"Sou o melhor jogador da história, nos bons e nos maus momentos (...). Respeito as preferências de todas as pessoas, mas não vejo ninguém melhor do que eu", disse Cristiano Ronaldo, em entrevista, após ganhar a sua quinta bola de ouro. Rapidamente, recomeçou o discurso de sempre que algumas pessoas têm relativamente a Ronaldo, acusando-o de falta de humildade e arrogância. Fica claro que as pessoas têm uma noção de humildade retorcida. É como achar mais humilde aquele aluno que aquando da autoavaliação diz que merece um "17" quando teve 20 em todos os testes, só para parecer bem, do que o aluno que diz confiante que merece "20". Esta é a noção triste de humildade que temos em Portugal ou em qualquer país onde há muita gente invejosa.

Somos um país em que a palavra “humildade” no dicionário tem, para muita gente, como sinónimo “falsa-modéstia”. Para mim, o expoente máximo da humildade é seres considerado o melhor do mundo, achares-te o melhor do mundo, e mesmo assim, no dia a seguir, seres o primeiro a chegar ao treino e tentar melhorar. Isso é humildade: ser-se o melhor, sabê-lo e, ainda assim, tentar melhorar todos os dias.

Já tudo foi dito e escrito sobre a vida de Cristiano, mas as pessoas tendem a esquecer. O facto de ele vir de uma família pobre torna todo o seu percurso ainda mais notável. As pessoas, em Portugal, adoram idolatrar os pobrezinhos até eles começarem a fazer mais dinheiro do que elas. Existe um problema de memória curta e amnésia seletiva em grande parte da população portuguesa e isso é comprovado em tempo de ir às urnas votar nos seus governantes.

Ronaldo veio para Lisboa sozinho, aos 11 anos, para um mundo novo sem ninguém da família para o apoiar. Esquecem-se que chorou tudo o que tinha a chorar, à noite, na almofada, na academia do Sporting quando tinha saudades dos pais. Esquecem-se que ele trabalhou diariamente, anos a fio, para chegar onde chegou. Para além de ser o primeiro a chegar e o último a sair dos treinos ainda passa horas infindáveis no ginásio para ter um corpo quase à prova de lesões que fazem com que aos 33 anos, idade em que os jogadores já são “velhos”, isso nem se note nos números que vai conseguindo época após época. Esquecem-se que foi com 18 anos para o Reino Unido. Esquecem-se que começou a ganhar balúrdios – que não conseguimos imaginar – numa idade em que a maioria de nós ainda nem trabalha. Um rapaz dessa idade que decide levar os melhores amigos com ele para lhe fazerem companhia; para lhes dar uma boa vida e para o blindarem de novos amigos interesseiros que aparecem no horizonte sempre que a fama se faz nossa companheira; alguém que faz isso é inteligente, mesmo com os dentes todos estragados e a fintar-se a ele mesmo na gramática.

Para um gajo conhecido à escala mundial, com milhões, com 90% da população feminina a querer saltar-lhe para cima, até o acho bastante humilde. Só tem o defeito de não beber álcool. Desconfio sempre de quem não bebe, é pessoal que tem um lado negro sobre o qual tem medo de perder o controlo. Mas, como o pai lhe morreu cedo devido a problemas com o álcool, até sou capaz de lhe desculpar esse defeito.

Portugal nunca deu valor aos seus heróis corajosos e confiantes. Pelo menos não depois da ditadura. Somos mais – apesar de achar que estamos a mudar – um país de heróis Zé Marias", humildezinhos e pobrezinhos. “Ah… porque ele só quer é pousar e preocupar-se com o cabelo e carros!", comenta alguém com uma foto de perfil ao pé do seu Ibiza e com um penteado à Casa dos Segredos. A grande maioria já anda a gastar o dinheiro dos pais todos os fins de semana nos copos e depois vem criticar como ele gasta o dinheiro que conquistou apenas e só com o seu suor? O Sporting tem mérito na formação do jogador e do homem que ele se tornou. Tem muito mérito, mas o mérito é quase todo dele. Dele e da família, que bimba ou não, é muito mais família que muitas de sobrenome brasonado e que tratam os filhos por você.

A inveja é tramada. A admiração tem sempre a sua quota parte de inveja. Há uns que se sentem inspirados e há outros que se inspiram a dizer mal. É tramado ele ser o melhor naquilo que faz e aquilo que faz ser uma coisa que 90% dos homens queria fazer, mas nunca teve jeito para mais do que uma peladinha com os amigos. Tenho inveja dele, bastante, mas uma inveja daquela boa e que me dá algum orgulho de ter um embaixador de Portugal que não tem problemas em ser honesto e não está para falsas-modéstias. Os jogadores de futebol têm demasiado protagonismo e importância para aquilo que na verdade fazem que é ser bons atletas? Talvez, mas ele não tem culpa disso. O que sei é que precisamos de referências que lutam, que arriscam, que respondem a quem os trata mal, que choram quando vencem e não quando perdem. Faltam-nos mais Ronaldos. Se deixarmos os Zés Marias e começarmos a ser mais Ronaldos, se calhar isto anda mais depressa para a frente.

É o melhor jogador da história? Eu sei lá. Nunca vi jogar Pelé nem Maradona. Só vamos ter noção disso daqui a uns anos que é quando a história se escreve. Para todos os efeitos, em termos de recordes e troféus individuais, é o melhor de sempre e com o bónus de ser numa década em que conviveu com Messi, outro dos melhores de sempre. Em vez de discutirmos qual o melhor, devíamos estar agradecidos de ter a oportunidade de os ver a ambos a jogar ao mais alto nível durante anos.

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Para não serem só coisas minhas e mostrar que sou imparcial, também sugiro a nova série na SIC Radical, “A Vida do Sousa”. É bom ver algumas televisões a voltar a apostar na comédia portuguesa.

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