Há uns bons anos, fui de carro até Inglaterra, com a minha família toda, visitar o meu irmão, que por lá anda emigrado. Fizemos um «pequeno» desvio para visitarmos Bruges — e quando lá estávamos percebi, contente, que bastava um outro desvio (desta vez realmente pequeno) para pormos os pés na Holanda. Assim foi: poucos quilómetros depois, apareceu-nos a placa das doze estrelas com o nome «NEDERLANDS» no meio. Parámos, tirámos fotos, voltámos para trás em direcção ao Túnel da Mancha...

Ora, aquele nome em holandês («Nederlands») quer dizer, assim de repente, algo como «terras baixas» ou «países baixos». E é esse, de facto, o nome oficial do país em português: Reino dos Países Baixos.

Muitos países têm um nome longo e um nome curto. O primeiro costuma descrever o regime, sendo usado em documentos oficiais, enquanto o segundo é o nome comum pelo qual o país é referido numa conversa de café ou num artigo de jornal. Assim, temos «República Portuguesa» e «Portugal» para designar o nosso país. Ora, nas línguas estrangeiras, cada país costuma ter também dois nomes. No caso da Holanda, temos «Reino dos Países Baixos» e... Enfim, temos «Países Baixos», mas no dia-a-dia, um português que não trabalhe no Ministério dos Negócios Estrangeiros dirá, sem pestanejar, «Holanda».

Estes nomes, por vezes, mudam por decisão do país. Quando um país muda a sua designação longa, é comum os documentos oficiais dos outros países acompanharem a mudança. O Reino do Nepal mudou de nome para República Democrática Federal do Nepal quando o regime mudou em 2008. Nada a dizer.

Ora, uma vez por outra, um país tenta mudar o seu nome curto nas outras línguas — e aqui a porca torce o rabo. Afinal, se não é difícil convencer os outros países a mudar as designações nos tratados, bem mais difícil é convencer todos os falantes das outras línguas a usar um nome diferente nas conversas do dia-a-dia.

A Costa do Marfim, por exemplo, tentou convencer os outros países a mudar o seu nome oficial para Côte d’Ivoire — em todas as línguas! Sim, em francês nem que seja em chinês. Nada de nomes diferentes em línguas diferentes (onde é que já se viu?). Estranhamente, não cumpri essa vontade do governo da Côte d’Ivoire no início do parágrafo. Paciência.

A República Checa, que tem o azar de ver o seu nome longo usado como nome comum em muitas línguas, anda a insistir para que usemos o nome «Chéquia», tal como usamos «Eslováquia» para designar a República Eslovaca. É lógico, simples e simpático. E, no entanto, não me vejo a usar «Chéquia» entre amigos. «Já alguma vez foste à Chéquia?»

Já a Birmânia pediu para que os estrangeiros começassem a usar nomes como «Mianmar». Ora, devagar, devagarinho, neste caso, a sua vontade lá vai sendo cumprida. Ajuda o facto de poucas vezes referirmos o país em conversas de café.

Agora, um país que muitas vezes aparece nas nossas conversas — nem que seja por alturas dos campeonatos de futebol — é a Holanda. Esse simpático país abaixo do mar plantado gosta de complicar: não só usa uma bandeira onde a cor nacional (laranja!) está ausente, como tem, em muitas línguas, os tais dois nomes que referi. Muitos insistem que «Holanda» é erro — e, no entanto, a própria Holanda (lá está...) usa, no seu website de promoção turística, o endereço holland.com...

Pois bem, a Holanda está farta: a partir do final deste ano, quer ser conhecida como Países Baixos e pronto. Não só o Governo holandês, como as várias instituições ligadas ao turismo e muitas instituições privadas decidiram passar a promover, em exclusivo, o nome correspondente a «Países Baixos» nas várias línguas. Em inglês, será «Netherlands». Nada de «Holland» — nem na Eurovisão, nem nos Jogos Olímpicos, nem nos campeonatos de futebol. Em breve, teremos emocionantes jogos entre a Selecção das Quintas e os poderosos holan... habitantes dos Países Baixos!

Porquê? A ideia é começar a sublinhar o país inteiro e não só Amesterdão, que está, de facto, na Holanda, mas na Holanda enquanto pequena região dos tais Países Baixos (como a Inglaterra é apenas uma parte — não muito pequena — do Reino Unido).

O problema — direi eu — é este: quando um português diz «Holanda», não está a referir-se à pequena região que tem esse nome em holandês. Está a referir-se ao país todo. Se os ingleses não parecem importar-se com o uso de «Netherlands» (aliás, bastante frequente), temo que os portugueses continuem a usar «Holanda» e «holandeses» sem grande respeito pelas determinações dos ditos.

E, confesso já: apesar de não ter nada contra os belíssimos Países Baixos, apetece-me mais visitar a Holanda — e que da próxima vez seja durante mais do que 30 segundos! Também nunca sonhei ir à Chéquia, mas ainda hei-de visitar a República Checa. As línguas são assim, desarrumadas e pouco dadas a decretos.

(Aliás, são tão desarrumadas que até pode dar-se mesmo o caso de começarmos todos a falar dos Países Baixos no café... Nunca se sabe!)


Marco Neves | Escreve sobre línguas e outras viagens no blogue Certas Palavras. É autor da Gramática para Todos — O Português na Ponta da Língua.

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