Todos os tantos que estremecidos e atónitos vimos em direto a atrocidade daquele dia, sentimos que a nossa ordem no mundo real dos seres humanos passava a estar tomada por um monstro terrorista como aqueles que gente com imaginação audaz tinha ficcionado em filmes de terror e catástrofe.

Naquela terça-feira, 11 de setembro de 2001, vivemos uma impensável experiência emocional, percebemos que um profundo desassossego abstrato passava a submeter drasticamente a nossa vida, em forma de ameaça terrorista. Naquele dia entendemos que, afinal, a superpotência americana também é frágil e vulnerável a ataque em massacre. Era o fim de um tempo da vida no mundo.

Tudo começou quando era em Portugal hora do almoço daquele dia. Nos ecrãs dos televisores que estavam ligados em cafés, restaurantes e cantinas por toda a parte, o ritual dos telejornais da uma da tarde corria como sempre perante olhares fugazes por entre conversas à mesa da refeição.

Subitamente, em cima das 2 da tarde, as atenções foram atraídas pelo espanto com aquelas imagens de uma das emblemáticas Torres Gémeas a fumegar com sinais de fogo em vários andares altos (entre o piso 93 e o 99). Foi logo dito: porque um avião tinha chocado com o edifício. Teria sido uma avioneta? Um acidente?

Quando nos foi dito no relato em direto que aquele inexplicável choque de um avião com a Torre Norte do World Trade Center (WTC), numa manhã de sol azul imaculado em Nova Iorque, envolvia um Boeing 767 da American Airlines com passageiros (viemos a saber que com 92 pessoas a bordo, incluindo cinco terroristas), bruscamente surgiu o sobressalto com uma outra sucessão de imagens: via-se um outro Boeing em movimento de curva em voo e logo a seguir a chocar com a outra das Torres Gémeas e a encastrar-se em pisos altos (entre o 77 e o 85).

Quem imaginou que a colisão com a primeira torre tinha sido acidente, após esta segunda brutal colisão (outro Boeing 767, este da United, 65 pessoas a bordo, cinco terroristas) no espaço de 17 minutos (8:46, 9:03) passou a ter a certeza de que estávamos perante um ataque terrorista. A confusão e angústia tornou-se máxima. Percebemos que estávamos a assistir em direto ao início de uma nova era de guerra. Com esta inovação: aviões como mísseis com alto poder de devastação.

As televisões portuguesas, como as de todo o mundo, entraram em non-stop a mostrar o que se podia ver do ataque em curso no centro do mundo que tínhamos como o mais poderoso.

Ficámos confrontados com a dimensão humana da tragédia naqueles edifícios onde trabalham umas 15 mil pessoas: quantas teriam morrido? Quantas estariam em terrível sofrimento? Quantas estariam a morrer? Logo naqueles primeiros minutos começou a falar-se no risco de colapso das duas torres que estavam fumegantes.

A angústia de todos nós disparou para níveis ainda mais altos quando se soube que, depois dos ataques aos edifícios de Nova Iorque que são símbolo principal do poder financeiro dos EUA, menos de uma hora depois, também estava a ser atacado o Pentágono, centro do comando militar dos exércitos da primeira potência mundial. O método foi sempre o mesmo: avião de passageiros contra o edifício. Neste ataque foi usado um Boeing 757 da American Airlines.

Ficou imediatamente assumido que estava em curso um destrutivo ataque em larga escala contra a essência da civilização política ocidental.

Ainda estavam por identificar os autores deste ataque sem precedentes quando se soube que um quarto Boeing, um 757 da United, também assaltado, se tinha despenhado sobre uma floresta da Pensilvânia. Os terroristas planeavam atirar este avião contra um centro do poder político em Washington, o edifício do Capitólio ou o da Casa Branca.

Uma hora e 13 minutos depois deste pesadelo ter começado, assistimos, aterrados, ao tremendo desmoronamento, em poucos segundos, da Torre Sul do WTC, eram 9:59 em Nova Iorque (14:59 em Portugal). Passados 29 minutos, o colapso tornou-se total com a queda também da Torre Norte.

Era evidente que muita gente tinha ficado sepultada no imenso destroço daquelas duas torres. Tínhamos percebido que algumas pessoas no desespero do braseiro que antecedeu o colapso decidiram não esperar mais pelo fim e atiraram o corpo por alguma janela.

Passadas duas horas sobre o início do incontrolável pesadelo daquele dia de infâmia, para além da dor pela certeza da morte de tantas mulheres e homens, a angústia também era a de desconhecer o que viria a seguir.

Viemos mais tarde a saber que os ataques-suicidas em cadeia e desencadeados naquele dia por 19 terroristas da rede Al-Qaeda que tomaram quatro aviões como arma de devastação causaram 2977 mortos (mais de 60% dos corpos nunca identificados, estas são vítimas de quem nunca foi encontrado qualquer vestígio do corpo) e 6291 feridos. Sabe-se que 343 eram bombeiros e 60 eram polícias que tinham acorrido ao WTC para ajudar a salvar vidas.

