A essa hora, Donald Trump já terá viajado pela última vez no Air Force One, numa fuga para a Florida. Já terá deixado definitivamente de ter poder presidencial para provocar instabilidade institucional, para criar mau ambiente internacional e para propagar a grande quantidade de mentiras e ignomínias que espalhou nos quatro anos em que pôde envenenar no abrigo da Casa Branca.

O clima político, moral, social, económico e cultural dos EUA vai de imediato sentir forte desanuviamento. Vamos saber logo nos primeiros dias de medidas para anular e corrigir decisões desajustadas ou desastrosas de Trump. A nova presidência já anunciou intensa ofensiva legislativa imediata: covid, clima, economia, emigrantes são prioridades, com a reconciliação e a tolerância em fundo.

Biden vai recorrer à figura das “ordens executivas” como símbolo dessa vontade vigorosa de ação – também a apagar o legado de Trump. Vai ser muito visível na imediata regularização da situação legal de uns 11 milhões de migrantes sem papéis.

“America is Back” é a mensagem essencial que o presidente Biden vai querer passar logo nesta quarta-feira em modo reforçado.

A nova presidência assume a liderança num momento com enquadramento tremendo: mais de 4 mil mortos por dia pela mais devastadora pandemia do último século, a crise económica e social decorrente, com dimensão que ninguém tem na memória e ainda por cima a insurreição de tanta gente que se deixou levar pelas mentiras repetidas por Trump.

A presidência Biden/Kamala beneficiou de um prémio suplementar com a eleição senatorial de 5 de janeiro no estado da Georgia: tem maioria nas duas câmaras. Ao dispor de maioria no Congresso desaparecem os bloqueios que tanto debilitaram o segundo mandato de Obama. A nova presidência tem margem para concretizar as propostas, não tem alibi para falhar. Acresce que Biden tem bom relacionamento com dirigentes de topo do Partido Republicano do tempo de antes de Trump – é gente que provavelmente vai recuperar influência. O American Rescue Plan é um plano robusto e promissor de recuperação e de luta contra as desigualdades que a pandemia agravou.

Vamos, logo nos primeiros dias ver gestos amigáveis de Biden, atlantista próximo da Velha Europa, à comunidade internacional. Os EUA vão reentrar imediatamente no acordo de Paris sobre a luta contra as alterações climáticas. A transição energética é um tema que vai rapidamente impor-se na agenda.

A nova presidência também vai já de seguida cancelar a retirada dos EUA da Organização Mundial de Saúde e vai revigorar a participação dos EUA na NATO, tal como em todas as organizações internacionais.
Um acontecimento relevante, resta saber se mais do que simbólico vai ser a “Cimeira das Democracias” que Biden já propôs.

A nova administração americana vai estar muito atenta ao esforço de fuga para a frente do eixo Ásia-Pacífico. Joga-se ali muito do futuro, especialmente o tecnológico, do mundo.

Vão provavelmente ser complexos, com diplomacia robusta do secretário de Estado Anthony Blinken, os relacionamentos de Washington quer com a Pequim (objetivo principal: nova estratégia de contenção da China como potência global) quer com Moscovo onde Putin despreza a visão liberal e plural da democracia.
O tema dos Direitos Humanos vai recuperar destaque na agenda americana.

Há que contar com muita tensão interna nos Estados Unidos. As políticas de identidade, pelouro para a vice Kamala, à medida que avancem vão inflamar ainda mais o campo que fica órfão de Trump. Não há vacina de efeito imediato contra a pandemia de ódio.

As notícias da América vão continuar a trazer-nos o processo a Trump. A nova presidência vai querer afastar-se do tema de modo expeditivo. O tempo de Trump acabou. Talvez haja um prolongamento, mas apenas judicial, para juízo final de abusos à democracia como sistema político de referência.
A civilização, com virtudes e erros, está de volta.

A TER EM CONTA:

Alexei Navalny, cinco meses depois de ter vítima de uma tentativa de assassinato por envenenamento, voltou a Moscovo e, como seria de calcular, foi imediatamente detido. Está aqui uma potencial crise imediata na relação da América de Biden com a Rússia de Putin.

Como vai ser a quarta-feira inaugural da presidência Biden/Kamala.

O tempo que já passou. Ainda uma memória visual do último ano na era de Trump.

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