As relações com Angola, à cabeça, a Europa e a Rússia, a questão catalã, um mundo em que a China se assume como líder comercial e um Estados Unidos da América mais protecionistas, o programa nuclear da Coreia do Norte, e as oportunidades na América Latina, África e o Médio Oriente foram os pontos geográficos abordados por Paulo Portas na qualidade de orador do pequeno-almoço “Geoestratégia do Mundo em 2018” que decorreu ontem na Câmara de Comércio, em Lisboa.

O vice-presidente da Câmara de Comércio fez aquilo que faz melhor e que tem feito nos últimos anos. Viajou pelo mundo e falou durante noventa minutos sobre os riscos e oportunidades para as empresas portuguesas num contexto global, centrando a sua intervenção na mensagem de que a “globalização é o mundo das marcas, não é o mundo das bandeiras nacionais”.

Mantendo-se coerente com a decisão tomada de “não estar na vida política (nacional)”, Paulo Portas deixou de lado comentários sobre a nova liderança no PSD (Rui Rio). Por outro lado, porque não “gosta de ser treinador de bancada”, tratou com pinças um assunto que interessa, e muito, a Portugal e às empresas portuguesas: Angola.

“Necessitamos como pão para a boca de captar investimento"

Não tocou nas questões mais sensíveis entre os dois países (relações judiciais e o caso em torno do ex-vice-Presidente, Manuel Vicente), mas reiterou, no entanto, ser “evidente que a relação com os países lusófonos, e no caso Angola, é muito importante” para a economia nacional e “para a nossa projeção no mundo”. Já sobre a mudança da política cambial e concorrencial que deverá ser posta em marcha pelo novo chefe de Estado angolano, João Lourenço, destacou ser “importante para as empresas fazer pagamentos e expatriar os dividendos”. Para Portas, a transição em Angola “é para levar a sério” e não é “cosmética”.

“A geografias das exportações portuguesas e capacidade de captação de investimento de Portugal são as melhores formas para uma economia crescer”, explicou durante a sua intervenção. “Necessitamos como pão para a boca de captar investimento. Portugal fez um grande caminho para ter uma economia mais exportadora, logo saber onde há riscos e oportunidades é relevante”, afirmou no final o ex-líder do CDS e atual dono da empresa de consultoria, Vinciamo Consulting.

A China, a competitividade, o protecionismo americano e os direitos adquiridos

Olhando para o mapa global, frisou que “quando não há lideranças, não há obediências” e num mundo “imprevisível” a “única atitude lógica é a flexibilidade”.

“O problema dos Estados Unidos não é Rússia. É a China"

Para Portas, na nova ordem economia mundial “o lugar da Ásia e da China é incontornável”, sendo este país “o primeiro exportador mundial” que “sabe o que quer”. Já os Estados Unidos da América “vivem um momento isolacionista” e a Europa “não travou o seu declínio”.

Se do lado dos Estados Unidos recorda um statement - “não há nada mau nos EUA que não possa ser resolvido pelo lado bom dos EUA” - e que o “mundo depende muito mais do Presidente dos Estados Unidos do que os americanos (metade dos eleitores não vota), em relação à China, avisa que “chegou onde chegou pela geoeconomia e não geopolítica. Pela economia”, reforçou. “E isso revela a dificuldade da política externa americana”, desvendou. “O problema dos Estados Unidos não é Rússia. É a China. E os Estados Unidos estão a revelar uma grande dificuldade em conter o crescimento da China”, comentou Paulo Portas.

Donald Trump enfrenta em novembro eleições - nova composição da Câmara dos Representantes e 1/3 dos senadores – o que, para Portas, poderá deixar perceber, ou não, se o presidente americano “terminará, ou não, o seu mandato”. Já a renegociação (se acontecer) do NAFTA - tratado de livre comércio que junta Estados Unidos, Canadá e México -, poderá ditar o posicionamento económico norte-americano: “se cair preocupem-se com o protecionismo; se não cair, não se preocupem exageradamente”, aconselhou a plateia de empresários e embaixadores.

A palavra competitividade foi por diversas vezes acentuada pelo antigo vice-primeiro-ministro de Passos Coelho. Direitos adquiridos também. E uma explica a outra. No que toma à primeira, veio à boleia da economia americana. “Independentemente das circunstâncias políticas, cresce mais e gera mais emprego que a economia europeia”, disse. “O desemprego (4%) e a reforma fiscal favorável às empresas e à contratação”, irá colocar “problemas de competitividade que não devem ser analisados ideologicamente. Mas sim pragmaticamente”, alertou. Como a Europa “já tem um défice de competitividade a nível fiscal”, Paulo Portas suspeita que a economia dos EUA vai crescer bastante bem e agravar o défice de competitividade em relação à Europa”. “Evolução NASDAQ e Dow Jones nunca estiveram tão altos”, exemplificou.

Sobre os “direitos adquiridos” é uma questão europeia que “não há nem na China, nem nos EUA e isso faz diferença (a nível da competitividade)”, explicou. “Aqueles que são de natureza económico-social, os países que garantem que os direitos são mesmos adquiridos são aqueles que produzem riqueza suficiente para os financiar. A questão criação de riqueza não é separável da tutela dos direitos”, adiantou.

Uma Europa unida versus Catalunha, Brexit, populismos a leste e os refugiados

Em relação à Europa, “em termos económicos conta se se mantiver unida”. E se “conquistar espaços comerciais favoráveis que outros (Estados Unidos da América) deixam vazios (referindo-se ao Japão, Canadá ou México)”, sendo “uma atitude inteligente e que deve ser permanente”. Mas se economicamente ainda ocupa uma posição muito relevante no comércio internacional, politicamente, “se se dividir em bocadinhos, conta basicamente Alemanha”, alertou aos jornalistas, numa alusão à questão catalã e ao que se passa na Flandres, na Bélgica, Lombardia, na Itália e ao referendo na Escócia. “Do ponto de vista das grandezas na globalização, temos que pensar se queremos ser relevantes ou se nos contentamos com a irrelevância”, disse.

