O convite para participar no programa surgiu numa daquelas alturas em que a atenção (tal como o medo em Hélio Imaginário) não nos assiste. Parece que era um debate sobre música portuguesa, ou coisa do género. Tão ténue e indebatível me parecia a premissa que, entre o sadismo e a distracção, aceitei ir ver onde se andavam a meter. Deram-me lugar na fila da frente e, entre amigos, colegas e outros ilustres, ainda estou para perceber o que foi aquilo a que assisti. Talvez a distracção não me tenha abandonado até lá, e aqui vos traga nada mais que uma crónica distraída. Se vos parecer estranho e inconclusivo o que vou escrever, então consegui transmitir os meus sentimentos de forma perfeita.

Para ainda mais pisar o risco, desenvolvo o tema numa lista (encarnando um jornalista da Vice que foi despedido por estar viciado no Buzzfeed) onde saliento 10 conclusões que ainda consegui retirar desta noite de segunda-feira.

1 – A primeira estranheza que me assolou nisto tudo foi ter chegado mais rapidamente à bancada do Prós e Contras do que à bancada do Preço Certo. São dois programas que já se tornaram instituições da RTP, mas sempre julguei que o meu caminho natural estaria sempre mais próximo dum Fernando Mendes que duma Fátima Campos Ferreira. Não se trata de qualquer piada forçada, é rigorosamente verdade: há muitos anos que, com alguns amigos, fantasio uma ida ao Preço Certo. Estar na bancada a berrar preços aleatórios, levar um saco de enchidos e galhardetes para oferecer, trazer connosco um velhinho que toque acordeão e uma velhinha que faça versos repletos de anástrofes – sonho com tudo isto. Nada no Prós e Contras me entusiasma tanto quanto uma palavra que rime com Lenka.

2 – Ainda não cheguei aos 40 mas tenho rezinguices de octogenário: ocasionalmente ainda penso em escudos; ainda escrevo ao abrigo do acordo ortográfico de 1945; ainda penso em Fátima Matos Lima quando vejo a Fátima Campos Ferreira.

3 – Eu queria ser do contra. A Fundação Champalimaud, onde decorre o programa Prós e Contras, está junto ao Tejo - tal como a minha casa, só que fica num extremo oposto da cidade de Lisboa. Eram 21h15 quando saí do meu prédio e 21h50 quando consegui chegar ao destino. A maquilhagem teve de ser aplicada mal e parcamente - pelo adiantado da hora e pela forma como a minha respiração esbaforida soprava, pelas narinas, o pó com que me iam pincelando a cara. Entre as 21h15 e as 21h50, já noite e quase já Verão, apanhei trânsito por causa de molengas, e molenguice por causa de obras na via. Não era suposto Lisboa ainda estar assim àquela hora, nem assim nesta altura do ano, o que me fez entrar num programa de Prós e Contras a querer ser do lado do contra. Mas não havia essa opção, então quis ser do hip hop. Quis ainda que a minha urna de voto nas próximas autárquicas fosse uma urna funerária.

4 – A primeira parte do programa desenrolou-se de uma forma que simultaneamente me sossegou e inquietou. Não sou um seguidor assíduo do Prós e Contras, mas pensava ter uma noção razoável dos temas que por lá desfilam - supostamente os grandes assuntos da actualidade, ou da humanidade, ou as questões fracturantes mais prementes. “O Estado da Cultura”, “A Justiça em Portugal”, “A Eutanásia” ou... “O Festival da Canção”. Suspeitar que o tema seria “O Festival da Canção” serenou-me, porque é um assunto finito, porque tem adeptos e adversários e, sobretudo, porque justificava a minha presença ali, tendo em conta que estive envolvido no certame deste ano. O que me inquietou (para além de perceber que o programa, afinal, não estava só destinado aos grandes temas) foi constatar que o interesse na música portuguesa pode partir dum concurso de música para o qual ninguém tinha interesse.

4.1 - Estou longe de não gostar do Festival da Eurovisão da Canção, mas quer a sua relevância quer a sua irrelevância actuais parecem-me andar longe desse grande tema que é a Música. A decadência musical das edições recentes, e o consequente desinteresse por ela gerados, ainda mais me fazem gostar do genuíno connaisseur dos festivais que é o Nuno Galopim: primeiro, pela luz histórica e política com que consubstancia o seu conhecimento; segundo, porque a recente impopularidade da Eurovisão fez com que este seu inteligente cultor estivesse, de facto, em torno de algo com as características restritas dum culto; terceiro, porque o sebastianismo do Galopim - ao acreditar que a Eurovisão ainda pode parir boas canções - não só tem justificação histórica, como o torna uma das pessoas mais digna de parabéns em 2017.

