A cada dez pessoas que conhece, uma é portadora de diabetes. É caso para dizer que estamos perante uma realidade preocupante e sobre a qual pessoas com diabetes e cuidadores pouco falam. Infelizmente. Se mais de um milhão de portugueses está diagnosticado com esta doença crónica, a verdade é que não se sabe exatamente quantos mais teremos. Sabem-se coisas que são preocupantes: a incidência da doença junto dos mais novos é muito elevada; a taxa de amputações originadas pela diabetes é, em Portugal, a mais alta dos países da OCDE. 

Viver com alguém que carrega consigo esta doença crónica não é fácil. Imaginemos que estamos numa festa e alguém diz: Pode comer à vontade, tem pouco açúcar, ou Não tem açúcar, só tem mel. Fico logo com os nervos em franja e com vontade de perguntar se a pessoa sabe o que é a diabetes e o que faz ao organismo, o que pode fazer, quais as complicações. 

No verão passado dei comigo a dar uma preleção sobre pé diabético a uns amigos e a perceber que, “em calhando”, talvez fosse melhor eu escolher outro assunto para a nossa conversa. Os dados são assustadores, eu tenho-os na ponta da língua, é uma maçada. Está certo, não sou médica. Vivo com alguém que tem diabetes tipo 2, nem sequer é tipo 1. Quando somos confrontados com este tipo de doença crónica, abrimos um capítulo novo na nossa vida. Aprendemos, pesquisamos, ouvimos o que os médicos dizem. E depois somos postos entre a espada e a parede e temos de tomar decisões. No caso, é preciso entender que a diabetes é uma doença crónica passível de se gerir, mas que importa saber gerir. Sim, a vida muda um bocadinho e as mudanças podem ser uma grande chatice

 O que mais me chocou foi aperceber-me do número de portugueses que padecem desta condição ou podem vir a padecer rapidamente. E de como as pessoas escolhem – o verbo aqui é crucial – não tomar nota de que importa uma doença saudável, exercício físico e acompanhamento. Uma diabetes mal-acompanhada pode ser um desastre iminente. Ainda estava a gerir tudo isto quando começou a pandemia. 

Qual é a relação entre a COVID-19 e a diabetes? Digamos que não é amigável. Começou na segunda-feira o Congresso Virtual da Federação Internacional da Diabetes, que decorre até ao próximo sábado. É um evento com o apoio da Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDP) que é (já agora vale a pena saber) a primeira associação dedicada a esta doença e que começou o seu trabalho em 1926. 

De acordo com o presidente da APDP, José Manuel Boavida, 30 a 40% das pessoas internadas com COVID-19 têm diabetes; dessas, cerca de 30% estão em cuidados intensivos e 15 a 20% morrem. “A relação entre COVID-19 e a diabetes é complexa, podendo as duas doenças agravar-se mutuamente. Através do Congresso a IDF (International Diabetes Federation) fez um apelo global, para que possam ser realizados registos, nos hospitais, da evolução da diabetes e da sua relação com a COVID-19”. Em Portugal, diz-se Olhos que não vêem, coração que não sofre. Nada aconselhável para quem tem diabetes ou para quem é cuidador, direto ou indireto, de quem tenha esta doença crónica. Estar informado e saber ao que se vai é um ganho e pode salvar a vida. De acordo com os dados reunidos no 10º Atlas, um documento que foi lançado no Congresso Virtual, um em cada dez adultos vive com diabetes, representando 537 milhões de adultos com diabetes a nível global, números que tendem a aumentar nas décadas vindouras. De destacar ainda que, em 2021, a diabetes foi responsável por 6,7 milhões de mortes, ou seja, uma a cada cinco segundos. Talvez seja de falar um pouco mais nisto, o que acham?

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