A turbulência com os “gilets jaunes” (coletes amarelos) em França foi o primeiro alerta estridente, depois muitos outros em diferentes latitudes: o Estado, também nas democracias liberais ocidentais, está sem canais políticos e institucionais para dialogar com cidadãos que deixaram de se sentir representados por partidos, sindicatos, parlamentos e governos. Tal como em regimes fechados, o Estado, em vez de negociar, manda a polícia anti-distúrbios ou até o exército para reprimir a revolta.

Tudo deflagrou há exatamente um ano com o anúncio pelo governo francês de uma taxa, dita ecológica, sobre os carburantes, que fez aumentar o preço dos combustíveis nas bombas. O ressentimento que já crescia entre classes mais desfavorecidas explodiu em protestos de rua que têm chegado a expressões violentas. O governo francês tentou apaziguar a revolta com medidas compensatórias, mas não há diálogo e a crise subsiste, ainda que em fase estagnada.

Em Barcelona, o rastilho próximo foi a condenação, com penas pesadas, pelo Supremo Tribunal de Madrid, de nove dirigentes independentistas que já estavam presos vai para dois anos, e que se declaram presos políticos. Em fundo, a frustração da base independentista catalã pela total recusa de qualquer negociação ou sequer diálogo por parte da potência espanhola – os catalães evocam a atitude bem diferente do Reino Unido perante a Escócia ou do Canadá com o Québec. As manifestações que antes eram pacíficas degeneraram em confrontos violentos entre manifestantes radicais apostados em formas de guerrilha urbana e as forças da ordem. A crise é perigosa e está para durar.

Em Beirute, o detonador da tomada das ruas por uma multidão maioritariamente formada por jovens foi o anúncio de uma taxa sobre as comunicações feitas através da aplicação WhatsApp. Esta taxa pôs em brasa o protesto que já fervilhava contra a corrupção instalada nos sistemas de poder, os baixos salários, o desemprego e a degradação dos serviços públicos. A taxa WhatsApp foi anulada, o governo prometeu reformas e apoios à população mais necessitada, mas quem saiu à rua para protestar sente que assim ganhou poder e quer mais.

Em Santiago do Chile, o levantamento popular disparou com o anúncio do aumento de preço do bilhete de metro, que passava de 800 para 830 euro – passaria a custar 1,04 euro. O presidente Piñera (conservador, de direita) chegou a declarar o país em estado de guerra, decretou o recolher obrigatório em várias regiões e pôs a tropa nas ruas. O aumento de preços foi anulado e o governo anunciou aumentos do salário mínimo e das reformas. Mas a revolta popular contra as elites, apesar de acalmada, continua. 

Em Hong Kong, está em causa a defesa de direitos democráticos. O protesto, que sai à rua todos os domingos desde 28 de abril, foca-se numa proposta do governo local de alteração à lei da extradição, o que evidencia reforço do controlo de Pequim e aceleração da implantação em Hong Kong do modelo de liberdades limitadas da República Popular da China. A proposta de lei foi retirada, o governo de Hong Kong anunciou medidas de apoio aos estudantes, mas a luta não sai das ruas em oposição à presença cada vez mais forte do regime de Pequim num território com tradição liberal, democrática.

No Haiti, sucedem-se protestos contra o aumento de preço dos combustíveis.

No Equador, também a alta de preço da gasolina e gasóleo.

Na Venezuela, o povo exausto luta como pode contra a crise económica, social e política sem precedentes. O país está dividido entre os que estão em vota do regime de Maduro e os que o detestam. Nenhum diálogo.

No Cairo, é contestação ao autoritarismo do presidente Abdel al-Sissi.

Portugal teve na rua os motoristas de camiões transportadores de matérias perigosas. Fora do enquadramento de sindicatos tradicionais.

Há uma realidade inquestionável: a democracia não funciona se na cabeça dos cidadãos não existe algum sinal de confiança nas instituições e nos dirigentes eleitos. Tudo fica pior quando se instala a noção de que a corrupção está a dominar o sistema de poder no Estado.

É assim que os movimentos de protesto estão a escapar a partidos e sindicatos. Ao serem classificados como populistas, cresce a estigmatização e levantam-se barricadas onde deveria haver diálogo.

As democracias não estão a saber resolver a frustração e o mal-estar profundo de tantas gerações que se sentem excluídas.

A TER EM CONTA:

Os partidos independentistas da Catalunha preparam-se para conquistar a maioria dos 48 lugares catalães entre os 350 deputados no parlamento espanhol a eleger daqui a 12 dias. O resultado das eleições gerais de 10 de novembro parece cada vez mais incerto, tudo pode acontecer.

O meio mundo que ainda não consegue estar online.

O regresso de David Attenborough, agora com “Seven Worlds, One Planet”.

Uma primeira página escolhida hoje.

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