O que o primeiro-ministro anunciou ontem como solução para o resto do ano escolar é fraquinho. As medidas comunicadas ao país são elementares, pouco ambiciosas e nada inspiradoras.

Recuo cinco anos (ou quase). Em Setembro de 2015, António Costa recuperou, num comício em Faro, a ideia da paixão pela educação, defendida por António Guterres em 1995, quando foi eleito primeiro-ministro.

"É hora de voltarmos a dizer, como dissemos há 20 anos, que a educação tem que ser de novo uma paixão deste país, e é necessário investir na nossa educação", afirmou então.

Mas hoje, cinco anos depois, as medidas anunciadas são mornas em vez de arrebatas. O que foi feito ao longo deste tempo para fortalecer o sistema de ensino, para, usando uma palavra tão em voga, o imunizar a situações como a que atravessamos? A realidade mostra que estamos tão impreparados para enfrentar obstáculos agora como antes.

Eu esperava mais. Os meus filhos também. Dois deles, aliás, frequentam o 9.º ano e, mesmo o que viu os exames serem cancelados, ficou desapontado. As dúvidas que, aqui e ali, foram levantando ao longo destes dias - que não foram muitas, como é de esperar de miúdos que acabaram de fazer 15 anos e têm mais em que pensar - não foram respondidas. As minhas também não.

Não digo que a culpa seja inteiramente deste governo, afinal, há já uns bons anos que o sistema educativo português vive numa reforma permanente - a oposição, a quem compete sugerir alternativas, também devia ter equipas a estudar o assunto. Mas não deixa de ser extraordinário que a telescola, com emissões regulares entre 1965 e 1987, seja agora a solução mais corajosa, assumindo que é possível dispensar professores e investir no YouTube ou em qualquer outra plataforma digital.

Uma coisa posso dizer com segurança: a diferença entre o ensino privado e o público é abissal. E isto nota-se em tudo - exigência, comunicação e dedicação - mais ainda desde que foi declarada a pandemia, mas mesmo quando se julgava tratar-se de um surto circunscrito.

O resultado é que o que frequenta o ensino privado (porque, por mérito seu, ganhou uma bolsa de estudo) está mais descontraído. O que frequenta o ensino público está mais angustiado. O primeiro tem mais certezas sobre o futuro, o segundo tem mais receios.

A paixão já não é o que era, concluo.

Desabafo: não sei se é comezinho, mas não pude deixar de notar, na conferência de imprensa da Direcção-Geral da Saúde de 7 de Abril, que o subdirector-geral diz "mantânhamos", transformando uma palavra grave em esdrúxula, e “póssamos”, em vez de possamos, vezes a fio. Também António Costa, quando ontem comunicou as medidas adoptadas para o final do ano lectivo, disse "áctividades", "quiápresente" e "capoia", só nos primeiros minutos. Como dizem os meus filhos: será que foram infectados pelo vírus da pronúncia (fonética)?

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