Susan Sontag, pensadora norte-americana, académica, ensaísta, romancista, escreveu muito sobre a doença, a impotência e o sentimento de combate (sobreviveu a um cancro, morreu por causa de um segundo). Dizia ela que temos dupla cidadania, somos cidadãos da saúde e somos cidadãos da doença. Quando o corpo nos atraiçoa e somos confrontados com algo que não controlamos, que está dentro de nós, que apresenta - ou não - sintomas, percorremos a via da surpresa, do choque, do medo e, muitas vezes, da vitimização que deriva também desse receio imenso de sermos, afinais, mortais. Ninguém gosta da ideia da morte, já se sabe, mas também ninguém aprecia realmente a possibilidade real de se ver dependente de alguém para fazer a vida. A doença diminui. Não nos dá nada de positivo e, no caso do cancro, há ainda o estigma de se ficar a viver no fio muito ténue de se ser, durante uma vida inteira, sobrevivente desse mal.
Cancro é uma palavra que mete medo. E não é um exclusivo da idade, não prefere homens em detrimento de mulheres, adultos em detrimento de crianças. Existe. Pode bater à porta a qualquer momento e virar-nos a vida do avesso. Seria, portanto, natural que a notícia da descoberta de uma célula capaz de eliminar outras células cancerígenas fosse notícia de abertura de telejornal nas diferentes estações ou de honras de primeira página nos jornais. Não é.
A notícia, a que eu li, surgiu em jornais ingleses e diz que na Universidade de Cardiff, por mero acaso, aqueles acasos que permitem tantas vezes o avanço da ciência e da medicina, foi detectada uma célula capaz de eliminar outras que são responsáveis por cancro de mama, da próstata, entre outros. Só foram feitos testes em animais até ao momento, mas os investigadores estão animados. Eu fiquei delirante, como fico sempre que percebo que há avanços. Não sou pessimista e, assim, a opção pela alegria é sempre a mais simples. Comentei este avanço com várias pessoas e assisti a discursos pouco crédulos, pessoas que viveram por perto situações relacionadas com cancro, porque foram vítimas, porque tiveram familiares próximos doentes e que acompanharam durante protocolos médicos muito duros, e que me disseram simplesmente: "Ah, isso não vai acontecer tão cedo, até chegarem aos seres humanos, isso vai levar anos, e o cancro também é um negócio".
E então começo com conversas longas sobre o negócio da saúde, das farmacêuticas, dos investigadores, do que é ou não libertado para a esfera pública e, confesso-vos, desmoralizei. E eu, optimista confessa, não desmoralizo com facilidade. A pergunta é: se os avanços existem não será de acelerar o processo e salvar vidas? Não é o propósito da medicina? A resposta óbvia é: sim. A resposta menos óbvia é que talvez não dê jeito. Como não dá jeito acabar com as guerras, com os materiais de guerra. Pobre ser, o humano, que para dar dois passos em frente, precisa de dar três para trás. As estatísticas mostram números avassaladores, o cancro existe e surge na vida das pessoas com um maior grau de probabilidade. Somos cada vez mais cidadãos do mundo da doença e cada vez menos da vida saudável, pura, limpa de complicações. E não pressionamos o suficiente para que os avanços na investigação passem a actos concretos com reflexo na vida das pessoas. Fazemos notícias tímidas dos avanços da investigação  e, na maioria das vezes, continuamos a vida sem pensar muito nisto. Quando o corpo nos trai, a conversa é outra.

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