A minha avó tem 85 anos de idade, a minha mãe fará 67 e eu 48. A minha mãe é especial. Tenho a certeza de que ela pensará o mesmo da sua. Eu tenho a certeza de que ambas são excepcionais.

Separam-nos gerações. Une-nos uma banda sonora de vida composta por histórias, sobretudo por pequenos episódios que reconhecemos à primeira e que podemos repetir à exaustão. As histórias da minha bisavó, mãe da minha avó, avó da minha mãe. Da tia Virgínia. Da tia Bia. Do primo Vasquinho. Da prima Madalena. Da praia e de determinado Natal.

A estas lembranças junta-se um certo riso, porque a comicidade na vida traz-nos cumplicidade. E rimos as três das mesmas coisas, no mesmo tom, com os mesmos gestos.

O que nos une ainda de maneira significativa é sermos mães. Trocamos histórias sobre os filhos, termos a certeza de que existe um entendimento tácito, sem grandes explicações. Todas sabemos que ter filhos é ter o coração fora do corpo, um coração que deixa de ser apenas um músculo e passa a ser um universo de extremos cuidados, incomparável, de absurda fragilidade, estonteante no amor que se sente, esse sentimento que está sempre a crescer, não diminui.

Somos mães.

Significa também que encaramos a vida com um certo heroísmo, porque as mães são dotadas de super poderes e são capazes do extraordinário. Na dor levantam-se e vão fazer; na tristeza arrancam sorrisos e gargalhadas; no cansaço conseguem manter-se horas de pé como se fossem árvores centenárias.

uma mãe, uma avó, uma filha, sabe que tem o colo, o consolo, garantido, por existir uma mãe, uma avó, uma filha que captam o que é invisível e estão disponíveis

Existe uma diferença por sermos três gerações de mulheres, aprendemos umas com as outras alguns segredos que são expressos apenas no feminino. Pode parecer-vos estranho, mas se uma de nós fosse homem, a teia que temos seria outra, igualmente forte, sem dúvida, mas distinta. Porque há uma corrente feminina que não sendo quantificável numa tabela científica, posso assegurar que existe.

Certos silêncios são feitos dessa compreensão imediata de que há alguma coisa a acontecer, como se não fossem precisas palavras e, nesse momento, uma mãe, uma avó, uma filha, sabe que tem o colo, o consolo, garantido, por existir uma mãe, uma avó, uma filha que captam o que é invisível e estão disponíveis. Com um olhar, um mero toque, afirmam categoricamente: estou aqui, o que precisas? E só esta pergunta, a ideia de que não estamos sozinhas, faz com que todos os dias sejam dias da mãe.

Patrícia Reis tem 48 anos, é jornalista e escritora, e mãe de dois rapazes de 18 e 22 anos.

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