Mas há nestes 20 anos centenas de mortes posteriores (não foi só cancro pelo contacto com matéria cancerígena, a depressão é uma dor que também mata) diretamente resultantes daquele dia 11 de setembro de 2001.

O mundo mudou nestes 20 anos após aquele dia.

O Afeganistão foi tomado pelos americanos com os aliados ocidentais. A intenção proclamada era a de eliminar as bases terroristas no país e instalar os alicerces de um Estado democrático.

O Iraque foi invadido em 2003, com mentiras sobre armas de destruição maciça usadas como pretexto. Falamos muito das fake news de Trump, mas não podemos ignorar este embuste em propaganda para derrubar Saddam (que nada tinha a ver com a Al-Qaeda) e que fez do Iraque um campo de morte, santuário para terroristas e mais um país sem Estado. A prestigiada revista Lancet recorre a dados médicos para estimar que 600 mil civis terão morrido neste Iraque mergulhado em guerra civil sectária, protagonizada à cabeça pela parte sunita (Arábia Saudita) e pela xiita (Irão). Deste caos nasceu o ISIS/Estado Islâmico, com terror herdeiro do da Al-Qaeda, que conquistou terreno no Iraque e na Síria.

Mais de 50% da população síria teve de fugir. Está deslocada ou refugiada.

Na Líbia, a selvagem execução de Kadafi fez deste país um pátio para mafiosos traficantes de tudo, de pessoas, de migrantes, de armas, de petróleo e do que mais calha. Impera a corrupção e a violência.

O criador da Al-Qaeda, Osama bin Laden, passados 10 anos (em 1 de maio de 2011), foi morto numa operação em terra paquistanesa de forças especiais dos EUA. Mas a Al-Qaeda continua viva e inspirou o surgimento do ISIS ou Estado Islâmico, com várias variantes do vírus terrorista que usam uma interpretação radical do Islão como instrumento de recrutamento e de poder.

Essas complexas e polimorfas redes de terror inspiradas na Al-Qaeda estenderam tentáculos no mapa geográfico e causaram neste tempo massacres, com muitas centenas de mortes, em Madrid, Paris, Nice, Bali, Bruxelas, Londres, Tunis e em tantos outros lugares.

Da África Central ao Iémene, do Cáucaso ao norte de Moçambique, o cancro terrorista metastiza-se em modo contínuo.
A resposta devida ao massacre naquele dia está cheia de erros. O Afeganistão foi o palco do primeiro contra-ataque militar na resposta política e cultural ao 11 de Setembro. A evidência hoje é a de que o Afeganistão é uma terra incompatível com qualquer forma de democracia organizada com civilidade e com a noção de Estado de Direito.

A liderança dos EUA, passados estes 20 anos a tentar exportar para o Afeganistão esse modelo democrático, abdicou. Com esta fuga americana de Cabul, a fronteira da segurança europeia recuou. A Europa, no mundo que já tinha saído da velha ordem bipolar, parece não ter voz forte para a renegociação dos novos equilíbrios mundiais. Cresce o espaço da Turquia, também do Irão. China e Rússia ganham território para estender influência. O Qatar aparece como nova placa giratória para a diplomacia.

Vinte anos depois daquele dia 11 de setembro cresceu muito a distância entre o Ocidente que se deixou corroer com discursos de intolerância e xenófobos, e parte do mundo islâmico onde o fanatismo cresceu e onde, para muitos, somos a causa do problema.

Se a guerra antiterrorista era mesmo uma guerra, parece perdida. Os erros acumulados debilitam os EUA e os aliados ocidentais. O desmantelamento do Iraque é uma catástrofe. Tal como o da Líbia. O horror de Abu Ghraib, a cadeia iraquiana usada por soldados americanos para torturar e vexar presos com imagens desses abusos colocadas nas redes sociais, atiçou ódios no outro lado. A criação de campos de exceção legal como Guantanamo, onde suspeitos enfrentaram, sem acusação, a detenção por tempo indefinido, também. São demasiados erros.

A limitação das liberdades e direitos individuais decididas pelos EUA e por vários outros países ocidentais é uma prenda oferecida aos terroristas: a erosão das liberdades e dos valores ocidentais é o que seduz os terroristas que invocam uma distorcida interpretação fanática do Islão.

Tudo ficou ateado naquele fatídico dia 11 de Setembro de 2001 em que o século XXI começou e ficou enxameado de incertezas. Depois dos aviões como mísseis cresce o temor de ciberatentados, de que já houve primeiros sinais.

Aquele dia continua, 20 anos depois, a marcar a nossa vida com uma ameaça indefinida.

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