Parece incontornável o reconhecimento de que esta nossa desgraçada indiferença perante mais este massacre em Mogadíscio evidencia como deixamos esta África que já foi colónia europeia abandonada à sua triste sorte.

É uma indiferença que vem de longe. Ao ouvirmos o nome Somália, logo, algo de reflexo em nós nos faz pensar em banditismo, pirataria marítima, corrupção, guerra civil, senhores da guerra, estado falido, terrorismo islâmico e caos. Também seca e fome. É uma impressão que desconsidera o esforço que este país do Corno de África, com população idêntica à de Portugal mas em sete vezes o território tem feito para se levantar e libertar de todos aqueles males.

Não há certezas sobre quem desencadeou o tremendo atentado em Mogadíscio às 8 da manhã deste sábado. Tal como aquele outro que há dois anos, com a explosão de um camião com cisterna cheia de gasolina, também em Mogadíscio, matou 600 pessoas. E vários outros já neste ano. Mas no alvo das suspeitas está o Al Shabab, nome que em árabe significa Os Jovens, grupo extremista violento que desde 2006 repete ataques terroristas como parte da campanha para o objetivo de instalar na Somália um estado islâmico fundamentalista. Al Shabab é uma filial da Al Qaeda, controla muito do vasto território da Somália e aterroriza a população, em especial a da metade sul do país. Financia-se através de impostos revolucionários que impõe, assaltos e extorsão. Este grupo exerce terror não apenas na Somália mas também nos vizinhos Quénia e Uganda.

O mundo foi despertado em 1993 para o caos Somália, quando 18 soldados de forças especiais dos Estados Unidos foram mortos quando os helicópteros em que seguiam numa operação num bairro da capital foram apanhados numa emboscada, e a história foi levada para o cinema no filme muito visto "Black Hawk Down" (em português, "Cercados").

Era e continuou a ser o tempo em que a Somália estava nas mãos de senhores da guerra. Também era o tempo em que o mundo se sobressaltou com os sucessivos assaltos de piratas com base na Somália a petroleiros na rota de saída do vizinho Golfo Pérsico. Uma força multinacional (com participação da Marinha portuguesa) conseguiu impor segurança no mar da Somália, mas em terra tudo continuou em permanente instabilidade levantada por lutas tribais e banditismo.

A ONU ativou para a Somália a operação “Restore Hope”. Mas é apenas uma ação militar cuja capacidade de intervenção é limitada e que não serve para restaurar a esperança. A União Africana tem na Somália um contigente com 20 mil soldados para o combate ao terror. Também não resolve.

A tremenda pobreza torna fértil o terreno para que os seguidores de Bin Laden conquistem novos militantes entre a população desesperada da Somália. O mal propaga-se pela África Central: Burkina-Faso, Mali, Níger. Na costa Atlântica, o Boko Haram amplia a onda de terror a partir da Nigéria.

Esta ameaça do terror de bandoleiros conjugada com os efeitos das alterações climáticas com secas cada vez mais duras precipita muitas pessoas desta África para a migração, com a Europa como miragem.

Fica assim evidente que é do máximo interesse para a Europa – até no ponto de vista mais egoísta – sair da indiferença em relação a África e mobilizar recursos para planos eficazes de desenvolvimento em segurança das populações africanas, promovendo a alfabetização onde falta, a qualificação, a agricultura, a saúde. O potencial africano é imenso com terreno extraordinário para a inovação tecnológica. Assim, um dia será possível disseminar a democracia de qualidade.

A Etiópia, vizinha da Somália, onde o primeiro-ministro Abiy Ahmed foi este ano distinguido com o Nobel da Paz é um estimulante exemplo. A Líbia em caos e sem Estado é o exemplo de tudo o que tem sido mal conduzido. Com altíssima responsabilidade ocidental, em particular da Europa que foi potência colonial e quando se sabe que não se pode contar com a América de Trump.

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