“Abrir ou não a Caixa de Pandora - Escócia, Flandres, Lombardia” -, é um dilema num espaço que deve deixar de “olhar para o umbigo e começar a olhar para o mundo”, sublinhou. “Uma das razões da separação da Catalunha é não querer pagar as regiões mais pobres de Espanha. Julgam que a Catalunha é a única região rica que não quer pagar as mais pobres?”, questionou. “E se se aceita este egoísmo não conseguimos ter coesão social. É uma luta de ricos contra pobres”, alertou.

"Na ciber(in)segurança não somos avisados, não conhecemos quem está do lado de lá e o que sabe de quem esta do lado de cá."

Na relação da Europa com o mundo e consigo mesma, Paulo Portas salientou ainda que esta deve olhar para a Rússia (erradamente olhada como União Soviética), com quem a Europa “tem aproximação e desentendimentos”, e estabelecer uma” relação estável com o vizinho euro-asiático”, apontou. “Ninguém sabe o que é o inverno na Europa sem o gás russo”, deixou o alerta.

A Europa tem ainda outros desafios imediatos, sublinhou: inclinação para leste e não para Bruxelas por parte da Polónia, Hungria e República Checa, permeáveis ao “populismo”; o Brexit, que pode resultar numa perda de “50% da capacidade nuclear da União Europeia” e, por último, a questão da crise dos refugiados, um ponto que Paulo Portas não perdeu a oportunidade de criticar o papel da União Europeia, fazendo a comparação do que se passou na Colômbia no acolhimento de 150 mil venezuelanos, pedindo para olhar os “números da Europa em relação a Síria”.

A ciber(In)segurança e o perigo nuclear na Ásia

Os riscos são algo que as empresas portuguesas devem ter em atenção. “Vivemos um fenómeno hoje que é uma outra guerra: ciber(in)segurança que os Estados não resolvem sozinhos e só se resolve entre Estados e setor privado”, avisou.

“Na ciber(in)segurança não somos avisados, não conhecemos quem está do lado de lá e o que sabe de quem esta do lado de cá. O território é uma superfície infinita e não tem vitórias definitivas. Quando se vence um hacker significa apenas o triunfo do dia”.

Ora se “o crescimento migrou para a Ásia”, o risco “também”. Falando sobre uma putativa hipótese onde poderá ocorrer um novo conflito, a resposta surge na ponta da língua: “mar da China e na Península da Coreia”.

“O líder da Coreia do Norte (que está quase a conseguir ter o seu programa completo) quer sentar-se à mesa com a bomba nuclear . E negociar”. Esse dado torna “inevitável que Coreia do Sul tenha também um programa e altere o do Japão também. E de repente temo como potências nucleares China, Paquistão, Coreias e Japão. São uma multidão”.

América Latina como um novo player adepto da economia de mercado

Virando a agulha para outras geografias e na luta pela influência no Médio Oriente, Paulo Portas destacou dois países: Irão e a Arábia Saudita. E deixa um aviso. “Na era global não há muros de informação”, disse o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros. E nesse campo, as reformas sociais conduzidas pelo novo príncipe saudita, Mohammed bin Salman, “podem ter um impacto direto” no Irão, um país que exerce enorme “influência sobre o Iraque, Síria, Líbano, Iémen e até na disputa do Qatar”.

Em relação à América Latina deixa no ar a hipótese das cinco maiores economias (México, Brasil, Chile, Colômbia e Argentina) “terem cinco presidentes free market (favoráveis ao mercado livre)”, referindo-se a cinco eleições que decorrem neste ano de 2018.

“É preferível surfar a mudança do que ter medo dela”

Apontando o crescimento nesta zona do globo, destaca o México como “uma das mais extraordinárias economias do mundo (juntamente com a Indonésia)”, a Colômbia onde as empresas portuguesas “dão-se bem”, o Chile “que gera atração de investimento em segurança”, a Argentina “que está de volta” e para o Brasil um país no qual os empresários devem olhar para o fenómeno da “exportação de capitais”.

Os cinco países enfrentam eleições este ano, mas os principais sinais apontam num sentido: o favoritismo de forças políticas mais próximas do mercado livre, logo, com potencial de afirmarem ou consolidarem a sua posição como os novos players mundiais. Esta nova ordem política e económica pode ter, naturalmente, efeitos na economia mundial, destacou o antigo vice-primeiro-ministro.

Paulo Portas finalizou esta viagem planetária (faltou a Oceânia) no continente africano. “A África que está a correr bem é aquela que não depende do petróleo nem do gás natural”, começou por dizer, dando como exemplos a Costa do Marfim, Senegal, Etiópia, Ruanda, Tanzânia e Botswana que têm registado crescimentos “acima dos 6%”, em contraposição com os dois gigantes económicos, a África do Sul, onde se verifica um esvaziamento do ANC e na Nigéria, um país onde está a ser difícil conter o radicalismo religioso e o crescimento dos movimentos terroristas.

Paulo Portas, terminou a sua intervenção em tom de esperança. “O ano económico é ligeiramente melhor”, anunciou. E o “risco político está longe daqui”, garantiu. “Temos que nos habituar a viver com a imprevisibilidade e não acordar maldispostos”, avisou.

Sobre a evolução do mundo disse que “ninguém a vai travar a digitalização e automação e inovação. Vai alterar a nossa relação com o trabalho e a partilha do rendimento. É preferível surfar a mudança do que ter medo dela”, apontou.

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