Dos Estados Unidos da América para o mundo, a esperança por mais igualdade foi chegando. Em Portugal, a ideia de reivindicar a igualdade nos direitos, nas liberdades e na dignidade deu início à primeira Marcha do Orgulho LGBTI em 2000 – marca-se agora a vigésima edição.

Temos visto, de facto, muitos avanços nesta matéria de direitos humanos em Portugal. A descriminalização da homossexualidade aconteceu em 1982, seguindo-se a união de facto entre pessoas do mesmo sexo em 2001. O casamento civil é uma realidade conquistada em 2010 e a adoção e apadrinhamento em 2015.

O caminho feito foi muito maior que a soma dos quilómetros percorridos em todas as marchas. Em Portugal e no mundo, a crescente visibilidade de uma luta materializou-se em direitos, passo a passo. 

No entanto, o mundo mostra-nos que é preciso continuar a marchar, pois ainda há caminho a fazer. Pela justiça. Pela dignidade. Pelo exemplo de Stonewall, onde nasceu o moderno movimento pelos direitos LGBTI+.

Recuemos até 1969. Pessoas que divergiam do padrão social heteronormativo da época (e.g., gays, lésbicas, bissexuais, “trans”, entre outras) eram perseguidas, agredidas e até presas nos Estados Unidos da América. A intolerância musculada e implacável, muitas vezes, vestia a farda da polícia, que tinha o hábito de entrar em bares e identificar os presentes, especialmente quem vestia roupas do género oposto. Só que no dia 28 de junho desse ano houve quem dissesse “não”.

Da resistência fez-se união, dentro e fora do bar Stonewall Inn. E da união surgiu um protesto, que durou quatro dias, até à total desmobilização dos manifestantes.

Este grito contra a discriminação, ouvido há 50 anos, deve ecoar ainda hoje. Porque no mundo há 70 países que continuam a criminalizar a homossexualidade. Porque os EUA não permitem que pessoas “trans” integrem as Forças Armadas. Porque a Turquia proibiu a realização das Marchas do Orgulho Gay. Porque o Reino Unido foi palco de uma agressão bárbara a um casal de mulheres, após terem sido assediadas por um grupo de homens. Porque a Indonésia continua a deter e humilhar, publicamente, a comunidade LGBTI. Porque na Tchetchénia se continua a torturar e mesmo matar homens identificados como sendo homossexuais. Mesmo em Portugal, há preconceito e discriminação – ainda que, muitas vezes, disfarçados ou dissimulados.

É preciso continuar a lutar, porque os direitos, a liberdade e a igualdade não estão garantidos. Mais: recorrentemente, esquecemo-nos de que é tão fácil perdê-los, como tem acontecido com retrocessos cíclicos em vários países do mundo.

Mas há também caminho a fazer em muitas outras frentes, tão diversas quanto as pessoas que constituem todas as comunidades LGBTI+. Por exemplo, nos direitos das pessoas “trans” e intersexo e no acesso à saúde e tratamentos de forma transversal e ubíqua em todo o país. 

Para além disso, em momentos como estes, que celebram e relembram episódios marcantes de muita visibilidade pública, devemos recordar que marchamos não só para mudar leis, mas também para consciencializar. Porque no que respeita à igualdade e dignidade da comunidade LGBTI, a legislação é um passo importante, mas para um mundo livre de discriminação e preconceito é preciso mudar mentalidades e culturas, com foco na educação.

Não há como negar. É necessária mais e melhor educação para uma cidadania cuidada e esclarecida, sem preconceitos e, principalmente, contra os preconceitos. Em alguns locais de Portugal, um jovem “contar” que é gay ou transgénero ainda é motivo de discriminação ou de “piadinhas”. E as “piadinhas” são a manifestação do latente preconceito, hostilidade e, em muitos casos, início de práticas degradantes e traumatizantes de bullying, que levam a inseguranças, afastamento, depressões, distúrbios, ou mesmo ao suicídio.

A isto, algumas pessoas responderão que “a situação está melhor”. Ao que respondemos que “não está bem” enquanto um jovem sequer se sinta excluído ou sinta que “não é normal”. Esse jovem é a pessoa que nos lembra que não fizemos os possíveis para que todos, independentemente do local onde nasceram, tenham o direito a ser felizes. E nos direitos humanos não queremos “estar melhor”, queremos o seu cumprimento em absoluto.

É por isso essencial irmos para a rua e mostrarmos que queremos esse mundo mais igualitário e justo para todos e todas. Seja em Lisboa, no Porto, em Aveiro ou em qualquer outra das muitas cidades em que já se organiza a “Marcha” – ou eventos similares –, é importante participar. As marchas não são apenas para a comunidade LGBTI+. Na verdade, o “+” inclui todas as pessoas que acreditam nesse mundo em que ninguém sente discriminação ou preconceito por “ser”.

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