu começar a dividir o seu tempo entre três amores: a arqueologia, operando como trabalhadora independente em todas as escavações que eram feitas na Ilha (que é considerada património cultural da UNESCO); educação, como professora de História num liceu local; e a cosmética, dando os primeiros passos daquilo que podia ser a Mazal, que é onde nos vamos focar de seguida.

A ideia de Vera Leal passava por criar produtos cosméticos com ingredientes da ilha Terceira, mais especificamente produtos de higiene pessoal que pertencessem à cosmética sólida. “É como se fosse um sabonete, mas com a função de creme ou de champô ou de do que quiseres", explica. "A vantagem deste formato é que não necessita de embalagem [individual, como um frasco], pode ser só uma caixa de cartão reciclado, além disso é súper fácil de transportar, porque não tem o problema dos líquidos no aeroporto, por exemplo. É também mais compacto e poupa água, que acredito que será um recurso escasso em muitos pontos do globo e mais ainda no futuro”, explica.

O ingrediente-base escolhido foi o basalto, que mais caracteriza as ilhas, e é um resíduo da indústria de construção (com a qual a açoriana está envolvida). A pedra é utilizada na construção e gera resíduos, que triturados formam um pó fino e rico em minerais que pode ser utilizado em cosmética.

E assim, Vera começou a desenvolver os primeiros sabonetes e a vendê-los a um grupo de amigos e a locais que deram bom feedback ao produto. Um deles foi a amiga Gabriela, que acabou por ter duas contribuições fundamentais para a criação da Mazal:

  • Incentivou Vera a profissionalizar o projeto e a juntar-se à StartUp Angra, a incubadora de projetos em Angra do Heroísmo, que a podia ajudar com um plano de negócios e com aspetos mais burocráticos.
  • Teve a ideia para o nome da empresa, que em hebraico significa “boa sorte” e Vera gostou tanto que decidiu ficar com ele.

A Startup Angra e o modelo de negócio

“O mercado da cosmética, na minha opinião, está bastante saturado. Tive um medo de muito grande de entrar neste mercado, porque sinto uma grande saturação – há todo o tipo de produtos, desde vegans a comércio justo, a biológicos, a líquidos. Mas acho que encontrei aqui uma lacuna: nos Açores não há cosmética sólida e, portanto, seria introduzir aqui um conceito que já existe em toda a Europa, Estados Unidos, etc.”, segundo Vera.

Desenvolver produtos de cosmética sólida coloca uma série de desafios à Mazal. Em primeiro lugar, é um conceito desconhecido para a maior parte das pessoas na Terceira, que exige, por um lado, uma componente educativa, e, por outro, apostar inicialmente no mercado internacional, mais consciente deste tipo de produtos, mas mais difícil de alcançar.  

Em segundo lugar, há um problema associado à própria morfologia do produto, que não dá uma experiência tão boa como os líquidos. Para a empreendedora açoriana, “normalmente as pessoas acham que não tem um ‘acabamento’ tão bom quanto os líquidos. Também porque, em parte, alguns champôs à venda no mercado são feitos em processo de sabonete e têm um PH muito elevado, comparando com o nosso couro cabeludo, há um choque”, explica.

Foi na procura de soluções que, em outubro de 2021, Vera começou a trabalhar com a StartUp Angra. A incubadora local ajudou com todo o benchmark de mercado, no contacto com alguns players da região que podiam apoiar o desenvolvimento e distribuição do produto, na candidatura a apoios financeiros regionais e ainda com formações que, depois da arqueologia e da cosmética, também podiam dar à empreendedora mais competências de gestão. “Eu tenho reuniões semanais, inclusive com o diretor, o Sebastião, em que eles estipulam objetivos que eu tenho de alcançar e vão trilhando (o caminho), vão orientando. Isto tem sido muito importante para mim porque eu não tenho visão nenhuma de negócio.”, partilha.

A pensar no futuro

Colocar um produto de cosmética no mercado não é tarefa fácil. Em média, toda a parte de desenvolvimento e certificação de um produto pode demorar dois anos até estar finalizada. É esse longo horizonte que faz com que, para já, Vera esteja na Mazal ainda em part-time, e avance com o projeto enquanto dá aulas e proteja potenciais vestígios históricos da ilha Terceira.

O objetivo é conseguir ter um produto no mercado até ao fim de 2023, muito direcionado a um segmento de turistas que visitam a região, com uma consciência ambiental maior e que queiram levar uma lembrança para casa. É um nicho, mas no estado atual do negócio e da indústria, Vera considera ser o passo certo a tomar, especialmente numa fase em que terá de encontrar fábricas-parceiras que lhe permitam um fluxo regular de produção.

Nos próximos anos, a ideia é criar uma loja online e disponibilizar os seus produtos numa série de unidades hoteleiras da ilha Terceira e de outras regiões dos Açores que já demonstraram interesse na Mazal. Se tudo correr bem, o sonho de Vera é expandir o seu negócio para os EUA e poder ter turistas e comunidades portuguesas no país a utilizar a sua marca. “Sinto uma ligação às comunidades, penso muito nas comunidades.”, remata.

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Este é o segundo de uma série de artigos que resultam de uma visita do The Next Big Idea a Angra do Heroísmo, a convite da Startup Angra e da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo.

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