Um cidadão ucraniano foi assassinado pelo Estado português pelas mãos, literalmente, daqueles inspectores do SEF. Ihor Homeniuk deixou a mulher e os filhos na Ucrânia e veio a Portugal a propósito de um possível trabalho. Tinha visto de turismo, mas a sua entrada no país foi recusada, sabe-se lá porquê.

E é mesmo “sabe-se lá porquê”, porque o SEF não esclareceu o motivo. Se calhar nem é coisa que importe. “Pessoal, este tem mau aspecto, olhem-me para aquele corte de cabelo mesmo à soviético… Hmm, suspeito. Metam-no salinha…e na linha! Ehehe Perceberam? Sou tão engraçado, f*da-se.”. O resto da história já se sabe. Foi espancado, foi torturado, até morrer. Representantes do Estado português assassinaram uma pessoa, um imigrante, um marido e um pai.

Só agora, 9 meses volvidos, é que o Estado falou com a viúva e deu verdadeira importância pública ao caso. O tio Marcelo é que não quis ligar à viúva, enquanto figura maior do Estado que assassinou Ihor, para não abrir excepções. Entende-se. Uma coisa é ligar à Cristina Ferreira, sua possível sucessora, a desejar-lhe boa sorte para o novo programa, porque isso é galhofeiro e dá popularidade. Ligar a uma senhora que está na Ucrânia já é mais chato, até porque é chamada internacional e fica mais caro. Se calhar até foi para poupar dinheiro dos contribuintes. Não nos poupou foi a este embaraço internacional.

Passamos a vida armados ao pingarelho, gritamos ao mundo que somos espectaculares na arte de bem receber, e depois não só esta barbárie acontece como demora 9 meses a haver uma resposta oficial minimamente digna. Diria que se isto é bem receber, deixamos um pouco a desejar. E mais, provavelmente se não fosse o incrível trabalho das jornalistas Fernanda Câncio, Joana Gorjão Henriques e Valentina Marcelino, que andam em cima do caso sem o largar desde o início, se calhar esta vergonha para qualquer Estado de Direito teria passado pelos pingos da chuva. Foi só mais um dia (todos os dias nestes 9 meses até agora, sendo que ainda não acabou) em que o jornalismo mostrou a sua tão grande importância na saúde das democracias, nestes tempos de pós-verdade em que é tão atacado e desvalorizado.

No meio disto tudo, ainda fico a pensar noutra coisa. Teria isto acontecido se um cidadão ucraniano tivesse aparecido de fato e gravata da Armani, em vez de roupa normalíssima? Se tivesse vindo comprar um apartamento de luxo no Chiado em vez de procurar trabalho? Teria sido parado? Espancado? Morto? E se tivesse sido, haveria este desprezo do Estado durante tanto tempo? Estou a especular, bem sei. Mas quase certo de que nada disto teria acontecido.

Seja como for, isto é tudo uma tristeza. A vida do Ihor. A dor da mulher e dos filhos. A vergonha nacional que nos deve deixar a todos embaraçados, e a querer exigir que nunca mais nada do género se volte a repetir. E para começar, Cabrita no governo tem de acabar.

Sugestões mais ou menos culturais que, no caso de não valerem a pena, vos permitem vir insultar-me e cobrar-me uma jola:

- Tiny Desk NPR: dos canais de música no YouTube que mais vejo. Vale muito a pena.

- Your Honor: nova séria com Brian Cranston, para ver na HBO

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