4.2 – A vitória do Salvador Sobral levou alguma gente a considerar que era o acordar dum gigante adormecido. Nada mais errado. Se há coisa que a Eurovisão tem vindo a fazer é a agigantar-se em acessórios e pirotecnias, e está longe do adormecimento: é uma chinfrineira de mulheres barbudas, estridores inglesados e coreografias chungosas de boy band. A grande inteligência da RTP demonstrou-se na sedição, no não querer prestar vassalagem ao tal gigantone das fórmulas estapafúrdias. Em vez de irmos para lá fazer mais barulho, levámos quem conseguisse adormecer, e depor, o irritante mostrengo festivaleiro. Foi muito maior o prestígio que o Salvador deu à Eurovisão do que aquele que o Salvador recebeu. Uma belíssima canção, bem escrita numa belíssima língua, faz com que o verdadeiro ganhador seja a Eurovisão – foi praticamente essa a minha única intervenção no Prós e Contras, isto se não contarmos as inadvertidas caras de enfado e apatia que deixei escapar, e que me valeram as seguintes sms: “Acorda!” ou “ Estás com umas trombas! ÂNIMO, rapaz”.

5 - O som imperceptível que o Carlos do Carmo faz antes de falar - tanto no juntar das mãos, como na serena aspiração de ar – já merecia outro Grammy .

6 - A justificação que o Carlos do Carmo deu para se ter desligado do Festival foi “Gosto mais de música”. Eu tinha dito que queria representar o hip hop, mas o Original Gangster é o Carlos do Carmo. Deal With it.

7 – Fátima Campos Ferreira ignorou a acentuação do meu nome. Chamou-me “Uria” um par de vezes, o que até achei sensato. Alguém que se dedica aos grandes temas (“a descriminalização do aborto”, “a crise económica”, “o aquecimento global”, “o Festival da Canção”) não deve perder tempo a conhecer artistas marginais como eu. Mas depois a mesma Fátima Campos Ferreira (ou seria a Fátima Matos Lima?) perguntou ao Miguel Araújo porque é que ele canta em inglês; desconhecer um artista que no ano passado encheu 500 coliseus com o comparsa Zambujo é uma falha grave para qualquer jornalista. Já imagino a Fátima a perguntar ao Éder se ele tem o sonho de um dia jogar futebol – pergunta que, com veneno à mistura, não seria assim tão descabida.

8 – A imodéstia do José Cid é, ao contrário do que sucede com a maioria das pessoas, uma qualidade inestimável. Poucos em Portugal têm a capacidade do Cid de fazer canções para todos e para sempre, e isso advém da confiança com que escreve, com que canta e com que se apregoa. Cid tem a humildade de não ser humilde; coisa rara. Neste Prós e Contras, até assumiu que o rumo kitsch do Festival da Canção e da Eurovisão é responsabilidade sua. Disse José Cid que a cantiga “Um grande, grande amor” (mais conhecida pelo refrão “Addio, adieu, auf wiedersehen, goodbye”) terá influenciado todos os países concorrentes da Eurovisão nesse ano, marcando assim o rumo descendente e fastfoodiano dos Festivais até ao dia de hoje. Claro que o José se esqueceu que o Tony Carreira participou mais do que uma vez no Festival da Canção; lembrando-se, não tinha assumido responsabilidade alguma.

9 – Para quem não viu o programa, diria que uma das raras constatações importantes, e que subscrevo na totalidade, saiu da boca do Tozé Brito. Ele explicou a receita tanto para a desenvoltura como para a personalidade da música brasileira. Recomendo que vejam, até porque mete o rei Roberto Carlos ao barulho. Diria que em Portugal temos ingredientes para a mesma receita, mas ainda somos aristocratas com pejo de ir à horta. Um país que desconsidera a sua música ligeira é um país com um fardo pesado.

10 – O Ricardo Ribeiro enfatizou a maior dúvida, do que seria afinal isto da música portuguesa. Não difere muito da minha própria dúvida, aquela que tive enquanto estava parado no trânsito em direcção à Fundação Champalimaud: “o que é que eu vou para ali fazer?”. A julgar pelas reacções zangadas de colegas meus nas redes sociais, só me resta pensar em duas formas pacíficas de representar a música portuguesa naquele programa. Ou punham lá todos os intérpretes e compositores nacionais, ou não punham lá nenhum. Optou-se pelo meio termo. Optou-se também por um fio condutor mais emaranhado que o dos auscultadores que trago no bolso. Pelo menos chegou-se a bom porto: aos créditos finais.

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